Tecido de Memória

Existem duas palavras no mundo da costura que parecem iguais, mas têm naturezas opostas: a organza e o organdi. A organza é o tecido fino, translúcido, diáfano. É pura poesia à vista. Aos quinze anos, foi minha coroa: um vestido branco pintado à mão, em rosa antigo, pela Benette, com renda francesa e lantejoulas, obra do estilista e marido da artista, Carlos Alberto Motta. Um sonho que me fazia flutuar.

A Benette era uma artista que vivia mais reclusa, na Cascata, um lugar distante da cidade, onde tinha o seu ateliê. Quando eu nasci, no dia 18 de maio, ela saiu de seu refúgio para me visitar. Olhou para mim e disse à minha mãe que eu sempre teria uma boa estrela, afinal, o 18 é um número especial na numerologia, divisível por 3, por 6 e por 9. Sempre tive a fala dela como uma bênção, que me permitiu suportar os tecidos ásperos e continuar buscando a leveza na vida.

O organdi, por outro lado, é a armação. É a estrutura rígida que sustenta a beleza. E na minha infância, as roupas de organdi, lindas e engomadas, foram um pequeno suplício. Eu me lembro bem. O tecido pinicava o corpo inteiro, causava uma coceira insuportável, e eu me lembro do desconforto de vestir algo tão maravilhoso aos olhos, mas tão áspero para a pele. Foi ali, naquela infância, que aprendi sobre a dualidade das coisas: como algo pode ser belo por fora e arranhar por dentro.

E não foi só nas roupas. No jardim da minha infância, havia uma folhagem que causava o mesmo efeito. A urtiga. A gente morria de medo de tocar. Era uma planta de folhas verdes, aparentemente inofensiva, mas que queimava a pele por horas a fio se a gente encostasse. Ela nos ensinava, na prática, que a natureza — e a vida — guarda belezas que ferem.

A vida, os jardins e as costuras nos apresentam essa dinâmica o tempo todo. Nos apaixonamos pela beleza das flores, pelo perfume das rosas perfeitas, pelas pétalas que parecem ter saído de um sonho — mas, ao tocar, percebemos que os espinhos podem ser ásperos. Que o excesso de rigidez, o rebuscamento e a complicação arranham a nossa rotina. A beleza, quando exige sofrimento, deixa de ser acolhimento e vira organdi. Vira urtiga.

É preciso sabedoria para entender que a beleza não precisa ser um suplício. Que as escolhas mais bonitas são aquelas que acolhem, que não pinicam a alma nem o corpo. Foi no jardim, com as mãos que às vezes se arranham na terra, mas que sempre buscam o afeto, que eu aprendi a buscar o equilíbrio: a flor que perfuma sem ferir, a textura das folhas que conforta e o jardim que, acima de tudo, nos deixa à vontade.

Hoje, guardei o vestido de organza nas memórias mais bonitas e deixei o organdi e a urtiga lá no passado. Troquei a rigidez da armação pelo algodão que abraça. No jardim, fiz o mesmo: deixei de lado as complicações que arranham a rotina e escolhi o aconchego. Afinal, a vida já tem as suas asperezas. O que a gente cultiva — e o que a gente veste — deveria ser puro carinho.

O que eu era antes de você

Eu tinha dezesseis anos quando você nasceu. Dezesseis anos de mundo — e uma vida inteira de coisas que eu já sabia. Porque eu já tinha chorado muito antes de você chegar. Já tinha aprendido o que não se ensina na escola. Já carregava dentro de mim uma maturidade que ninguém me deu de presente — que a vida me impôs.

Mas eu ainda era menina. Uma menina que não teve muitos brinquedos, mas tinha brincadeiras. Coisas que eu inventei, coisas que eu descobri, coisas que me faziam rir. E foi isso que eu dividi com você, sem saber que estava dividindo. Não os brinquedos que eu não tive — mas as brincadeiras que eu gostava e me fizeram sobreviver à infância.

Você nasceu e eu já era outra, mas ainda era aquela. E você conheceu essa menina que eu fui. Conheceu de perto. Conheceu por dentro.

Você viu o que eu fazia para me divertir. Viu do que eu gostava antes de saber que gostava. Viu o que me fazia rir quando a vida já tinha me ensinado a chorar. E, de tanto ver, de tanto estar, você se tornou uma das pessoas que mais me conhecem nessa vida.

