Luz

Tenho o ritual de abrir a cortina e, em seguida, a janela. É o meu jeito de convidar o sol para dentro de casa, de deixar o ar novo circular pelos cômodos. Aprendi, desde cedo, que a luz e o vento são remédios silenciosos para os dias.

Mas é no detalhe que a mágica acontece.

Ao observar o pequeno, descubro um universo suspenso. Fios de poeira fina flutuam no raio de sol que invade a sala, como se fossem pequenos astros numa galáxia invisível. É uma dança lenta, imprevisível, iluminada por um foco perfeito — como se todas as luzes do palco se curvassem, por um instante, apenas para eles. Eu paro, fascinada.

E o mesmo acontece quando as nuvens filtram os raios do sol lá fora. A luz perde a dureza, amolece, se espalha dourada sobre o mundo. É ali que encontro notas de esperança e fé, que alimento a minha espiritualidade sem precisar de templos, apenas de um olhar para o céu.

Porque a luz, no fundo, é um espelho.
A que vem de fora não ilumina apenas a casa, os móveis, os cantos esquecidos.
Ela ilumina o que mora dentro de mim, e me ensina a refletir o que já existe na minha essência.

Os Papéis da Presidência



Nunca imaginei que uma parte da minha vida fosse ser medida em gramaturas.

Quando cheguei, fui apresentada a um universo que não conhecia: os papéis dos escaninhos. Prateleiras finas, meticulosamente organizadas, abrigando folhas de todos os tamanhos, texturas e pesos. Cada uma com uma função. Cada uma com uma alma própria.

Eles me mostraram, com a paciência de quem ensina um ritual sagrado, que não se tratava apenas de papel. Tratava-se de protocolo, de etiqueta, de um código silencioso que eu precisava aprender a decifrar.

Havia o papel de seda, fino, transparente, lindo ao toque. Era o mais delicado de todos. E, no canto superior esquerdo, trazia impresso o brasão dourado — uma marca de autoridade que parecia flutuar na leveza do papel. Era reservado para as palavras escritas à mão, como um sussurro íntimo e solene do Presidente.


Havia o cartão branco, em casca de ovo, com brasão dourado, imponente e solene. Este era o escolhido para as mensagens especiais, a um destinatário único, como um gesto de distinção pessoal. Era o pavão da burocracia, mas um pavão que só exibia as penas para quem realmente importava.


O cartão branco com marca d’água, mais tímido e talvez o mais humano, era usado para os cumprimentos e condolências, onde a caligrafia se misturava à tinta, tornando-o um objeto de afeto em meio ao protocolo.


No papel ofício, couché, com o brasão da República em marca d’água, o Presidente não escrevia; ele discursava. Ali repousava a voz da nação, pronta para ecoar em solenidades.


E o papel A4, couché, com brasão dourado, era o canal oficial para a comunicação com a Câmara, o Congresso e outros órgãos. Era a voz da República falando com as instituições, carregando o peso da lei e da autoridade.

E então, o governo mudou.

Pessoas novas chegaram, com olhos ávidos e pressa de assumir. E eu, que havia aprendido aqueles códigos, me tornei a tradutora.

Ensinei que o cartão de brasão dourado era para um gesto raro, que o papel de seda exigia a caligrafia mais bela, que o ofício com marca d’água não era para rascunhos, ali imprimia-se os discursos. Ensinei o peso de cada palavra, o valor de cada textura.

Eu deveria ter guardado cada um deles. Deveria ter guardado o cheiro da tinta, a textura áspera da gramatura pesada sob os dedos, a leveza etérea do papel de seda deslizando pelas mãos — e o brilho discreto do brasão dourado naquele canto superior esquerdo, como uma joia incrustada na delicadeza.

Mas o tempo passou.
A Presidência foi se tornando mais tecnológica, mais veloz, menos analógica.
Os escaninhos foram se esvaziando.
Os papéis foram sendo substituídos por telas, por bits, por um mundo que não tem textura, que não tem peso, que não tem cheiro.

