O Livro de Receitas

Herdei o livro de receitas da minha avó. Minha tia me entregou, dentro de um plástico, anos após a sua morte. Era um presente para sobrinha que gostava de cozinhar. Tive medo de mexer, pela fragilidade do conteúdo.

O livro, apenas um caderno antigo da Livraria Comercial, gasto pelo tempo, com a primeira página de papelão toda quebradiça, faltando alguns pedaços.

Anos após, já passadas algumas mudanças, inclusive de cidade e estado, retirei do plástico com cuidado.

Para minha surpresa consegui ler o seguinte:

Pertence a alunna (com 2 ns mesmo)

Escrito quase imperceptivelmente, leio

Lívia Reis… não consegui decifrar o terceiro sobrenome.

Como assim, o livro de receitas da minha avó, com aquela caligrafia perfeita, desenhada, não era da minha vó?

Minha tia e mãe falecidas, nunca gostaram de cozinhar, sequer devem ter manuseado o caderno. Para sempre ficarei com esse mistério.

O Início do Fim



I.

Eram quatorze horas quando o telefone vibrou.

Olhei para a tela e vi o nome da dona da casa de repouso. Não era seu horário habitual de contato. Atendi com o coração já apertado, daquele jeito que a gente aprende a reconhecer quando a vida está prestes a mudar.

— Sua mãe passou a noite na UPA. Estão transferindo ela para o hospital. Ela não está bem.

Não está bem.

Três palavras que cabem numa linha de mensagem mas pesam como uma casa inteira.

Moro em outro estado. Naquela tarde, o Brasil inteiro se esticou entre mim e minha mãe, e eu comecei a buscar passagens como quem reza — desesperada, repetitiva, sem saber se adianta.

Liguei para a antiga cuidadora, uma mulher que minha mãe amava e que conhecia seus silêncios melhor que qualquer médico. Pedi que ela fosse para o hospital. Precisava de alguém lá. Precisava de olhos que eu confiasse vendo o que eu não podia ver.

Meus filhos, ao saberem, disseram simplesmente: “Vamos com você.” Não sabíamos quando seria, quanto tempo ficaríamos, nada. Aluguei um lugar por temporada — um ponto de apoio invisível num futuro que eu mal conseguia imaginar.

A tarde foi um poço.

Passei horas ao telefone com o hospital, com a cuidadora, com a dona da casa de repouso. Cada nova informação era pior que a anterior. Minha mãe estava com 70% de oxigenação. Minha mãe não resistiria. Minha mãe morreria nos próximos dias.

Entre uma ligação e outra, eu reservava voos, transferia dinheiro, respondia mensagens, calculava gastos, despesas extraordinárias, contas do pronto-socorro. A burocracia da morte não espera a morte chegar — ela começa muito antes, nos papéis, nos boletos, na frieza dos formulários.

Não avisei ninguém na minha cidade natal. Não deu tempo. Minha cabeça era um único pensamento: chegar. Só isso. Chegar.

II.

No final da tarde, o celular vibrou de novo.

Uma mensagem.

Minha cunhada.

A mulher que entrou na minha vida quando eu tinha três anos. Que se casou com meu irmão, dezenove anos mais velho que eu. Que foi, durante tanto tempo, uma segunda mãe. Uma casa. Um colo. Uma presença.

Ela, com quem eu gostava de ficar. Com quem eu brincava. Que fazia parte da minha infância como parte da paisagem afetiva que me formou.

Anos antes, eu havia tomado uma decisão e comunicado a ela: eu não voltaria mais para minha cidade natal. A distância não era só geográfica — era existencial. Ela sabia que nossa convivência, a partir dali, seria feita de despedidas.

Agora, naquela tarde de segunda-feira, eu lia a mensagem que chegava pelo WhatsApp.

“Eu conheço sua mãe antes de você. Passei mais anos da minha vida me relacionando com ela do que com a minha própria mãe. Como você não me avisa que ela está no hospital? Tive que saber por uma prima que passou e a viu.”

