Espinha na garganta

Gosto de parar pra conversar com a minha neta mais velha por telefone.

Ela já está na universidade, é uma das pessoas mais inteligentes e carinhosas que eu conheço.

Sempre que podemos tiramos um tempinho para um almoço avó e neta, mas a universidade agora a ocupa bem mais, requer mais dedicação aos estudos intensos, foi um semestre difícil, muito diferente do segundo grau.

A universidade tem seus meandros que só um semestre surrado para nos ensinar a adaptação.

Mas a pauta não é ela e sim a conversa que tivemos. Para mim foi muito importante, com ela eu me sinto à vontade de falar dos meus sentimentos mais recônditos.

Nessa conversa me dei conta da espinha que tenho atualmente atravessada na garganta. E me vi falando de uma tristeza que tenho carregado comigo.

Eu já falei anteriormente que eu sou cientista política e atualmente eu sequer consigo falar em política.

Quando eu procurei um curso nas ciências sociais e humanas eu estava numa fase em que pensava que poderia mudar o mundo, como todo jovem.

Agora me vejo reavaliando todo um caminho, a minha trajetória, de vida dedicada às políticas públicas e me pergunto porque estamos onde estamos.

Eu não tem uma resposta,  eu não consigo achar uma resposta, eu não consigo falar de política, porque o que está aí não é política é politicagem, é oportunismo.

Eu espero que um dia eu consiga voltar a discutir políticas públicas e não ouvir sobre corrupção, desvio de verbas públicas, trocas de favores, troca de recursos públicos por voto.

Para quem sempre se preocupou com a fome, com que cada brasileiro tivesse um prato de comida na mesa, que tivesse uma educação decente e saúde de qualidade, este é um momento de profunda tristeza com Brasil.

Eu tive uma formação humanista, não acredito nessa sociedade que se só se importa com o próprio umbigo, sem enxergar o seu semelhante, não acredito no ter em detrimento do ser. Isso nunca vai transformar o Brasil em  um país melhor.

Mas se tem uma coisa que eu não acredito, e o Brasil já nos provou isso em outras eleições, é em salvadores da Pátria, isso não existe, o que existe é uma população educada e comprometida com futuro do seu país, não oportunistas de plantão.

Não existe atualmente a possibilidade de se discutir política, virou agressão gratuita, não pergunto sobre a tendência política, eu tenho a minha, e vou respeitar o que vier nas eleições, talvez só não continue por aqui, porque não existe milagre.

O que me interessa é voto consciente. Conheça a plataforma da pessoa em que você vai votar, a história de vida dessa pessoa, não se deixe levar por discurso vazio.

Viver de política e não para a política, essa é a realidade de quem vive se reelegendo, salário fácil, pouco trabalho, por vezes 2 projetos em 3 décadas.

Não existe salvação sem investimento em educação, sem mexer nas estruturas sociais. Tem que haver um comprometimento com educação, com saneamento básico.

Eu fui professora, não vejo futuro para o Brasil sem investimento em educação básica e nos demais níveis, sem investimento em pesquisa, nós estamos exportando os nossos melhores valores.

Estamos numa crise de falta de diálogo, discurso vazio, sem projeto de trabalho.

Afundamos tanto que não será fácil vir a tona. E nós, brasileiros, temos que nos comprometer com o projeto que queremos de país e não esperar que alguém tome o timão das nossas mãos e faça o projeto de Brasil dele, não nosso.

De qualquer forma, independente da escolha, quem vai pagar as consequências seremos nós. O povo americano já está pagando…

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Um igual tão desigual

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Numa das minhas idas para exames e consultas ao hospital Sara Kubitschek resolvemos almoçar no shopping em frente.

Tudo normal, até que uma cena, que eu não via há muitos anos, me chamou a atenção e me chocou. Ao nosso lado tinha algumas bandejas com restos de comida, de pessoas que haviam  deixado ali, um senhor, não era um mendigo, vestia camisa, calça, cinto e carregava uma mochila, começou a engolir os restos avidamente, percebia-se, nitidamente, que estava com muita fome.

O meu coração disparou numa angústia tremenda, essa foi a minha única reação diante da fome, fiquei paralisada, não conseguia nem olhar pra aquela situação com medo de constrangê-lo, foi realmente paralisante.

Me arrependo de não ter oferecido um prato de comida, fiquei fazendo a minha auto-crítica depois.

Eu não vou tentar ser politicamente correta aqui, porque realmente me parecia que ele não queria ser visto, percebido, apenas queria comer em paz, não sei, não sei se era isso, a impressão que dava é que ele não queria ser interrompido.

Com a mesma pressa com que chegou ele se afastou da mesa à procura de outras bandejas com comida.

Estamos acostumados a ver mendigos, pedintes de rua, pessoas que moram na rua, pessoas que pedem no trânsito, essa realidade não nos choca mais como deveria, nos anestesiou, mas é chocante quando você vê um igual, numa cena tão impensável. Desde a década de 90 eu não pensava mais em fome.

Como falei, não quero ser politicamente correta, aqui só quero falar do que senti.

Há anos que a falta de comida e a dificuldade financeira não batia tanto aos olhos. Agora chegou na classe média?!

Cada vez mais noto que precisamos reler e aplicar as palavras de Cristo, afinal Ele sempre nos disse que somos todos irmãos.

20 anos sem Betinho

 

Betinho

© Foto de Dadá Cardoso/Ibase. O sociólogo Herbert José de Sousa, o Betinho.

 

“O que somos é um presente que a vida nos dá. O que nós seremos é um presente que daremos à vida.”

Herbert de Souza

 

Sinto falta da humanidade do Betinho, da grandiosidade desse brasileiro que lutou contra a fome dos seus irmãos.

Só quando não tivermos nenhum brasileiro com fome no nosso país seremos realmente um grande Brasil.

O Brasil ficou menor com a morte dele!