Hemerocallis – o lírio de um dia

Hoje eu assisti o filme A Mula com Clinton Eastwood, baseado em fatos reais. Recomendo!

Um aspecto especial tomou a minha atenção, o início do filme, que apresenta o principal personagem, Earl, como cultivador das Hemerocallis, a flor da foto.

Na minha família havia duas pessoas apaixonadas por plantas, minha avó e o seu genro, meu pai.

Esse amor atravessou a geração e me tocou. Flores sempre me encantaram. As do meu pai, mais ainda. Era apaixonado por elas e me transmitiu esse sentimento. Os jardins desenhados por ele eram lindos.

Na casa da cidade, na minha infância, tínhamos flores multicoloridas. Eu passava horas e horas naquele jardim, olhando as hortênsias brancas, azuis e rosas as papoulas vermelhas, as bocas de leão multicoloridas. Os muros eram recobertos por hera, e troncos de rosas trepadeiras, onde orquídeas chuva de ouro repousavam.

Os jardins da casa da praia eram os meus preferidos, as flores eram mais rasteiras, mais ao meu alcance. Meu pai dedicava boa parte do tempo àquele jardim.

Ali tínhamos muitas rosas, muitas mesmo, de todas as cores e multicoloridas, copos de leite, Pallas, Strelitzia reginae, Margaridas, Amor Perfeito, Amarílis, lírio japonês, cravo, dálias, onze horas, zinias, pessegueiro de jardim, gladilos, astromelias, Iris e Narcisos.

O lírio de um dia, os do filme, me fizeram viajar para minha infância. Eles rodeavam os muros baixos do enorme terreno da casa, eu tinha fascínio por eles, ficava horas passando a mão nas plantas, abrindo o invólucro das sementes, de bolinhas pretas, enquanto percorria a linha do muro. Cada flor, originária de um bulbo, durava apenas um dia.

Uma imagem, uma flor e uma infância inteira para recordar.

Flores e indignação

 

Nós duas sempre gostamos de flores, acho que elas nos dão uma beleza que alivia a alma, trazem um certo alento para tudo aquilo que não conseguimos engolir. A beleza de um jardim nos faz viajar, o seu perfume inebria.

Estou indignada com o mundo, com a violência, não falo só dos assassinatos, dos assaltos, tem aquelas disfarçadas pelos colarinhos brancos e pelo dinheiro errático.

Me pergunto como alguém consegue enriquecer às custas da fome de outrem, da moradia, da saúde, como?! Como pode ser feliz com aquilo que falta ao seu semelhante?! Que ética traduz essas vidas? Como alguém consegue fazer fortuna com a miséria humana?!

Não consigo compreender esse mundo, não vejo como as pessoas podem ser solidárias a dor alheia na caridade, se seus ganhos são oriundos da desgraça dos outros. Moradias que desmoronam por falta de cimento, doentes que morreram com o desvio de medicamentos, criança com fome que deixa de comer a merenda que não chegou, por desvio dos recursos públicos, pessoas desatendidas pelo profissional que faltou.

Ninguém refletiu ou se julga ao menos responsável?! Quem vai se punir pelo tempo perdido? Quem vai se responsabilizar pela dor causada? Até quando vamos nos desculpar pela inércia e descaso?! Até quando continuaremos dizendo que não nos cabe?! Por que aceitamos tão facilmente as desculpas?!

O ano todo transcorreu sem que o teu processo Cláudia tivesse sido devidamente analisado, por quê?!  Por que ninguém conseguiu saber o que aconteceu contigo?! Por que não temos nenhuma resposta?! Quem vai nos dar alguma justiça?! Quem daqueles que podem fazer alguma coisa ainda se importa contigo?!

Eu que nunca acreditei em inferno hoje espero que os pecados sejam ao menos pagos por lá, espero que realmente exista justiça divina. Estou furiosa com a injustiça dos ditos humanos.

E as flores?! O que elas têm a ver com a minha indignação e todas essas questões?! Ainda consigo olhar para as flores e perceber alguma beleza, sei que neste mundo ainda tem quem se importe, é com essas pessoas que poderemos contar, certamente elas também acham que flores nos dão alento na aridez da vida.

Ainda quero ver e sentir a beleza das flores…

 

*Escrevi este texto em outubro de 2016, mas como ele ainda é atual no Brasil de hoje !Último dia do mês de outubro presto minha última homenagem no mês de aniversário de minha amiga irmã, Cláudia Pinho Hartleben.

A magia dos nossos jardins

Lembro da casa em que nasci e de toda a magia que ela sempre incutiu em mim com seus cheiros e cores.

A casa em si era cinza, de cimento penteado, com janelas verdes escuras, tinha um lindo jardim e um pátio de sonhos, cheio de magias, aquelas que as mentes das crianças, ainda intocadas pelo mundo, tem.

Na frente havia uma escada de mármore branco, margeado por outro azul, lindo. Para mim os degraus eram bancos, reconfortantes depois de correr em volta da casa.