Uma prima que passou e a viu.

Minha mãe estava numa sala de emergência. Ninguém “passa e vê” ninguém numa sala de emergência. Só médico, só enfermeiro, só quem tem autorização e motivo. Eu sabia que era mentira. Mas naquela tarde, a mentira doía menos que a acusação.

Minhas emoções afloraram todas de uma vez. Eu não precisava daquilo. Eu precisava ser acolhida, não julgada. Precisava que alguém dissesse “estou aqui”, não “você errou”.

Ela disse também que não estava na cidade, que tinha ido consultar numa cidade vizinha. Disse que minha sobrinha — neta da minha mãe — não poderia estar com ela porque estava com suspeita de covid.

Então eu não entendi.

Se ela não estava na cidade, se a filha dela não podia se aproximar, por que me cobrava por não ter sido avisada? O que ela faria? O que qualquer uma delas faria?

Respondi com calma, explicando o que tinha acontecido, as inúmeras atitudes que precisei tomar, a correria, o desespero, a falta de tempo para avisar quem quer que fosse. Expliquei como pude.

Menos de uma hora depois, minha mãe morreu.

III.

Mandei a notificação. Apenas os fatos.

Eu estava em choque. A distância — aquela maldita distância — não me permitia cuidar de nada. Quem tomou as rédeas foi a cuidadora, aquela que minha mãe amava, um anjo que surgiu na minha vida nos últimos anos e que, naquela noite, virou meu braço, minhas pernas, minha voz.

Ela foi ao cartório. Pagou as despesas hospitalares. Cuidou da funerária. Transferiu dinheiro. Fez tudo o que eu deveria estar fazendo, mas não podia, porque o Brasil é grande demais e a morte não espera ninguém chegar.

Pedi ao meu marido: não quero atender ninguém. Não quero falar com ninguém. Quero ficar só.

Ele entendeu. Ele sempre entende.

Mas minha cunhada ligou.

Ligou e exigiu falar comigo. Meu marido explicou: ela não quer atender, quer ficar sozinha. Ela não aceitou. Exigiu. Insistiu. Eu, do outro cômodo, ouvindo a voz abafada, dizendo não com a cabeça, repetindo para mim mesma: não, não, não.

Ela queria falar comigo. E eu não queria falar com ela.

IV.

No velório, ela chegou chorando alto.

Eram poucas pessoas — pandemia, tudo restrito, tudo contido. Mas o choro dela era grande, ocupava o espaço, chamava a atenção de todos. Ela veio na minha direção, braços abertos, pronta para me consolar.

E eu não sabia o que sentir.

Porque dentro de mim havia uma contradição que não cabia naquele momento.

Lembrei da infância. Lembrei da felicidade que era ficar com ela. Ela cuidava de mim, brincava comigo, me embalava. Fui cuidada, fui amada por aquela mulher. Houve um tempo em que ela era o lugar mais seguro do mundo.

Mas o tempo passa. As pessoas mudam.

Ao envelhecer, ela foi ficando outra. Mais ácida. Mais crítica. Mais distante da menina que um dia fui e da mulher que eu me tornara. Foram anos difíceis, desses que a gente atravessa mais por obrigação do que por afeto, porque não se abandona uma mãe — mesmo quando ela já não é mais a mesma.

E agora ela estava ali, aos prantos, querendo me consolar.

Eu não conseguia chorar. Não conseguia corresponder. Só conseguia pensar: essa mulher me amou. Essa mulher me feriu. As duas coisas são verdade. As duas coisas doem.

Fiquei parada. Deixei que me abraçasse, porque era o que se esperava de mim. Mas por dentro, eu era só silêncio e confusão.

V.

Naquela noite, depois do velório, sozinha no escuro do quarto, comecei a lembrar de tudo.