Não porque eu te contei. Não porque eu te expliquei. Mas porque você estava lá. Antes da memória, antes da narrativa, antes de tudo o que a gente inventa para se entender. Você me viu quando eu ainda não sabia que estava sendo vista.

Poucas pessoas têm esse privilégio. Poucas pessoas conhecem alguém antes que esse alguém se torne quem é. Você me conhece não pela história que eu conto, mas pela menina que eu fui — e que, de algum jeito, ainda sou.

Porque metade de mim ainda tem dezesseis anos. E essa metade mora em você.

Te amo filha!

AMBROSIA



Há cheiros que a gente não esquece.

Há cheiros que ficam guardados em algum lugar entre a memória e a alma, esperando o momento certo para voltar. A ambrosia é um desses.

Não é um doce qualquer. É um acontecimento. Quando começa a borbulhar na panela, a casa inteira sabe. O leite vai se transformando em dourado, o açúcar se dissolve, os ovos se incorporam devagar, e as especiarias — a canela, o cravo, a baunilha — se abrem no calor como quem abre os braços. O aroma sobe, atravessa a cozinha, passa pela sala, sobe as escadas, se instala nos quartos. Quem chega de fora já entra sabendo: tem algo sagrado acontecendo ali dentro.

Minha avó fazia ambrosia. Não sei se ela media os ingredientes ou se ia pelo olho, pelo tato, pelo cheiro. Aprendi vendo. Aprendi provando. Aprendi errando. E hoje, quando faço, sinto que estou repetindo um gesto que é mais antigo do que eu — um gesto de amor que passa de mão em mão, de colher em colher.

Mas nem toda ambrosia é igual. E aqui preciso ser honesta: a ambrosia da Dona Lúcia, avó dos meus filhos, ganha. É indiscutível. Ela fazia com leite tirado na hora, da vaca da fazenda. Ovos de pata, com aquela gema laranja, densa, quase vermelha. E o fogão a lenha, que dá ao doce um sabor que nenhum fogão moderno consegue reproduzir. Era outro nível. Era a ambrosia da terra, feita com o que a terra dava, na hora em que a terra oferecia.

A minha ganha em outro aspecto. Eu acrescento um plus: a baunilha. Não a essência — a fava. Raspo as sementes e deixo a fava inteira na panela, infundindo. Ela participa do cozimento, libera o perfume devagar. E tem a canela. Eu faço o dobro da receita e coloco três paus de canela. Porque eu amo canela. Não é um ingrediente — é uma declaração. Já o cravo, mesmo com a receita dobrada, fica em três. Porque o cravo é forte, e ninguém gosta de morder um cravo. Ele está ali para perfumar, não para ser encontrado. Cada cozinha tem a sua marca. Cada mão tem o seu jeito. E a ambrosia, esse doce tão simples e tão nobre, aceita todas as mãos que a fazem com amor.

E há outra coisa que me diferencia: eu não gosto de ambrosia branca. A minha é moreninha. Bato tudo no liquidificador — ovos, leite, açúcar — e levo para a panela. Cuido até levantar a fervura. E é aí que mora o perigo. A ambrosia, quando levanta fervura, pode derramar. E se derrama, você perde uma parte essencial. Por isso, você tem que estar ali. Atento. Olhando. Antes que ela levante. A ambrosia exige presença. Depois que a fervura se estabelece, aí sim você pode mexer de tempos em tempos, para não grudar no fundo. E deixar apurar. Apurar até ficar moreninha. O tempo é o ingrediente que ninguém vê, mas é ele que dá a cor, o sabor, a alma do doce.

Mas se me perguntarem qual é a melhor época para fazer ambrosia, eu não hesito: é o Natal. Porque o Natal é uma época de espiritualidade. As pessoas estão mais abertas, mais sensíveis, mais disponíveis para o amor. E a ambrosia, com o seu aroma angelical, parece ter sido feita para esse tempo. Quando o cheiro se espalha pela casa, eu sinto como se estivesse participando de algo maior. Penso no amor. Penso em todos os sentimentos bons que vão preenchendo as pessoas nessa ocasião. Penso nos anjos. E sinto que o doce que estou preparando carrega um pouco dessa energia. Não é só açúcar e leite e ovos — é uma oferenda. Uma forma de dizer, sem palavras, que a vida pode ser doce, que a casa está aberta, que há lugar para todos à mesa.

