O copo

Ela caprichava na limpeza da casa, afinal tinha acabado de mudar para o centro, queria tudo brilhante, mesmo que sempre tenha sido asseada.

Agora que tinha mudado para o centro. Finalmente ela e o marido haviam saído da Fazenda Couto, 29 assassinatos de fevereiro a abril, aquilo não era vida. O Alto de Amaralina era o paraíso.

O tempo de ônibus então, oxe oh gente, aquilo que era vida, chegava no Rio Vermelho rapidinho, era só subir a rua e estava em casa. Carlos, seu marido também, pena que peão de obras nunca sabe o endereço da próxima onde será.

Tinha tanto orgulho da sua vida, fez até a quarta série, depois um curso de cozinha no Senac, facilitou muito a vida para conseguir o emprego na casa da D. Mercedes. Ela sempre lhe dizia: Rosilene você é uma banqueteira de mão cheia.

Acordava às 5h, para cozinhar antes de pegar no batente, fazia a marmita do marido rapidinho. Era econômica, aprendeu no curso a reaproveitar tudo, sabia até fazer salpicão de cenoura, repolho, casca de abóbora e um pouquinho de frango, era um elogio só na família. E o seu bolo de casca de banana então?! Só ela sabia o segredo.

Só se incomodava com uma coisa, o copo. O marido saía às 6h, ela as 6:30. Enquanto a comida ardia no fogo, ela limpava e arrumava a casa. Deixava tudo organizado, a noite era só lavar e passar a roupa. Na hora de sair, passava um batom e tomava um copo d’água, que quentura é essa da Bahia, gente?! Corria para não perder o ônibus das 6:20. Não gostava de atrasar.

Na pressa o copo ficava em cima da pia.

Carlos chegava antes dela, que só voltava para casa depois de servir o jantar da D. Mercedes.

Era só ela entrar em casa, antes mesmo de beijar o marido e ela já ouvia: que diabos Rosilene, todos os dias é a mesma coisa, não consegue lavar um copo?

Ela suspirava pensando, “Que homem é esse que não vê tudo que faço em casa? Só fala desse maldito copo?!” Ele não via, não percebia o quanto ela trabalhava para deixá-lo feliz.

Dentro dela havia uma revolta latente. Pensava, o copo vai ficar na pia mesmo, não vou perder o meu ônibus por conta dele.

E os dias íam passando e a reclamação era constante ao chegar em casa. Por orgulho ela começou a deixar o copo todos os dias em cima da pia.

Era um copo de requeijão que a dona Mercedes tinha dado para ela. Os do casamento, comprados nas lojas americanas, estavam guardados embaixo da cama, não ia usar copos tão bonitos. D. Mercedes sempre dava mesmo, tinha mais de uma dúzia.

Pensava, que gente, vai gostar de requeijão assim! Coisa mais sem graça, bom mesmo é minha tapioca com manteiga de garrafa.

Chegou em casa naquele dia cansada dona Mercedes tinha convidado 12 pessoas para jantar. Mas fazer o que? Era o serviço dela…

Carlos estava revirado, nossa, cruz credo, o homem tava vermelho, já começou a esbravejar, não sabe nem lavar um copo?! Que coisa Rosilene!

No dia seguinte ela acordou mais cedo, fez todo o serviço de casa, esperou Carlos sair.

Pegou seis copos de requeijão. Passou batom vermelho, beijou cada um deles e deixou em cima da pia, como um beijo para o marido. Carlos não é pessoa ruim, só vive muito cansado, ela pensava, sempre desculpando.

Saiu para o serviço sem nenhum atraso.

Quando voltou começou a ladainha copo pra cá, copo pra lá e ela ouviu calmamente. Afinal, Rosilene era pacata não gostava de briga.

Ela então se aproximou da pia, pegou o primeiro copo e atirou nos pés do marido. Fez assim com o segundo, com o terceiro, com o quarto, com o quinto e com sexto. Enquanto ele gritava: o que é isso mulher?! Você enlouqueceu?! Não é de briga mulher! O que está acontecendo? Porque isso? Eu eu só falei do copo, eu não fiz nada! E os cacos explodindo e sendo atirados para todos os lados.

Naquele dia ela não disse uma palavra, não lavou nem passou a roupa, foi deitar e dormir, afinal era filha de Deus.

Quando acordou dia seguinte a cozinha estava varrida, Carlos tinha feito o café, lhe deu um beijo e foi para o trabalho.

Daquele dia em diante, quando Rosilene chegava da casa da D. Mercedes, não encontrava mais o copo na pia, ele já estava lavado e guardado na prateleira de baixo.

Conto de Adrianafetter

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