Lembrei de todas as visitas à casa de repouso. Ficava a uma quadra e meia da casa dela. Uma quadra e meia. Dá para ir a pé, dá para ir de olhos fechados, dá para ir todos os dias se quiser.

Ela só ia em datas especiais. Ou quando eu estava na cidade. Aí me acompanhava, como quem faz um favor.

Lembrei das atitudes desagradáveis. Chamar pessoas que minha mãe menos gostava para conversar com ela, como se aquilo fosse gentileza. Como se fosse amor.

Lembrei do meu irmão, morto há anos. Minha mãe, já demente, esquecia. Perguntava por ele. A médica tinha orientado: não corrija, não diga a verdade, apenas desvie, acolha, deixe que a memória frágil encontre seu próprio caminho.

Minha cunhada, em todas as visitas, respondia:

— Seu filho morreu, a senhora não lembra?

Uma vez. Duas vezes. Todas as vezes que minha mãe perguntava.

E minha mãe vivia o luto outra vez. Toda a dor, todo o choque, toda a perda — como se fosse a primeira vez. Repetidas vezes. Como se ela precisasse morrer de novo, sempre que a memória falhava.

E eu pensava: essa é a mesma mulher que me embalava quando eu era pequena?

Aquela noite, sozinha, eu pensei: ela quer falar comigo. Ela quer o quê? Me consolar? Se explicar? Se sentir parte da história?

Não sei. Nunca vou saber.

Porque eu não atendi.

VI.

Minha mãe foi cremada e dias depois depositei suas cinzas, com a dor, com o vazio.

E então veio o momento de decidir onde elas descansariam.

Escolhi um arroio. O mesmo lugar onde haviam colocado as cinzas da irmã dela. Suas águas, eu sabia, desaguavam no lugar onde minha mãe nascera — aquele pedaço de chão pelo qual ela era apaixonada, que ela amava com um amor que não precisava de explicação.

Meus filhos estavam comigo no dia, no arroio, meu filho jogou as cinzas na água. Chamei minha prima, próxima, da minha infância, para fazer uma oração. Ela e minha mãe se amavam e se entendiam. Eu apenas respeitava essa relação.

Foi um momento silencioso, íntimo, sagrado. A água levou minha mãe para encontrar a irmã, para correr em direção à terra onde tudo começou. Ali, naquele instante, senti que ela finalmente estava em paz.

Depois disso, fomos almoçar.

Eu, meus filhos, minha cunhada, minha sobrinha e um sentimento estranho.

Um almoço de despedida consciente, daqueles em que todos sabem que é a última vez. Não houve drama, não houve discurso. Apenas comida, afeto contido, e a certeza pairando no ar.

Ela sabia que eu não voltaria mais. Eu já havia comunicado isso há anos, quando minha mãe morrer será a última vez aqui. A distância não era só geográfica — era escolha, era caminho, era vida seguindo em outra direção.

Ali, naquela mesa, depois de ter jogado as cinzas da minha mãe nas águas que a levariam para casa, eu olhei para aquela mulher — a mesma que me embalou quando eu era pequena, a mesma que brincou comigo, a mesma que me feriu tantas vezes — e soube, com todas as letras, que era a última vez.

Comi. Agradeci. Fui embora.

E guardei para mim o que não cabia dizer.

VII.

Depois daquele almoço, tomei uma decisão definitiva.

Relações familiares tóxicas muitas vezes se arrastam por décadas sob o pretexto do “sangue” ou da “história”. Mas eu olhei para dentro de mim e percebi: manter isso por obrigação não era lealdade a ninguém — era traição a mim mesma.

Tive a coragem de dizer: até aqui.

E isso exigiu força, não fraqueza.

Rompi o contato depois daquele almoço. Não houve briga, não houve discussão. Apenas silêncio. Um silêncio que começou naquela tarde em que me recusei a atender o telefone e que se estendeu para todos os dias seguintes.

Até hoje penso naquela mensagem. Na cobrança. Na urgência dela em ser avisada, em estar incluída, em fazer parte.