Sempre me perguntei por que a ambrosia tem esse poder. Acho que é porque ela exige tempo. Não é um doce que se faz com pressa. Ela pede presença, pede paciência, pede que a gente fique ali, mexendo, cuidando, esperando o ponto. E, enquanto a gente espera, o cheiro se espalha. E não é um cheiro que fica só na cozinha — ele me preenche. Eu fico ali, mexendo a panela, pensando no amor que estou transformando em alimento, colocando isso dentro dele. É um pensamento que me deixa mais angelical. Como se, por alguns instantes, eu estivesse mais perto dos anjos. O aroma sobe e eu subo com ele.

Quando meus filhos entram em casa e sentem o aroma, eles sabem. Não preciso dizer nada. Só preciso dizer: “tem ambrosia”. E o rosto deles muda. O corpo relaxa. A pressa vai embora. É como se o tempo, por um instante, voltasse a ser o que era quando eles eram pequenos.

A ambrosia é um doce perfeito porque ela não é só um doce. Ela é uma ponte. Entre a minha avó e eu. Entre mim e os meus filhos. Entre a minha cozinha e a cozinha da Dona Lúcia, que fazia com leite de vaca e ovo de pata. Entre o passado e o presente, entre a memória e a mesa.

Ela é feita de leite e ovos e açúcar e especiarias. Mas também é feita de tempo, de cuidado, de presença. E, acima de tudo, de uma coisa que não se mede: o amor que se transmite de mão em mão, de geração em geração.

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INGREDIENTES

· 2 litros de leite
· 12 ovos (de preferência, caipiras)
· 4 xícaras de açúcar
· 3 paus de canela (eu amo canela)
· 3 cravos-da-índia  (o cravo é forte, e ninguém gosta de morder um cravo)
· 1 fava de baunilha (baunilha é caro, e uma única fava já dá o aroma e o gosto necessário)

MODO DE FAZER

Bata tudo no liquidificador: o leite, os ovos, o açúcar. Leve à panela e junte os paus de canela, os cravos e a fava de baunilha (com as sementes raspadas e a fava inteira). Fique atenta, não saia de perto. Quando começar a levantar fervura, ela pode derramar — e você perde uma parte essencial. Assim que a fervura se estabelecer, abaixe o fogo e vá mexendo de tempos em tempos, para não grudar no fundo. Deixe apurar até ficar moreninha — a cor que você mais gosta. Retire a fava de baunilha, os paus de canela e os cravos. Deixe esfriar. Sirva em compoteira, com um fio de canela por cima.

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— Adriana Fetter – a que chora quando lembra desse aroma.

Luz

Tenho o ritual de abrir a cortina e, em seguida, a janela. É o meu jeito de convidar o sol para dentro de casa, de deixar o ar novo circular pelos cômodos. Aprendi, desde cedo, que a luz e o vento são remédios silenciosos para os dias.

Mas é no detalhe que a mágica acontece.

Ao observar o pequeno, descubro um universo suspenso. Fios de poeira fina flutuam no raio de sol que invade a sala, como se fossem pequenos astros numa galáxia invisível. É uma dança lenta, imprevisível, iluminada por um foco perfeito — como se todas as luzes do palco se curvassem, por um instante, apenas para eles. Eu paro, fascinada.

E o mesmo acontece quando as nuvens filtram os raios do sol lá fora. A luz perde a dureza, amolece, se espalha dourada sobre o mundo. É ali que encontro notas de esperança e fé, que alimento a minha espiritualidade sem precisar de templos, apenas de um olhar para o céu.

Porque a luz, no fundo, é um espelho.
A que vem de fora não ilumina apenas a casa, os móveis, os cantos esquecidos.
Ela ilumina o que mora dentro de mim, e me ensina a refletir o que já existe na minha essência.

Os Papéis da Presidência



Nunca imaginei que uma parte da minha vida fosse ser medida em gramaturas.

Quando cheguei, fui apresentada a um universo que não conhecia: os papéis dos escaninhos. Prateleiras finas, meticulosamente organizadas, abrigando folhas de todos os tamanhos, texturas e pesos. Cada uma com uma função. Cada uma com uma alma própria.