E eu, que nunca imaginei que teria de conhecer tantos tipos de papéis, agora me pego saudosa de algo que nem sei se ainda existe.
Saudosa daquela era em que a importância de uma palavra se media pela gramatura do papel em que ela era escrita, e em que a hierarquia de um país inteiro cabia, silenciosamente, dentro de um escaninho.

Guardo na memória todos os protocolos e o sabor daquelas tradições, assim como o cheiro de cada um dos papéis.

Insônia

Tomo comprimido do remédio que trata insônia

Antes de deitar tomo a fórmula fitoterápica que ajuda a relaxar

Pingo as gotinhas mágicas

Faço a Acupressão nos braços

Uso os mesmos pontos da acupuntura tradicional chinesa

E deito para relaxar numa incrível noite nos braços de morfeu

Num segundo a minha mente se enche de pensamentos alternativos

Desde arrumar a geladeira,

O próximo texto que vou escrever

A mensagem que vou enviar para os meus filhos

O roteiro da próxima viagem

A Bienal de São Paulo

São infindáveis e desnecessários

Esse agente dentro do meu corpo, meu cérebro, é completamente independente de mim

Ele toca o terror na hora de dormir

Tem dias que estou embarcando num soninho

Ele grita dentro de mim, olha só começou a dormir.

E me acorda para a próxima hora insone

E eu fico fritando na cama de um lado e de outro escolhendo a melhor posição

Sabe o que é engraçado?
Tomei alopatia, fitoterápico, fiz acupressão, comprei o melhor colchão do mercado…
Mas a verdade é que a minha mente não paga aluguel e se acha dona do imóvel.
Ela chega de madrugada, muda os móveis de lugar e me obriga a morar na bagunça.
Hoje, cansei de lutar.
Deixei a ditadura da minha mente varrer a casa.
Se ela quer trabalhar, eu vou descansar.
(Ela que se vire).

Uber

Dei oi, tudo bem?!

Silêncio

Bom dia, o código é 0874

Resmungo do outro lado

Apenas o barulho do carro em movimento

Nenhuma fala

E o meu olho está doendo

Falta paciência

O trajeto em frente

Motorista estranho

Mal cumprimentou

Também mudei

Apenas agora

Não quero conversa.

Chamamos um carro, mas é a vida quem traz a história.

Fênix de Plantão



(ou: como eu aprendi a conviver com o meu próprio corpo)



Se você olhar para os meus exames, vai achar que eu sou uma personagem de novela médica — daquelas que vivem internadas, mas sempre encontram um jeito de dar uma escapada para o jardim.

Eu sou autoimune. Tenho artrite reumatoide, síndrome metabólica grave, epilepsia, doença de Sjögren — essa que resseca olhos, boca e alma, e que ninguém avisou que vinha junto com um pacote de inflamações. Meus pulmões vivem tendo um probleminha ou outro, e minhas articulações já perderam a conta de quantas vezes resolveram entrar em greve.

É o meu corpo tentando me dizer que a vida não é uma linha reta — é uma montanha-russa com altos, baixos e alguns loops que eu não pedi.

Estou na minha quarta infecção do ano. Esta é uma inflamação no pulmão — não é pneumonia, graças a Deus, mas já é o suficiente para me lembrar que a fragilidade também faz parte de mim.

E, no entanto, aqui estou. Escrevendo. Postando receitas no Cozinhando. Planejando. Amando. Vivendo.

É que eu aprendi, com o tempo, que a minha saúde não define a minha vida. Ela a acompanha — como uma sombra que às vezes se alonga, às vezes se encolhe, mas que nunca me impede de caminhar. Eu não deixo de fazer as minhas coisas porque tenho problemas de saúde. Nunca deixei. E não vou começar agora.

Isso não é negação. É escolha.

Claro que há dias em que o corpo pesa mais do que a alma. Dias em que levantar da cama parece uma tarefa hercúlea, e em que o silêncio do quarto é o único remédio que eu aceito. Mas, mesmo nesses dias, eu sei que a vida continua lá fora — e que eu posso, aos poucos, alcançá-la.

A artrite me ensinou a ter paciência com as mãos. A epilepsia, a respeitar os limites do cérebro. O Sjögren, a aceitar a secura com colírio à mão e um copo de água sempre por perto. As inflamações pulmonares, a valorizar cada respiração que não dói.