Até hoje penso na quadra e meia.

Até hoje penso no velório, naquele abraço que não soube como receber.

Até hoje penso no almoço derradeiro. Na mesa posta. Nos filhos ao redor. Na sobrinha que também sabia. Na despedida que já tinha acontecido muito antes da morte, mas que ali, naquele dia, ganhou seu último ato.

Até hoje penso na minha mãe — na mulher que me amou, na mulher que me feriu, na mulher que partiu levando consigo essa contradição que só o tempo pode explicar.

Até hoje penso na minha cunhada — na segunda mãe que tive, na mulher que me embalou e brincou comigo, na mulher que esteve comigo naquele almoço derradeiro, e na mulher que também me feriu, repetidas vezes.

Duas mulheres. Dois amores. Duas feridas.

E eu, no meio, aprendendo que a gente pode amar e romper ao mesmo tempo. Que o afeto não apaga a dor. Que a memória boa não anula a má.

E que, às vezes, o maior ato de amor próprio é se afastar de quem a gente ama — para não continuar se perdendo dentro delas.

VIII.

Até hoje, quando fecho os olhos, vejo as águas do arroio levando minha mãe para o lugar onde ela sempre quis estar.

Vejo meus filhos ao meu lado, na margem, testemunhando o adeus.

Vejo também a menina que fui, nos braços da mulher que ela era — antes que o tempo a tornasse outra.

E vejo, também, aquela outra mulher. A que me ensinou a brincar. A que me acolheu como filha. A que, com o tempo, se tornou uma pergunta sem resposta.

Vejo a mesa do almoço. Os pratos, os talheres, os olhares. O silêncio.

Não tenho mais o que dizer a ela.

Mas tenho o que guardar: a infância que tive, as brincadeiras, o colo, aquele almoço em que todos sabiam que era a última vez.

E também a decisão que tomei, na maturidade, de me proteger.

Ambas as coisas são verdade.

Ambas as coisas doem.

Ambas as coisas me fizeram quem eu sou.

E até hoje, quando fecho os olhos, agradeço por ter tido forças para deixar ir — minha mãe, minhas mágoas, a cidade natal, e também a esperança de que algumas feridas pudessem ter sido diferentes.

Agradeço, acima de tudo, por ter tido forças para ficar em paz.



FIM

A Última Cor



I.

O sol de Barcelona era uma faca.

Eu caminhava por uma praia que não reconhecia, mas isso não me incomodava. A areia era clara, quase branca, e o mar tinha aquele azul-piscina que parece filtrado por filtros de celular. Mas o que me fazia apertar os olhos não era o sol — eram as cores.

Elas estavam em tudo, e eram todas neon.

Guarda-sóis amarelo queimando a retina, bolas de vôlei rosa-choque flutuando na areia, toalhas azul-elétrico espalhadas como manchas de tinta industrial. Uma criança passou com uma bola verde-neon, e por um instante achei que ela fosse deixar um rastro no ar, como um pincel atômico.

— Você está vendo isso também?

A voz veio de trás. Eu me virei.

Ele estava ali, sentado num banco de madeira pintado de amarelo-limão. A camisa branca dele contrastava com tudo, mas os olhos… os olhos dele tinham um brilho que combinava com o cenário.

— Murilo — ele disse, estendendo a mão.

Apertei. A pele era quente, mas não do sol.

II.

Ele me acompanhou sem que eu convidasse. E eu aceitei sem saber por quê.

— Você esteve no Parque Güell hoje — disse ele. Não era pergunta. — As cores ainda estão nos seus olhos.

Como ele sabia?

— Estive sim — respondi, cautelosa. — Mas isso foi… isso foi de manhã. Faz algumas horas.

Murilo sorriu. Um sorriso que podia ser gentil ou podia ser uma armadilha.

— As cores não saem tão fácil. Elas grudam. Gaudí sabia disso. Fez aquele parque para quem quisesse enxergar o mundo como ele realmente é: brilhante, falso e lindo.

