Ciclos

Sempre que eu estou em Pelotas avalio o passado e o futuro, pelas condições do meu presente. Percebo a situação em que se encontra a minha mãe, já esquecida de si mesma.

Quase uma criança, feliz com a festa de aniversário, os olhos brilhando pelas pessoas cantando parabéns, na frente de um bolo.

Penso na minha própria caminhada para a velhice. Os esquecimentos, as lembranças, as pessoas que encontrei em minha trajetória, o sentido de minha própria passagem por esta vida.

Envelhecer não é fácil, existe uma luta diária contra as dores e aflições da alma e do corpo. Este último não acompanha a velocidade dos nossos pensamentos.

Ao ver a minha mãe então velhinha e tão esquecida reflito, o quanto e até onde viveremos bem.

Hoje também assisti a tristeza e o esforço da minha cunhada frente a velhice da sua cachorrinha, que ela e o meu irmão, já falecido, criaram com tanto amor. Com quase 18 é praticamente impossível mais um ano.

O ciclos vamos se esgotando. Existe toda uma nostalgia vivenciada na tentativa de proporcionar pequenas alegrias a quem agora depende de nós, porque não têm mais forças para dar continuidade a própria trajetória de vida.

Este texto é no mínimo estranho por falar da quase morte. Todos sabemos que caminhamos para lá, mas o quanto estamos preparados para fecharmos o nosso próprio ciclo?!

Foi um dia alegre e triste e esses dois sentimentos conviveram lado a lado em todas as horas.

Precisamos aprender a envelhecer, porque essa sapiência é uma arte que podemos ou não vivenciar com dignidade.

As perdas

As notícias de morte sempre me acompanharam no decorrer da minha vida, mas eu estou numa fase em que elas estão aparecendo mais e mais, cada vez mais frequentes e de pessoas mais próximas a mim, o passar dos anos nos traz perdas. Cada dia isso me abala mais…

Tem época que se foge da lembranças, boas ou ruins, para não sofrer. Por mais distante que se vá, elas estão guardadas na sua mente, as gavetas se abrem e elas voltam inesperadamente.

Há dias que não são fáceis. Perder quem se ama ou mesmo pessoas que passaram por nossas vidas nos faz enfrentar nosso próprio destino.

Tento me preparar para a perda da minha mãe, que fará 93 anos no mês que vem. Sei que ela está sofrendo, com a pouca aceitação da fraca qualidade de vida física e mental, isso a deixa abalada. O esquecimento do presente, a falta de todos os que já partiram, ela não entende o que ainda faz por aqui.

Nós, os ocidentais, realmente não estamos preparados para a velhice e para o enfrentamento da morte.

A vida é um caminho com destino certo, deveríamos saber lidar melhor com isso, com as nossas perdas.

Dia das mulheres – Romilda e Sandrinha

Estava pensando um texto bem legal para fazer sobre nós mulheres e o nosso dia, isso foi interrompido pelo anúncio de dois feminicídios aqui em Brasília, dentre tantos ocorridos no Brasil.

Primeiro foi a Sandrinha, uma capoeirista, que nos anos 90 desenvolveu seu projeto de ensinar capoeira para crianças em praças públicas no Guará, cidade satélite do Distrito Federal. A vida depois fez dela uma moradora de rua, cujo companheiro colocou um final, sufocando-a e colocando fogo em seu corpo num contêiner.

Romilda era uma mulher que viveu todos os seus sonhos e realizou conquistas em sua vida, ser profissional realizada, mãe e dona do próprio negócio. Ontem, 6/3/2018, seu marido colocou um ponto final no processo de separação.

Ambas foram mortas por seus companheiros, o da Sandrinha saiu caminhando pela rua, como se nada tivesse acontecido, depois de colocar fogo no contêiner com o corpo da companheira. A Romilda foi morta a tiros pelo companheiro que depois se suicidou deixando dois filhos um de 3 e outra de 4 anos.

Duas histórias muito diferentes com um mesmo final trágico, ambas mulheres mortas por pessoas com quem compartilhavam a vida.

Dos 4.473 homicídios dolosos de mulheres, ocorridos em 2017, no Brasil,  946 são feminicídios. Estatísticas são números frios, quando se dá nome é que se percebe a tristeza dessas histórias.

Muitas pessoas questionam porque existe um dia só das mulheres, acredito que é porque existem problemas de discriminação, sexismo, feminicídio, infanticídio de meninas. Os problemas não são causados pelas mulheres, a maioria discriminada.

Minhas condolências às famílias dessas duas mulheres.

Feliz 8 de março – dia da mulheres!

Bofetada

Essa semana eu estava no hospital acompanhando minha mãe, que tem uma médica maravilhosa doutora Vera Magally, e em determinado momento ela me falou do caso da Cláudia, por conhecer a minha amizade e também por ser professora da mesma universidade. Me disse: Adriana tu não superastes isso, alguém está te ajudando como médico?! Aí eu respondi que tinha um cardiologista, um endocrinologista, um neurologista, um ginecologista, um otorrino, médicos como ela não, que trata da minha mãe como um todo, eu só tenho médicos que tratam partes da Adriana e não Adriana como um todo.

Quando meu irmão morreu, eu falei pra ela, foi muito triste era meu único irmão, gravemente doente, eu entendi o momento terrível na vida dele, triste me conformei. O desaparecimento da Claudia, da minha irmã, aquela que universo me enviou, foi uma bofetada na minha cara. Essa bofetada dói e arde até hoje. Eu não consigo me recuperar, por mais que eu tente.

Toda vez que eu vou a Pelotas eu volto para despedidas, no caso da minha mãe, agora com 92 anos, e que já superou tantos acometimentos naturais da idade e com a ajuda da Dra. Vera, são sempre pequenas despedidas.

Eu sei que em breve eu terei que me despedir de verdade, entenderei pela idade, e, por tudo que ela já viveu, eu serei grata.

Ainda não consegui ter esta grandeza de sentimento no caso da Cláudia. Quem fez isso com ela, no auge da vida dela pessoal e profissional, não atingiu só a ela, atingiu a dona Zilá, a tia Maria e a todos que a amaram e a amam e não a esquecem.

Setembro Amarelo

Vou abrir mão das dicas de sábado para falar de um assunto muitíssimo mais importante, a prevenção ao suicídio.

Entramos no mês de setembro e junto começou a campanha Setembro Amarelo, 10 de setembro é o Dia Mundial de Prevenção do Suicídio.

Já falei aqui de solidão, de depressão, agora vou falar sobre suicídio, que cresce ano após ano. Dados oficiais falam da morte de 32 pessoas por dia no Brasil por suicídio. Alarmante e triste!

Antes assunto tabu virou um assunto de saúde pública, precisava ser abordado abertamente para possibilitar às pessoas um grito por ajuda.

O suicídio mata mais que todos os conflitos somados no mundo, quase um milhão de pessoas. Para cada um que morreu existem no mínimo mais 10 pessoas que pensam em fazer o mesmo.

Falar ainda é a forma de possibilidade de ajuda, segundo a Organização Mundial de Saúde 9 dos 10 suicídio que aconteceram poderiam ser evitados.

Vamos ajudar quem está ao nosso redor, o mundo está precisando cada dia mais de solidariedade, gentileza e mãos estendidas. Você que está sofrendo saiba que pode contar com seus amigos sempre, procure ajuda no desespero.

Deixo aqui o link da campanha para maiores informações sobre o Setembro Amarelo.