E, acima de tudo, tudo isso me ensinou que a produtividade não é sobre fazer tudo, mas sobre fazer o que importa. Sobre escolher as batalhas — e vencer as que valem a pena.

Então, se você está lendo isso e também tem um corpo que teimoso, que vive dando defeito, que parece ter um plano próprio, eu quero te dizer uma coisa: você não está sozinha. E você não é a sua doença.

Você é a sua coragem. A sua resiliência. A sua capacidade de rir da quarta infecção do ano e pensar: “Bem, pelo menos eu ainda posso fazer piada”.

Você é a sua Fênix. E as Fênix não param de voar — mesmo com as asas um pouco cansadas.

A vida não é sobre não ter problemas. É sobre como a gente lida com eles.

E eu, minha gente, escolhi lidar com os meus com um sorriso no rosto, uma receita na mão e a certeza de que, por mais que o corpo tente me parar, a minha alma está sempre em movimento.

Porque Fênix, de verdade, não é quem nunca cai. É quem sempre se levanta.

E, por aqui, eu continuo levantando. Sempre. 🕊️


— Adriana Fetter
Escrevivente, cozinheira de afetos e Fênix de plantão.

Ociosidade: é permitido

Tem dias que eu só quero ficar olhando pela janela e vendo a vida acontecer.

Perceber as nuances e as belezas em cada pequeno detalhe da vida. Como diria o sociólogo italiano, Domenico De Masi,  o ócio criativo. A psicologia positiva define como apreciação da beleza. Enfim, a possibilidade do cérebro não ter nenhuma responsabilidade imediata.

Eu defino como: para e fica quieta. Porque aí você vai conseguir produzir mais, depois.

Eu tenho essa necessidade do parar e ficar comigo mesma, é quando vem as ideias, para escrever, para criar.

É uma solitude criativa.

Se distanciar do mundo da pressa, do resultado imediato, da informação exacerbada, daquilo que você tem que fazer a todo momento, para ser alguém. Parar é mais do que necessário, é saudável.

E a gente aprende isso aos trancos e barrancos quando o corpo grita, para!

Aprendi isso na maturidade é uma potência quando paramos. Quando damos oportunidade ao nosso cérebro de criar, de voar, de pensar livremente.

Experimente, minha dica de hoje.

8 de Março: Carta Às Mulheres Que São Mundo

Hoje é dia de lembrar que lugar de mulher é onde ela quiser. Sem pedir licença. Sem caber em moldes.

Lugar de mulher é na mesa de reunião onde se decidem os rumos, apesar de, hoje, apenas 5,6% delas ocuparem cargos de diretoria ou posições C-level nas empresas. É na universidade, onde são 59,1% das matrículas, formando-se, qualificando-se, preparando-se para um mercado que ainda as recebe com salários 21,2% menores que os dos homens.

Lugar de mulher é na linha de frente da indústria, na tecnologia, na ciência. Como as jovens do programa Sou Aprendiz, que são 90% de um total de 700 participantes. Como as 625 mil mulheres que empreendem na Bahia, 70% delas negras.

Mas lugar de mulher também é em casa — e não deveria ser apenas lá.

Porque a realidade insiste em ser dura: 72,9% das mulheres já sofreram preconceito no trabalho. Quase metade é empurrada para fora do mercado até dois anos depois da licença-maternidade. E há aquelas que simplesmente… param. Não por vontade. Porque o mundo foi mais rápido, mais cruel, mais silencioso.

Algumas não param — são paradas.

Há mulheres que não chegam ao final do dia. Há mulheres que não voltam para casa. Há mulheres cujos corpos viram número, estatística, mais um nome na lista interminável dos feminicídios que este país insiste em naturalizar.

Em 2023, uma mulher foi vítima de feminicídio a cada 6 horas no Brasil. Em 78,1% dos casos, o crime foi cometido por parceiro ou ex-parceiro. A casa, que deveria ser abrigo, virou sentença.

Por isso, hoje, 8 de março, é dia de lembrar também das que não puderam escolher.

Das que tinham sonhos, formação, doçura, sensibilidade — e tiveram tudo isso interrompido pela violência de quem deveria proteger. Das que não estão mais aqui para ocupar lugar nenhum.

