
I.
O sol de Barcelona era uma faca.
Eu caminhava por uma praia que não reconhecia, mas isso não me incomodava. A areia era clara, quase branca, e o mar tinha aquele azul-piscina que parece filtrado por filtros de celular. Mas o que me fazia apertar os olhos não era o sol — eram as cores.
Elas estavam em tudo, e eram todas neon.
Guarda-sóis amarelo queimando a retina, bolas de vôlei rosa-choque flutuando na areia, toalhas azul-elétrico espalhadas como manchas de tinta industrial. Uma criança passou com uma bola verde-neon, e por um instante achei que ela fosse deixar um rastro no ar, como um pincel atômico.
— Você está vendo isso também?
A voz veio de trás. Eu me virei.
Ele estava ali, sentado num banco de madeira pintado de amarelo-limão. A camisa branca dele contrastava com tudo, mas os olhos… os olhos dele tinham um brilho que combinava com o cenário.
— Murilo — ele disse, estendendo a mão.
Apertei. A pele era quente, mas não do sol.
II.
Ele me acompanhou sem que eu convidasse. E eu aceitei sem saber por quê.
— Você esteve no Parque Güell hoje — disse ele. Não era pergunta. — As cores ainda estão nos seus olhos.
Como ele sabia?
— Estive sim — respondi, cautelosa. — Mas isso foi… isso foi de manhã. Faz algumas horas.
Murilo sorriu. Um sorriso que podia ser gentil ou podia ser uma armadilha.
— As cores não saem tão fácil. Elas grudam. Gaudí sabia disso. Fez aquele parque para quem quisesse enxergar o mundo como ele realmente é: brilhante, falso e lindo.
— Falso?
— Claro. Nada ali é natural. É tudo mosaico, caco, pedaço de coisa quebrada montada de novo pra parecer arte. Igual gente, que remonta nossos próprios cacos.
Ele disse isso e me olhou de um jeito que fez meu estômago virar.
III.
Caminhamos pela orla, eu me perguntava o porquê de estar com esse homem, ne senti estranha. Ao mesmo tempo meu olhar era afiado As cores neon continuavam por toda parte, mas agora eu começava a notar algo estranho: elas não refletiam nas pessoas.
Os corredores, os vendedores ambulantes, as famílias na areia — todos tinham tons normais, humanos. Só os objetos, só as coisas inanimadas, é que queimavam naquela paleta elétrica.
— Você tá vendo isso? — perguntei a Murilo, apontando uma bola rosa que uma criança chutava.
— Vejo — ele respondeu. — Mas não me preocupa.
— Por que não?
— Porque o problema não é ver. O problema é começar a ver onde elas não estão. Confesso que não entendi a frase.
Ele parou de andar. Virou-se para mim com um sorriso que agora me pareceu ensaiado.
— Você quer saber se pode confiar em mim.
Não era pergunta.
— Quero — respondi se me policiar.
— Não pode. Mas isso não quer dizer que eu vá te fazer mal. Só quer dizer que eu tenho meus próprios interesses.
— Quais?
Ele apontou para o mar.
— Ali. Daqui a pouco, o sol vai se pôr. E quando ele sumir, as cores vão apagar com ele. Todas. Menos uma.
— Qual?
— A que você trouxe do parque. A que ainda está na sua retina. Aquela, minha querida, vai ficar.
IV.
O sol começou a descer.
As cores neon ao redor foram perdendo intensidade, como se alguém fosse, devagar, desligando o brilho do mundo. O amarelo dos guarda-sóis virou mostarda. O rosa das bolas virou poeira. O azul do mar voltou a ser azul de verdade, aquele azul cansado de final de tarde.
Mas algo dentro de mim continuava brilhando.
Era um roxo. Não um roxo comum — um roxo elétrico, quase ultravioleta, que eu não lembrava de ter visto em lugar nenhum. Ele pulsava leve, como uma segunda pulsação.
— O que é isso? — perguntei, mas minha voz saiu mais calma do que eu esperava.
Murilo se aproximou. Dessa vez, senti um frio vindo dele, não mais calor.
— É a sua cor. A que você veio buscar aqui sem saber.
— Eu não vim buscar nada. Eu só vim a Barcelona.
— Você veio porque sonhou. E sonhou porque alguém te chamou.
— Quem?
Ele inclinou a cabeça, os olhos fixos nos meus.
— Eu.
V.
O vento mudou. A areia começou a rodopiar em pequenos redemoinhos. As pessoas ao redor não pareciam notar — continuavam caminhando, conversando, vivendo suas vidas alheias ao que acontecia entre nós dois.
— O que você quer de mim? — perguntei.
— Nada que você não possa dar. Só um pedaço.
— De quê?
— Da sua cor.
Ele estendeu a mão. A palma estava vazia, mas por um instante vi algo se formar ali: um redemoinho minúsculo, feito da mesma luz roxa que pulsava dentro de mim.
— Se eu der, o que acontece?
— Você acorda. E nunca mais sonha comigo.
— E se eu não der?
Ele sorriu de novo. Dessa vez, o sorriso tinha dentes.
— Aí você nunca mais acorda. Mas vai ter as cores para sempre.
VI.
Olhei para o mar. O sol já era só uma linha laranja no horizonte. As últimas cores neon se apagavam uma a uma.
Fechei os olhos.
Dentro de mim, o roxo pulsava mais forte. Não era medo — era outra coisa. Uma coisa que eu não sabia nomear, mas que parecia vir de muito antes de Barcelona, de muito antes de Murilo, de muito antes de mim.
Abri os olhos.
— Fica com ela — eu disse.
O rosto dele mudou. Não ficou bravo — ficou surpreso.
— Você tem certeza?
— Não. Acho que eu vim até aqui por causa dela. Não sei se quero acordar sem ela.
Ele me olhou por um longo tempo. Depois, lentamente, baixou a mão.
— Você é mais interessante do que eu pensei — disse ele.
E sumiu.
Não andou, não correu, não evaporou — simplesmente deixou de estar ali, como se tivesse sido apenas mais uma cor apagada pelo sol.
VII.
Acordei no meu quarto, em casa.
O teto era branco. As paredes eram brancas. Tudo era branco.
Mas, por alguns segundos — talvez só um, talvez nenhum — jurei ter visto um brilho roxo pulsando no canto do olho.
Não olhei.
Fechei os olhos de novo e esperei o dia nascer.
Fora da janela, o sol começava a subir. E eu ainda não sabia se tinha vencido ou perdido.
FIM














































