Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

É assim que me sinto em alguns dias dessa nova era brasileira.

Vez ou outra preciso me retirar e reenergizar, porque viver fora dos padrões de dignidade humana tem sido sufocante.

Eu fui atingida nas minhas crenças de valores humanos e de justiça, porém tem brasileiros sofrendo na carne, estão vivendo abaixo da linha da pobreza.

Aquelas cenas dos venezuelanos buscando comida no lixo, eu gostaria de dizer que isso está acontecendo aqui no Brasil, neste momento, a diferença, a televisão não mostra, ou mostra pouco.

A nossa indignação é seletiva?! Conseguimos ser solidários ao distante, mas indiferentes ao conterrâneo?

As mortes violentas nas favelas continuam e nada…

Quem financia a violência onde mora? Em endereços onde é inimaginável uma operação policial, nos moldes das que acontecem onde vivem os mais pobres.

Acredita mesmo que um moleque aliciado pelo tráfico comprou um fuzil, que custa mais de R$50 mil?! E aquele cara que importa mais de 117 fuzis e mora num condomínio é o que?!

Provavelmente, o dono do dinheiro do crime convive com você, esteve numa festa onde você também estava, ou num show maneiro que você assistiu.

Ninguém segue o dinheiro.

Trabalho análogo à escravo e infantil também está valendo, aquela roupa da moda, que tanto vende, pode estar numa loja que explora essas condições. Não importa as lágrimas de quem fez.

O Brasil que condena a invasão de terras pelo MST é o mesmo Brasil que aplaude os que invadem, matam e grilam terras, desmatando 19 hectares por hora na Amazônia.

O capital se importa com o consumo, nunca com as pessoas. Você também se torna escravo dos seus desejos.

O dinheiro pelo dinheiro não tem ética. Onde anda a nossa consciência social?!

Hoje temos no Brasil 55 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, desses, 5 milhões, vivem na extrema pobreza, isso significa sobreviver com cerca de R$7,00 por dia, são os miseráveis. Provavelmente está pior, esses dados são antigos…

Estamos passando pela vida deixando as marcas da destruição pelo caminho.

Esse verso de Chico Buarque define o que sinto em alguns dias

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

Se o Brasil sobreviver, me avisem

Flores e indignação

 

Nós duas sempre gostamos de flores, acho que elas nos dão uma beleza que alivia a alma, trazem um certo alento para tudo aquilo que não conseguimos engolir. A beleza de um jardim nos faz viajar, o seu perfume inebria.

Estou indignada com o mundo, com a violência, não falo só dos assassinatos, dos assaltos, tem aquelas disfarçadas pelos colarinhos brancos e pelo dinheiro errático.

Me pergunto como alguém consegue enriquecer às custas da fome de outrem, da moradia, da saúde, como?! Como pode ser feliz com aquilo que falta ao seu semelhante?! Que ética traduz essas vidas? Como alguém consegue fazer fortuna com a miséria humana?!

Não consigo compreender esse mundo, não vejo como as pessoas podem ser solidárias a dor alheia na caridade, se seus ganhos são oriundos da desgraça dos outros. Moradias que desmoronam por falta de cimento, doentes que morreram com o desvio de medicamentos, criança com fome que deixa de comer a merenda que não chegou, por desvio dos recursos públicos, pessoas desatendidas pelo profissional que faltou.

Ninguém refletiu ou se julga ao menos responsável?! Quem vai se punir pelo tempo perdido? Quem vai se responsabilizar pela dor causada? Até quando vamos nos desculpar pela inércia e descaso?! Até quando continuaremos dizendo que não nos cabe?! Por que aceitamos tão facilmente as desculpas?!

O ano todo transcorreu sem que o teu processo Cláudia tivesse sido devidamente analisado, por quê?!  Por que ninguém conseguiu saber o que aconteceu contigo?! Por que não temos nenhuma resposta?! Quem vai nos dar alguma justiça?! Quem daqueles que podem fazer alguma coisa ainda se importa contigo?!

Eu que nunca acreditei em inferno hoje espero que os pecados sejam ao menos pagos por lá, espero que realmente exista justiça divina. Estou furiosa com a injustiça dos ditos humanos.

E as flores?! O que elas têm a ver com a minha indignação e todas essas questões?! Ainda consigo olhar para as flores e perceber alguma beleza, sei que neste mundo ainda tem quem se importe, é com essas pessoas que poderemos contar, certamente elas também acham que flores nos dão alento na aridez da vida.

Ainda quero ver e sentir a beleza das flores…

 

*Escrevi este texto em outubro de 2016, mas como ele ainda é atual no Brasil de hoje !Último dia do mês de outubro presto minha última homenagem no mês de aniversário de minha amiga irmã, Cláudia Pinho Hartleben.