O enfrentamento à violência é responsabilidade de todos. E enquanto houver uma mulher sendo morta por ser mulher, o dia 8 de março será também dia de luta.

Mas será, igualmente, dia de celebração.

Celebração das que resistem. Das que buscam autonomia financeira como condição para liberdade de escolha. Das que desejam saúde mental e física como prioridade. Das que constroem, todos os dias, um mundo onde suas filhas tenham mais direitos e menos medo.

Mulher é o ser que chega, ocupa, transforma.

É doçura que enfrenta. É sensibilidade que lidera. É força que acolhe.

Hoje, ao olhar para o céu, procuro em cada estrela as que se foram. E encontro também vocês — todas as mulheres que seguem, que insistem, que florescem num mundo que insiste em não regar.

Lugar de mulher é onde ela quiser.

Que possamos, juntas, construir os caminhos.

E que nenhuma de nós precise deixar de existir para que isso aconteça.


Com admiração e luto transformado em luta,
Adriana Fetter
8 de março de 2026

Da Janela Que Se Mudou



No apartamento de 46m²,
a janela era uma tela infinita.
O horizonte vinha até mim sem pedir licença — um planalto de céu, uma geografia de nuvens, o distante que se fazia próximo.

Eu era pequena no espaço, mas imensa na vista.
A solitude tinha quilômetros de amplitude.
O vento entrava sem obstáculos,
e o silêncio era tão largo que cabiam todos os meus pensamentos — e ainda sobrava horizonte.

Agora, nos 120m², a janela não olha para o longe: olha para a vida.
Um prédio de moradores se ergue como um livro aberto.
Cada janela, um parágrafo; cada varanda, uma frase inacabada.

Vejo cortinas que se mexem, luzes que acendem ao entardecer, vultos que cozinham, esteiras que viajam quilômetros, que leem, que esperam.
Não há mais o vazio azul — há o colorido humano.
Não há distância — há intimidade involuntária.

No pequeno, eu tinha o céu.
No grande, ganhei as estrelas domésticas: a luz amarela da sala ao lado, a TV que pisca azul no terceiro andar, o vaso de flores na janela do quinto.

Perdi a imensidão,
ganhei a profundidade.
Antes, o horizonte me dizia: “você é parte do infinito.”
Agora, as janelas iluminadas me sussurram: “você é parte.”

Talvez a vida não seja sobre ter espaço, mas sobre trocar panoramas por presenças.
Sobre aprender que o vasto também pode ser vertical, próximo, cheio de histórias que não são nossas, mas que nos mantêm companhia no novo tamanho do nosso mundo.

Como Perder um Cliente

Mudei recentemente de apartamento. O que eu estava tinha um quarto e agora estamos em um de três quartos.

Costumo dizer que a sala é um salão de baile, pela mudança de tamanho dos imóveis e, é claro, faltam móveis suficientes para ocupar todo este novo espaço.

Pois bem, ontem eu e meu marido fomos atrás de mobília. Visitamos várias lojas e paramos em uma que achamos legal, espaço imenso, cheio de ofertas e coisas bonitas.

De cara conheci um conterrâneo, que veio nos atender. Nas apresentações, ele nos disse que era do Rio Grande do Sul, de onde sou também. Acrescentei que eu era de Pelotas. Ele salientou a beleza da cidade, os doces e nos disse que teve uma namorada lá.

Virou para outro colega, também gaúcho, e informou de onde eu era. O mesmo vira para mim e diz em tom sarcástico, “me disseram que até a rodoviária de Pelotas é rosa”.

Em resposta falei, “não gostamos dessa brincadeira”.

O nosso vendedor imediatamente pediu desculpas, mas ali a venda já estava perdida.

E, assim, com uma piada extremamente de mau gosto e homofóbica, a loja perdeu os clientes.

ANO NOVO NO QUINTAL DO TEMPO

O ano não começa no calendário.
Começa no instante em que você percebe:
o tempo não passou — ele apenas se fez semente e espera, quieto, no bolso do seu agora.