— Falso?

— Claro. Nada ali é natural. É tudo mosaico, caco, pedaço de coisa quebrada montada de novo pra parecer arte. Igual gente, que remonta nossos próprios cacos.

Ele disse isso e me olhou de um jeito que fez meu estômago virar.

III.

Caminhamos pela orla, eu me perguntava o porquê de estar com esse homem,  ne senti estranha. Ao mesmo tempo meu olhar era afiado  As cores neon continuavam por toda parte, mas agora eu começava a notar algo estranho: elas não refletiam nas pessoas.

Os corredores, os vendedores ambulantes, as famílias na areia — todos tinham tons normais, humanos. Só os objetos, só as coisas inanimadas, é que queimavam naquela paleta elétrica.

— Você tá vendo isso? — perguntei a Murilo, apontando uma bola rosa que uma criança chutava.

— Vejo — ele respondeu. — Mas não me preocupa.

— Por que não?

— Porque o problema não é ver. O problema é começar a ver onde elas não estão. Confesso que não entendi a frase.

Ele parou de andar. Virou-se para mim com um sorriso que agora me pareceu ensaiado.

— Você quer saber se pode confiar em mim.

Não era pergunta.

— Quero — respondi sem me policiar.

— Não pode. Mas isso não quer dizer que eu vá te fazer mal. Só quer dizer que eu tenho meus próprios interesses.

— Quais?

Ele apontou para o mar.

— Ali. Daqui a pouco, o sol vai se pôr. E quando ele sumir, as cores vão apagar com ele. Todas. Menos uma.

— Qual?

— A que você trouxe do parque. A que ainda está na sua retina. Aquela, minha querida, vai ficar.

IV.

O sol começou a descer.

As cores neon ao redor foram perdendo intensidade, como se alguém fosse, devagar, desligando o brilho do mundo. O amarelo dos guarda-sóis virou mostarda. O rosa das bolas virou poeira. O azul do mar voltou a ser azul de verdade, aquele azul cansado de final de tarde.

Mas algo dentro de mim continuava brilhando.

Era um roxo. Não um roxo comum — um roxo elétrico, quase ultravioleta, que eu não lembrava de ter visto em lugar nenhum. Ele pulsava leve, como uma segunda pulsação.

— O que é isso? — perguntei, mas minha voz saiu mais calma do que eu esperava.

Murilo se aproximou. Dessa vez, senti um frio vindo dele, não mais calor.

— É a sua cor. A que você veio buscar aqui sem saber.

— Eu não vim buscar nada. Eu só vim a Barcelona.

— Você veio porque sonhou. E sonhou porque alguém te chamou.

— Quem?

Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.

— Eu.

V.

O vento mudou. A areia começou a rodopiar em pequenos redemoinhos. As pessoas ao redor não pareciam notar — continuavam caminhando, conversando, vivendo suas vidas alheias ao que acontecia entre nós dois.

— O que você quer de mim? — perguntei.

— Nada que você não possa dar. Só um pedaço.

— De quê?

— Da sua cor.

Ele estendeu a mão. A palma estava vazia, mas por um instante vi algo se formar ali: um redemoinho minúsculo, feito da mesma luz roxa que pulsava dentro de mim.

— Se eu der, o que acontece?

— Você acorda. E nunca mais sonha comigo.

— E se eu não der?

Ele sorriu de novo. Dessa vez, o sorriso tinha dentes.

— Aí você nunca mais acorda. Mas vai ter as cores para sempre.

VI.

Olhei para o mar. O sol já era só uma linha laranja no horizonte. As últimas cores neon se apagavam uma a uma.

Fechei os olhos.

Dentro de mim, o roxo pulsava mais forte. Não era medo — era outra coisa. Uma coisa que eu não sabia nomear, mas que parecia vir de muito antes de Barcelona, de muito antes de Murilo, de muito antes de mim.