Eles me mostraram, com a paciência de quem ensina um ritual sagrado, que não se tratava apenas de papel. Tratava-se de protocolo, de etiqueta, de um código silencioso que eu precisava aprender a decifrar.

Havia o papel de seda, fino, transparente, lindo ao toque. Era o mais delicado de todos. E, no canto superior esquerdo, trazia impresso o brasão dourado — uma marca de autoridade que parecia flutuar na leveza do papel. Era reservado para as palavras escritas à mão, como um sussurro íntimo e solene do Presidente.


Havia o cartão branco, em casca de ovo, com brasão dourado, imponente e solene. Este era o escolhido para as mensagens especiais, a um destinatário único, como um gesto de distinção pessoal. Era o pavão da burocracia, mas um pavão que só exibia as penas para quem realmente importava.


O cartão branco com marca d’água, mais tímido e talvez o mais humano, era usado para os cumprimentos e condolências, onde a caligrafia se misturava à tinta, tornando-o um objeto de afeto em meio ao protocolo.


No papel ofício, couché, com o brasão da República em marca d’água, o Presidente não escrevia; ele discursava. Ali repousava a voz da nação, pronta para ecoar em solenidades.


E o papel A4, couché, com brasão dourado, era o canal oficial para a comunicação com a Câmara, o Congresso e outros órgãos. Era a voz da República falando com as instituições, carregando o peso da lei e da autoridade.

E então, o governo mudou.

Pessoas novas chegaram, com olhos ávidos e pressa de assumir. E eu, que havia aprendido aqueles códigos, me tornei a tradutora.

Ensinei que o cartão de brasão dourado era para um gesto raro, que o papel de seda exigia a caligrafia mais bela, que o ofício com marca d’água não era para rascunhos, ali imprimia-se os discursos. Ensinei o peso de cada palavra, o valor de cada textura.

Eu deveria ter guardado cada um deles. Deveria ter guardado o cheiro da tinta, a textura áspera da gramatura pesada sob os dedos, a leveza etérea do papel de seda deslizando pelas mãos — e o brilho discreto do brasão dourado naquele canto superior esquerdo, como uma joia incrustada na delicadeza.

Mas o tempo passou.
A Presidência foi se tornando mais tecnológica, mais veloz, menos analógica.
Os escaninhos foram se esvaziando.
Os papéis foram sendo substituídos por telas, por bits, por um mundo que não tem textura, que não tem peso, que não tem cheiro.

E eu, que nunca imaginei que teria de conhecer tantos tipos de papéis, agora me pego saudosa de algo que nem sei se ainda existe.
Saudosa daquela era em que a importância de uma palavra se media pela gramatura do papel em que ela era escrita, e em que a hierarquia de um país inteiro cabia, silenciosamente, dentro de um escaninho.

Guardo na memória todos os protocolos e o sabor daquelas tradições, assim como o cheiro de cada um dos papéis.

Insônia

Tomo comprimido do remédio que trata insônia

Antes de deitar tomo a fórmula fitoterápica que ajuda a relaxar

Pingo as gotinhas mágicas

Faço a Acupressão nos braços

Uso os mesmos pontos da acupuntura tradicional chinesa

E deito para relaxar numa incrível noite nos braços de morfeu

Num segundo a minha mente se enche de pensamentos alternativos

Desde arrumar a geladeira,

O próximo texto que vou escrever

A mensagem que vou enviar para os meus filhos

O roteiro da próxima viagem

A Bienal de São Paulo

São infindáveis e desnecessários

Esse agente dentro do meu corpo, meu cérebro, é completamente independente de mim

Ele toca o terror na hora de dormir

Tem dias que estou embarcando num soninho

Ele grita dentro de mim, olha só começou a dormir.

E me acorda para a próxima hora insone

E eu fico fritando na cama de um lado e de outro escolhendo a melhor posição

Sabe o que é engraçado?
Tomei alopatia, fitoterápico, fiz acupressão, comprei o melhor colchão do mercado…
Mas a verdade é que a minha mente não paga aluguel e se acha dona do imóvel.
Ela chega de madrugada, muda os móveis de lugar e me obriga a morar na bagunça.
Hoje, cansei de lutar.
Deixei a ditadura da minha mente varrer a casa.
Se ela quer trabalhar, eu vou descansar.
(Ela que se vire).