Em janeiro, aqui, o verão chega cheio de seiva, as árvores não se despojam — se vestem de verde transbordante.
Não há folhas caídas sob os pés,
mas sombras largas no chão quente,
mangueiras carregadas de promessas doces,
e o cigarrar insistente como um mantra do calor. Aproveite as copas das árvores para sentir a brisa em sua pele.

Não faça promessas grandiosas.
Faça microcerimônias: acordar e sentir o peso do corpo na cama.
Olhar a primeira luz sem pressa de nomeá-la.
Deixar que o café revele seu aroma
sem a tirania do relógio.

O novo ano não é um portal mágico.
É uma fresta.
Por onde entram cheiros de terra molhada, vozes antigas que ainda ecoam, e a coragem miúda de recomeçar com as mesmas mãos que um dia tremularam no inverno.

Não busque a grande virada.
Busque o quintal interno onde o tempo não é contado em horas, mas em descobertas: uma formiga carregando seu fardo, a sombra que dança conforme o sol se move, o silêncio que habita entre dois pensamentos.

E se sentir saudade do que ficou para trás, lembre-se: não é o ano que muda — somos nós.
E podemos mudar devagar,
como rio que alonga seu curso
sem alarde, apenas insistindo em correr.

Que seu 2026 não seja medido em metas, mas em miudezas vividas com plenitude, com o seu olhar atento as pequenas belezas que o mundo oferece.
Em rasgos de ternura inesperada,
em pausas que saram, em instantes tão cheios de vida que o eterno cabe dentro deles.

Porque o verdadeiro recomeço
não acontece à meia-noite.
Acontece no primeiro olhar que você der ao mundo, como se estivesse vendo pela primeira vez — com assombro, com respeito, com a quieta ousadia de quem sabe: cada dia é um ano em miniatura, e cada respiração, um novo começo.

Sempre grata a emoção de um novo dia!

Ano Novo em Construção

Não é calendário que faz o novo,
nem contagem regressiva na TV.
O novo não chega —
ele é escavado.
Cavado dentro do que você adiou,
do que deixou adormecido,
como semente no bolso do casaco do inverno passado.

Para ganhar um ano ano novo
(que valha o suor, as madrugadas,
os recomeços em terça-feira sem glamour)
você precisa primeiro
se dar permissão de ser novo.

Desmontar as certezas,
tirar a poeira dos “nunca mais”,
repintar as paredes internas
com a cor do risco.

Porque o Ano Novo
não está lá fora, na queima de fogos.
Ele está aqui, no seu sopro,
na sua capacidade de olhar para trás e não virar estátua de sal.

Ele espera, sim.
Mas não cochila —
ele observa.
Aguarda seu movimento mínimo,
seu “hoje vou”,
seu respirar fundo antes do recomeço.

E quando você finalmente
ousar ser o seu próprio eclipse,
alinhando sol e lua dentro de si,
o ano vai começar de verdade.

E pode ser em qualquer momento!

Inspirado no poema de Drummond Receita de Ano Novo

Inusitado

Imagem feita por IA

Mais uma vez em São Paulo, agora para o lançamento do livro que coordeno junto com a Angela Passadori.

Marco almoço com uma amiga e, atravessando a cidade, da Angélica para Moema, vou observando a paisagem cinza, por vezes colorida pelos grafites.

Toda vez me surpreendo com a quantidade de viadutos desta selva de pedras.

O carro diminuiu a velocidade, pelo trânsito intenso, para embaixo de um dos viadutos e me deparo com o inusitado do momento. Ali, em meio a um barraco plástico e pedaços de ripas, está uma menina bailando, no seu mundo de sonhos,  alheia àquela realidade.

A cena me emociona profundamente,  a situação nua e crua contrasta com a beleza do momento.  Que vontade de tirar uma foto, porém achei invasivo, interferir naquele cenário idílico.

Me despedi, quando o carro finalmente andou, fitando aqueles bracinhos que bailavam no ar, alegremente.

Parabéns

Ontem eu me deparei com uma cena inusitada, uma senhora bem idosa com seu cachorrinho no colo, sentada na frente de uma chocolateria, a única mesa ali. Um grande sorriso iluminava o seu rosto.

