
O relógio marcava o fim de mais um turno. O chão de parquê, com suas tabuinhas desenhando geometrias antigas, refletia a luz do fim de tarde. Éramos várias sócias naquele coworking de alto padrão na W2 Sul, pertinho do meu apartamento no Plano Piloto. O alívio dos turnos exaustivos era o canto especial para cafés: um espaço reservado, com grãos moídos na hora, xícaras de porcelana e um silêncio respeitoso.
O canto do café era a minha obra de arte particular. As prateleiras exibiam uma coleção de xícaras e canecas que eu trazia de cada canto por onde andava, além de outras que ganhava de presente. Cada uma tinha uma história. E os grãos também eram especiais: do Pará, de Minas, do Espírito Santo, do Cerrado. Quem chegava escolhia o grão e via a moagem na hora, o aroma tomando conta do ar.
Naquela tarde, eu estava absorta no meu café. O aroma do grão do Cerrado subia da xícara de porcelana, e eu observava o movimento da rua pela janela do teto ao chão. Foi quando, por um instante, tive uma imagem nítida e estranha: pegadas úmidas no chão, como se alguém tivesse saído de um banho e atravessado a sala. Pisquei os olhos e a imagem sumiu. Ri de mim mesma. Devia ser o cansaço ou a fumaça quente do café brincando com a minha mente.
Terminei o café e voltei para casa, cansada.
Era o dia da faxina. A sala, pintada num tom de amarelo claro, tinha a exata cor do sorvete de creme que eu comia na infância. Robson estava lá, concentrado numa mancha circular no piso. Eu o havia contratado meses antes pela leveza da alma e pelo sorriso contagiante. Ele era um espetáculo à parte: naquele dia, vestia uma camiseta roxa com listras vermelhas e assobiava enquanto esfregava o chão.
Passei pela sala em direção à varanda. Os aspargos de jardim, os brincos de princesa e as orquídeas precisavam ser aguados. Ao passar entre a parede e o aparador, senti um leve desequilíbrio — um tropeço bobo — e apoiei a mão na cerâmica para não cair.
A cerâmica cedeu com um clique. De repente, um mecanismo desconhecido deslizou a parede inteira para o lado, revelando um cômodo. Um banheiro.
Fiquei estupefata. O rosto perdeu a cor. Robson parou com o pano no ar, os olhos arregalados.
— Oxe! — ele exclamou. — D. Cibele, a senhora tem um quarto secreto?
— Eu não sabia que tinha! — respondi, a voz falhando.
Espiei para dentro. Era um banheiro quadrado, amplo, com azulejos brancos antigos. Havia uma pia, um vaso e um chuveiro. O lugar parecia pronto.
Foi então que o cheiro nos atingiu. Um perfume doce e forte, inconfundível: o sabonete Odor de Rosas, da Phebo. O ar era úmido, pesado, como o de um banho quente recente. E, no chão e no box do chuveiro, havia respingos de água.
Senti um frio na espinha. Não era só o banheiro impossível. Era a imagem do café. As pegadas úmidas que eu tinha visto na visão da tarde. O aviso estava lá, o dia todo, e eu não tinha escutado.
— Dona Cibele… — Robson sussurrou, recuando. — Tem água no chão. E o ar tá úmido.
Dei um passo para dentro. A água molhou a sola do meu sapato. Olhei ao redor, a ficha caindo com um pavor silencioso. Não havia porta. Não havia batente. Não havia janela. Não havia nenhum lugar por onde uma pessoa pudesse ter entrado ou saído daquele banheiro. Era um cubo de azulejos selado, com a água do banho ainda evaporando no ar, mas sem entrada e sem saída.
Toquei os azulejos das outras paredes, sentindo a superfície úmida. Passei os dedos por cada rejunte, procurando algum clique, alguma fresta. Nada. A parede não tinha voltado ao lugar, e não havia como fechá-la. A casa agora tinha um buraco escancarado para o impossível.
Robson recuou mais um passo, o pano caído no chão. Ele olhou para mim, não disse mais nada. Apenas virou as costas e correu em direção à porta da frente como se tivesse visto um fantasma. O som da porta se fechando ecoou pela sala.
Não o segui. Recuei alguns passos, as pernas bateram na imensa poltrona amarela e, no mesmo movimento, eu me sentei. O corpo afundou no tecido, mas a mente estava longe de descansar. Uma avalanche de pensamentos caiu sobre mim: o banheiro, a parede, a umidade, o cheiro de sabonete. E as pegadas. A minha vida como eu conhecia até aquele minuto parecia ter se entreaberto como a parede. Fiquei ali, imóvel, encarando o banheiro, sem saber como seria o depois, enquanto o odor se espalhava pela casa.