O muro tinha desenhos e recortes, era a montanha russa dos meus pés, caminhar sobre ele era uma aventura, cheia de desafios, quanto mais rápido melhor.

O jardim tinha flores de diferentes cores e aromas, na frente, bem no centro, as amarelas fortes, quase um laranja, cabos bem fininhos e altos que desafiavam a gravidade, depois as papoulas vermelhas, de pétalas tão finas e sedosas, me lembravam asas de borboletas.

A grama era entrecortada por pedras de granito. Os quadrados irregulares, faziam os caminhos a serem percorridos.

De um lado sempre bateu mais sol, porque a casa ficava mais para a direita do terreno, não foi centralizada propositadamente, para se fazer a estradinha de granito cortado até o final, onde ficava a garagem.

No muro alto que ladeava havia um roseiral, rosas grandes, rosa claro, saiam de troncos retorcidos, ali tinham uma convivência harmoniosa com as orquídeas, em sua maioria chuva de ouro e  com a hera que recobria o cimento, deixando o cinza verde.

Do outro lado, na parede mais solar, havia um canteiro cavado no solo, cujas laterais possuíam pequenas corredeiras de cimento, que escoavam as chuvas no terreno inclinado, o meu pequeno rio, onde foram depositados muitos barquinhos de papel.

Flores diversas, de muitas cores, tamanhos e variedades faziam a minha festa, margaridas, bocas -de-leão, onze horas. Lembro de uma, especialmente, cuja a seiva depositada nas pétalas era de uma doçura ímpar, intercalava o sabor com as azedinhas. Muito mais tarde alguém me falou que era tóxica, não me fez mal algum…

Ao fundo espadas de São Jorge e de Santa Bárbara ornavam as multicoloridas flores.

Do outro lado,  que deveria ser o sombrio, moravam as hortênsias, azuis, rosas e brancas, sentia ao passar o perfume que vinha do solo, cheiro de umidade e terra preta, profundo, ainda consigo lembrar de cada um dos aromas desse jardim, ficaram impregnados na minha memória.

No pátio, ao fundo, eu tinha a minha floresta particular, formada por abacateiros, limoeiros, árvores de uva japonesa, pitangueira, bergamoteiras, nêspera doces, árvore onde eu subia para ver a floresta de cima, todas frutíferas e podia ver a parreira de uvas, onde fazia o piquenique imaginário.

Havia uma escada de cimento nos fundos, alta, mais inclinada que a da frente, e outra igual entre as hortênsias.  Subir e descer era uma aventura. Mais ainda a das hortênsias cuja porta estava sempre fechada por segurança, mas para mim isso tinha todo um mistério.

Embaixo de cada escada havia uma porta que levavam às cavernas, isso no meu imaginário infantil. A da frente só era aberta vez em quando, para guardar as ferramentas do jardim, soube muito tempo mais tarde. A de trás levava ao tanque e a sala de lenha, tanto para a lareira no inverno, quanto para o fogão de ferro da cozinha.

Na  lateral a porta levava para um salão onde minha tia dava aulas de francês,  o porão, onde eu moraria após a morte do meu pai.

Vivi muitas aventuras em meu jardim, criei muitas outras imaginárias, a cada estação ele mudava, sempre havia flor brotando, frutas amadurecendo, cheiros novos no ar. Talvez ele nem fosse tão grande como eu imaginava, mas era grandioso, efervescente, vibrante e possibilitou que o meu imaginário infantil viajasse por mundos desconhecidos, me deu asas, sonhos, viagens mil.

Até hoje consigo me refugiar nele, quando preciso de calma e concentração é para lá que viajo. Essas lembranças sempre me conectam contigo, também tinhas um jardim cheio de flores, um pátio cheio de aventuras, que rica vida foi ali vivida. Quantos sonhos não podes mais viver…

Texto dedicado a Cláudia Pinho Hartleben, amiga desaparecida.

Flores frescas

camelia

Ahhh, a diferença entre o querer e o poder…

Eu queria ter vasos de flores pela minha casa, toda a semana abastecido, com flores frescas, amo flores.

É um desejo tolo, talvez, inacessível pelo preço das flores nas floriculturas, já que moro em apartamento e não posso colher no jardim. Querer nem sempre é poder, não é mesmo.

Eu te faço uma pergunta, mesmo que você pudesse ter o que quer, isso é realmente importante para a sua vida? Vai fazer diferença pra você ter essa coisa?

Eu fiz uma opção de vida, dei preferência a ser do que a ter. É óbvio que nós gostamos de ter sempre mais,  mas ter o suficiente compensa, ser é muito importante.

Usei o exemplo das flores frescas porque se eu pudesse as terias, é uma representatividade, mas não vai fazer diferença efetiva na minha existência.

Ser vai,  é minha essência, é o que me define como pessoa e em todas as minhas relações na vida.

O que me sustenta, os meus alicerces foram as relações de carinho que eu estabeleci no decorrer dos anos e para isso a minha opção em ser foi a melhor.

Fica a dica, sempre seja mais!