Uma torta singela sobre a mesa e todos os funcionários da loja em volta dela, alegres e festivos. De repente, começaram a cantar parabéns.

Eu estava ali apenas para tomar um cafezinho. Constrangida entrei na loja para fazer o meu pedido.

Elogiei a postura dos funcionários comemorando com a senhora. Então a atendente me disse ela, é sozinha, vem aqui todos os dias tomar um cafezinho conosco e hoje veio, também, comemorar a seu aniversário.

Aquela era a família dela.

No meu coração dividido entre tristeza e alegria, dediquei uma oração e também comemorei aquela data especial.

Todos ali repartiram a torta. Para ela era um dia feliz.

Que chatice essa história de homem entrar no vagão de mulheres!

Hoje peguei o metrô para voltar pra casa, depois de 2 horas esperando para ser atendida na farmácia de alto custo, normal. Muita gente precisando de remédio.

Eu entrei no vagão para mulheres, tenho direito a lugar por lei, estava meio cheio, então fiquei na minha, em pé.

No meio do trajeto, para minha surpresa, entra um homem, um pouco mais velho que eu. Ainda olhei bem para ver se ele tinha alguma deficiência, se usava algum tipo de colar, não, ele entrou ali porque ele quis.

Perguntei o que ele estava fazendo ali, mostrei a legislação, escrita em letras garrafais na frente dele, sobre o uso exclusivo do primeiro vagão para as mulheres, que não permitia ele estar ali. Se fez de louco, disse que em nenhum lugar é assim, eu falei para ele aqui é (Brasília), e há muitos anos. Ele não saiu…

Ainda teve uma criatura que levantou para ceder o lugar para ele. Aí uma outra mulher ficou indignada e foi abordá-lo também. Detalhe eu passei a viagem inteira em pé, na frente da cedente. Eu as minhas mais de seis décadas e os meus cabelos brancos. Sobre essa prosa de mulher desvalorizar a outra e passar pano para homem, fica para depois.

Quando eu desci fui no maquinista e falei: tem um homem aí dentro do vagão das mulheres, ele falou que ia chamar o segurança.

Segui para minha casa, parei no caminho e tomei um chai latte.

Honrar um amor

Para Luciana

Pelos que não puderam ser

Choro!

Sonhos almejados,

Enterrados.

Não houve vida,

Existiu um parto

E uma partida. Despedida.

Lágrimas escorreram,

Muitas…

Daquilo que poderia ser

E não foi

Ausência doída.

Havia uma roupa amarela

Guardada para o próximo.

Talvez …

Do tudo ao nada.

Por fim só.

O muito sonhado,

Anos a fio…

Vive no coração guardado.

Poesia de AdrianaFetter

Bambu

Poesia de AdrianaFetter

Sou bambu que balança ao vento
Minha alma é livre leve e solta


Minha alma é livre leve e solta


Não tenho respostas para nada


Faço buscas na brisa que me embala


E ouço rimas que me sorriem


Trazem leveza ao dia que passa


Faz um carinho suave em meu rosto


E me diz: não tenho certezas


Te trago notícias de esperanças
Apenas.

Quando eu morrer

Não me mande flores

Festeje a minha existência

Escreva sobre o seu amor por mim

Não me mande flores

Sorva um bom café em minha homenagem

Plante um jardim, por onde eu possa passear

Não me mande flores

Recorde o quanto amei a natureza

Faça um brinde à minha vida!

Não me mande flores

Te peço: floresça em plena vida!

Poesia de AdrianaFetter

Promessa



Às vezes volto a ser criança sem aviso. Um cheiro de terra molhada depois da chuva — tão raro em Brasília na seca  — e estou de volta ao quintal da infância. Vejo meus pés pequenos sobre a terra fofa, colhendo morangos vermelhos que manchavam os dedos de doce. Meu pai partia romãs, encontradas no mato, com as mãos, e nós comíamos de colher, semente por semente, como se cada uma contivesse um segredo.

Essa criança ainda vive em mim. Ela carrega não só a alegria dos sabores, mas também as dores, que eu pensava ter deixado para trás. Ao reconstruir minha trajetória até Brasília, entendi que não se trata de escolher entre preservar apenas o alegre ou apagar o triste — mas de abraçar a criança interior completa que fui, com suas romãs, seus morangos e suas feridas.

