Querido diário – reflexões de vida e a beleza que mata

Hoje, às 6h da manhã, eu bati uma foto da minha janela, de um sol vermelho, lindo, pensei, querido diário, essa beleza mata.

Mata porque as cores vem das queimadas.

Pouco depois, ainda sob o impacto daquele instantâneo, eu abri uma reportagem, que falava de uma queimada em Rondônia, onde um casal, que não conseguiu fugir do fogo, morreu abraçado.

Há dias que venho refletindo, querido diário, sobre o dinheiro, o capital, a bolsa de valores. Por que, por mais que eu pense, eu não consigo entender essa filosofia do ganhar pelo ganhar, do ter pelo ter, de cada dia apostar em ter mais.

Quando foco é apenas o dinheiro, no ganhar, há imensas perdas pelo caminho.

Para isso pessoas são sacrificadas, no excesso de trabalho, na escravidão e mortes injustificadas. Mesmo que para isso se mate populações de fome e se alimente os porcos e o gado. Mesmo que para isso se fabrique cada vez mais armas, para se vender mais armas, para se fomentar a violência e as guerras.

Uma floresta inteira está sendo destruída, povos indígenas dizimados, biodiversidade arrasada e as nascentes d’água, que garantem o futuro, poluídas, obstruídas, desviadas.

No ganho rápido, que queime tudo, que haja ouro, exploração, minério, que se enriqueça.

Que os mercados se valorizem, que o dólar suba, que as bolsas apostem no caos, que os investidores migrem de país para país, saqueando suas reservas, empobrecendo suas populações.

Enriquecer é o objetivo, sem, no entanto, se conseguir levar um tostão sequer ao túmulo.

Querido diário eu não entendo o mundo, eu não entendo a desumanidade, eu não entendo o Brasil, em que vivo atualmente, eu não entendo os empresários sem consciência, eu não entendo, simplesmente, eu não entendo.

Se prefere destruir a edificar, matar a viver em humanidade. Estamos nos condenando e as gerações futuras, pelo ganho momentâneo, pelo consumo desenfreado e desnecessário.

Querido diário viver é caro, custa vidas!

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

É assim que me sinto em alguns dias dessa nova era brasileira. Vez ou outra preciso me retirar e reenergizar, porque viver fora dos padrões de dignidade humana tem sido sufocante.

Eu fui atingida nas minhas crenças de valores humanos e de justiça, porém tem brasileiros sofrendo na carne, estão vivendo abaixo da linha da pobreza.

As pessoas ficam indignadas ao assistir às cruéis cenas dos venezuelanos buscando comida no lixo. Eu gostaria de dizer que isso está acontecendo aqui no Brasil neste momento, a diferença, a televisão não mostra, porque não interessa a consciência e a crítica política do nosso povo.

Me diz porque a sua indignação é seletiva?! Consegue ser solidário ao distante, mas é indiferente ao seu conterrâneo, não enxerga ou pior ignora o que acontece debaixo do seu nariz.

Concorda com as mortes violentas nas favelas e esquece que quem financia a violência mora nos endereços abastados, onde é inimaginável uma operação policial nos moldes das que acontecem onde vivem os mais pobres. Ou você acredita mesmo que um moleque aliciado pelo tráfico comprou um fuzil que custa mais de R$50 mil?! E aquele cara que importa mais de 117 fuzis e mora num condomínio é o que?!

Provavelmente o dono do dinheiro do crime convive com você, esteve numa festa onde você também estava, ou num show maneiro que você assistiu. Mas morte de tiros de helicóptero merecem os favelado, crime existe para pobre. Ninguém segue o dinheiro.

Trabalho análogo à escravo e infantil também está valendo, afinal você pode comprar aquela roupa da moda que você tanto queria numa loja que explora essas condições. Não importa as lágrimas de quem fez.

O Brasil que condena a invasão de terras pelo MST é o mesmo Brasil que aplaude os fazendeiros que invadem e grilam terras, desmatando 19 hectares por hora na Amazônia, pela boa produtividade do agronegócio.

O capital se importa com o consumo, nunca com as pessoas. Você também se torna escravo dos seus desejos.

O dinheiro pelo dinheiro não tem ética. Onde anda a sua consciência social?!

Hoje temos no Brasil 55 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, desses, 5 milhões, vivem na extrema pobreza, isso significa sobreviver com cerca de R$7,00 por dia, são os miseráveis.

Que merda de vida é essa onde commodities valem mais que vidas?!

Estamos passando pela vida deixando as marcas da destruição pelo caminho.

Esse verso de Chico Buarque define o que sinto em alguns dias

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

Se o Brasil sobreviver, me avisem quando esse momento de subumanidade acabar.