Como Perder um Cliente

Mudei recentemente de apartamento. O que eu estava tinha um quarto e agora estamos em um de três quartos.

Costumo dizer que a sala é um salão de baile, pela mudança de tamanho dos imóveis e, é claro, faltam móveis suficientes para ocupar todo este novo espaço.

Pois bem, ontem eu e meu marido fomos atrás de mobília. Visitamos várias lojas e paramos em uma que achamos legal, espaço imenso, cheio de ofertas e coisas bonitas.

De cara conheci um conterrâneo, que veio nos atender. Nas apresentações, ele nos disse que era do Rio Grande do Sul, de onde sou também. Acrescentei que eu era de Pelotas. Ele salientou a beleza da cidade, os doces e nos disse que teve uma namorada lá.

Virou para outro colega, também gaúcho, e informou de onde eu era. O mesmo vira para mim e diz em tom sarcástico, “me disseram que até a rodoviária de Pelotas é rosa”.

Em resposta falei, “não gostamos dessa brincadeira”.

O nosso vendedor imediatamente pediu desculpas, mas ali a venda já estava perdida.

E, assim, com uma piada extremamente de mau gosto e homofóbica, a loja perdeu os clientes.

ANO NOVO NO QUINTAL DO TEMPO

O ano não começa no calendário.
Começa no instante em que você percebe:
o tempo não passou — ele apenas se fez semente e espera, quieto, no bolso do seu agora.

Em janeiro, aqui, o verão chega cheio de seiva, as árvores não se despojam — se vestem de verde transbordante.
Não há folhas caídas sob os pés,
mas sombras largas no chão quente,
mangueiras carregadas de promessas doces,
e o cigarrar insistente como um mantra do calor. Aproveite as copas das árvores para sentir a brisa em sua pele.

Não faça promessas grandiosas.
Faça microcerimônias: acordar e sentir o peso do corpo na cama.
Olhar a primeira luz sem pressa de nomeá-la.
Deixar que o café revele seu aroma
sem a tirania do relógio.

O novo ano não é um portal mágico.
É uma fresta.
Por onde entram cheiros de terra molhada, vozes antigas que ainda ecoam, e a coragem miúda de recomeçar com as mesmas mãos que um dia tremularam no inverno.

Não busque a grande virada.
Busque o quintal interno onde o tempo não é contado em horas, mas em descobertas: uma formiga carregando seu fardo, a sombra que dança conforme o sol se move, o silêncio que habita entre dois pensamentos.

E se sentir saudade do que ficou para trás, lembre-se: não é o ano que muda — somos nós.
E podemos mudar devagar,
como rio que alonga seu curso
sem alarde, apenas insistindo em correr.

Que seu 2026 não seja medido em metas, mas em miudezas vividas com plenitude, com o seu olhar atento as pequenas belezas que o mundo oferece.
Em rasgos de ternura inesperada,
em pausas que saram, em instantes tão cheios de vida que o eterno cabe dentro deles.

Porque o verdadeiro recomeço
não acontece à meia-noite.
Acontece no primeiro olhar que você der ao mundo, como se estivesse vendo pela primeira vez — com assombro, com respeito, com a quieta ousadia de quem sabe: cada dia é um ano em miniatura, e cada respiração, um novo começo.

Sempre grata a emoção de um novo dia!