Cada curva no caminho para Brasília foi temperada por esses sabores antigos. A mesma mão que colhia pêssegos no pomar de casa, agora digita em teclados modernos — mas a amêndoa dentro do caroço ainda sabe a promessa.

Brasília não apagou meus sabores — apenas lhes deu novo palco. Aqui, no cerrado, minha criança interior finalmente compreende: a vida não é sobre apagar o passado, mas sobre enxertar memórias em novos troncos.

SuperAR

Quantas vezes precisamos respirar,

Inspirar longamente

Expirar até esgotar

Olhar ao redor baldio

Reentrar com ideia em si

Reaver o seu eu

Inspiração.

Espirar profundamente

Expelindo seus estranhamentos

Afastar todas as querelas

Transpiração.

Quantas respirações são necessárias

Até transmutarmos uma situação difícil?!

Superação.

O livro da minha vida


Cada pessoa carrega crônicas únicas, momentos que somados formam histórias cheias de sentido.

Ser feliz é uma escolha pessoal, viver cada instante, não ficar presa no passado, nem tentar antecipar o futuro.

A minha tem sido tentar melhorar a cada dia, superar o ontem e abraçar quem eu sou hoje.

Nem sempre é fácil, mas busco viver de forma que, ao olhar para trás, eu não queira mudar nada — porque fui o melhor de mim em cada instante.

Sou grata pelas dificuldades, pois me fizeram crescer. O que me sustentou foram os laços de carinho e a consciência de que agi com a maturidade possível em cada fase.

Minhas decisões me definem. Reinvento-me sempre, celebro minhas alegrias e sigo em frente com leveza.

A vida pode ser um encanto — desde que a gente sonhe, realize e esteja aberta às possibilidades. 


Encare os desafios com sabedoria, mantenha o equilíbrio, e nunca deixe de acreditar em si.

AdrianaFetter

Minuto mental

Ai que preguiça…

Estica vai…

Acorda! Não vai perder a hora…

Meditar um, dois, três,

Coordena essa respiração pessoa!

Tenho que limpar o banheiro

Ah! a roupa para lavar…

Será que a blusa vermelha tá limpa?!

Paguei a conta de luz?!

Ainda não respondi o e-mail… Tenho que mudar a senha…

Vou coar o café logo, nuh! tenho que comprar pó.

Pão com ovo ou tapioca?  

Essa música que não sai da minha cabeça… Burguesinha, burguesinha, burguesinha aaaaaaa

O Luiz ainda não me respondeu

Vixi, esqueci de calibrar o pneu….

Burguesinha, burguesinha, burguesinha aaaaaaa…

Ainda não consegui me concentrar, direito, amanhã eu consigo meditar melhor.

Burguesinha, burguesinha burguesinha aaaaaaa…

Aquele quadro tá torto…

Menina, o presente da Mada!

Nem seu Jorge me aguenta hoje…

Já enviei a proposta da Lorena?!

Gente, onde está esse passarinho cantando?!

Talvez um sushi no almoço…

Tenho que melhorar meu inglês

Burguesinha, burguesinha, burguesinha aaaaaaa…

Que delícia esse mamão!

A Lu e a Mayana ficariam orgulhosas do meu equilíbrio masculino, feminino,

“No centro sentimos leveza”

Minha essência, minha essência, minha essência…

Comida conforto

Foto por Sultan Ali em Pexels.com

Existem comidas que por mais que eu saiba a receita jamais conseguirei reproduzir novamente. Sinto saudade delas, muita, tem particularidades no fazer, o fogão a lenha, uma panela que dava uma queimadinha leve, a forma de lata de óleo antiga, tudo acrescentava sabor único, sabor que o tempo se encarregou de levar embora. Sem repetição… Waffles feitos numa forma de ferro, assados direto no fogo a lenha, cada um dos buraquinhos tinha um dedo de fundura, em cada furo uma generosa porção de geléia, doce de leite ou nata, a gosto do freguês, waffles com gosto de vó. O mingau feito em uma leiteira de aço inoxidável, naquele tempo em que queimava, então tinha que mexer rápido, mas ainda ficava com um queimadinho bom. Esse tinha gosto de mãe, a minha nunca gostou de cozinhar, mas fazia mingau na minha infância, até hoje é a minha comida de conforto, um bom mingau. O lagarto assado lentamente no forno, recheado de toicinho, macio e suculento, acompanhado de macarrão com molho de tomate, gosto de pai, que cozinhava as vezes, ainda guardo esses sabores comigo. Assim são as lembranças das comidas que trazemos conosco, os aromas, cheiros, cheios de recordações. E você, qual é a sua comida de conforto, aquela que além de agradar o coração também aquece a alma?!