Abri os olhos.

— Fica com ela — eu disse.

O rosto dele mudou. Não ficou bravo — ficou surpreso.

— Você tem certeza?

— Não. Acho que eu vim até aqui por causa dela. Não sei se quero acordar sem ela.

Ele me olhou por um longo tempo. Depois, lentamente, baixou a mão.

— Você é mais interessante do que eu pensei — disse ele.

E sumiu.

Não andou, não correu, não evaporou — simplesmente deixou de estar ali, como se tivesse sido apenas mais uma cor apagada pelo sol.

VII.

Acordei no meu quarto, em casa.

O teto era branco. As paredes eram brancas. Tudo era branco.

Mas, por alguns segundos — talvez só um, talvez nenhum — jurei ter visto um brilho roxo pulsando no canto do olho.

Não olhei.

Fechei os olhos de novo e esperei o dia nascer.

Fora da janela, o sol começava a subir. E eu ainda não sabia se tinha vencido ou perdido.


FIM

8 de Março: Carta Às Mulheres Que São Mundo

Hoje é dia de lembrar que lugar de mulher é onde ela quiser. Sem pedir licença. Sem caber em moldes.

Lugar de mulher é na mesa de reunião onde se decidem os rumos, apesar de, hoje, apenas 5,6% delas ocuparem cargos de diretoria ou posições C-level nas empresas. É na universidade, onde são 59,1% das matrículas, formando-se, qualificando-se, preparando-se para um mercado que ainda as recebe com salários 21,2% menores que os dos homens.

Lugar de mulher é na linha de frente da indústria, na tecnologia, na ciência. Como as jovens do programa Sou Aprendiz, que são 90% de um total de 700 participantes. Como as 625 mil mulheres que empreendem na Bahia, 70% delas negras.

Mas lugar de mulher também é em casa — e não deveria ser apenas lá.

Porque a realidade insiste em ser dura: 72,9% das mulheres já sofreram preconceito no trabalho. Quase metade é empurrada para fora do mercado até dois anos depois da licença-maternidade. E há aquelas que simplesmente… param. Não por vontade. Porque o mundo foi mais rápido, mais cruel, mais silencioso.

Algumas não param — são paradas.

Há mulheres que não chegam ao final do dia. Há mulheres que não voltam para casa. Há mulheres cujos corpos viram número, estatística, mais um nome na lista interminável dos feminicídios que este país insiste em naturalizar.

Em 2023, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 6 horas no Brasil. Em 78,1% dos casos, o crime foi cometido por parceiro ou ex-parceiro. A casa, que deveria ser abrigo, virou sentença.

Por isso, hoje, 8 de março, é dia de lembrar também das que não puderam escolher.

Das que tinham sonhos, formação, doçura, sensibilidade — e tiveram tudo isso interrompido pela violência de quem deveria proteger. Das que não estão mais aqui para ocupar lugar nenhum.

O enfrentamento à violência é responsabilidade de todos. E enquanto houver uma mulher sendo morta por ser mulher, o dia 8 de março será também dia de luta.

Mas será, igualmente, dia de celebração.

Celebração das que resistem. Das que buscam autonomia financeira como condição para liberdade de escolha. Das que desejam saúde mental e física como prioridade. Das que constroem, todos os dias, um mundo onde suas filhas tenham mais direitos e menos medo.

Mulher é o ser que chega, ocupa, transforma.

É doçura que enfrenta. É sensibilidade que lidera. É força que acolhe.

Hoje, ao olhar para o céu, procuro em cada estrela as que se foram. E encontro também vocês — todas as mulheres que seguem, que insistem, que florescem num mundo que insiste em não regar.

Lugar de mulher é onde ela quiser.

Que possamos, juntas, construir os caminhos.

E que nenhuma de nós precise deixar de existir para que isso aconteça.


Com admiração e luto transformado em luta,
Adriana Fetter
8 de março de 2026