Oficina Escrever sem medo: minicontos de verão, por Janaisa Viscardi

Iniciamos a oficina, fazendo uma escrita de cinco linhas, sobre quem somos. Fiz aquele basicão da escola prática, mulher, mãe, avó, casada, formada etc. etc. etc.

Ao final, da primeira parte da oficina, fiquei com o exercício de refazer essas linhas, de uma outra forma, que me representasse, então, aqui embaixo, está posto.

Professora de formação, exploradora por profissão, estudante, eterna, por opção, do fim até o começo.

Mulher mãe e avó, é amor de montão!

Vê beleza mundo afora, seja no micro ou macro cosmos.

Nascida em Pelotas, escolheu Brasília como morada.

Quando acorda dá bom dia ao mundo, aos céus e a natureza, com café, com certeza.

Pós-cinquentou em conteúdo digital, abraça o mundo, por querência e gratidão.

Guerreira, com a autoimunidade, tendo o humor como arma, tira de letra as lutas e batalhas.

61 anos de pura inspiração, tem olhar meigo e perspectiva jacobina.

É muralha, resistência, porto seguro, recheio de puro sentimento, em vastos amplexos.

Fim de Ano e a Montanha-Russa de Emoções: quando a alegria pode  dar lugar à depressão

O final do ano é frequentemente retratado como um período de alegria, união e celebração. As ruas se iluminam, as casas se enfeitam e o espírito festivo toma conta do ar. No entanto, para muitas pessoas, essa época pode ser marcada por sentimentos de tristeza, ansiedade e até mesmo depressão.

Por Que o Final do Ano Pode Ser Tão Difícil?
Existem diversos fatores que contribuem para o surgimento ou agravamento da depressão no final do ano:

– Pressão Social: A ideia de que todos devem estar felizes e celebrando pode gerar uma sensação de inadequação em quem se sente triste ou solitário.
– Cobrança por Retrospectiva: O final do ano nos convida a refletir sobre nossas conquistas e fracassos, o que pode levar a sentimentos de frustração, ansiedade e baixa autoestima.
– Fatores Financeiros: As despesas com presentes, viagens e festas podem gerar estresse e preocupações, especialmente para quem já enfrenta dificuldades financeiras.
– Lembranças e Perdas: Esta época pode reacender a saudade de entes queridos que já partiram ou de momentos felizes que não se repetirão.

Quais os Sinais de Alerta?
É importante estar atento aos seguintes sintomas:

– Tristeza persistente e profunda
– Perda de interesse por atividades que antes eram prazerosas
– Alterações no apetite e no sono
– Dificuldade de concentração
– Sentimentos de culpa e inutilidade
– Pensamentos negativos e recorrentes
– Isolamento social
– Fadiga e falta de energia

Como Lidar com a Depressão no Final do Ano?
– Reconheça Seus Sentimentos: Não tente ignorar ou reprimir suas emoções. Permita-se sentir e acolha seus sentimentos com compaixão.
– Busque Apoio Social: Converse com amigos, familiares ou procure grupos de apoio. Compartilhar suas experiências pode ajudar a aliviar o peso da solidão.
– Cuide da Sua Saúde Mental e Física: Mantenha uma rotina saudável com atividades físicas regulares, alimentação equilibrada e sono de qualidade.
– Limite a Exposição às Redes Sociais: A comparação com a “vida perfeita” de outras pessoas pode intensificar sentimentos de inadequação e tristeza.
– Defina Limites: Não se sinta obrigado a participar de todas as festas e eventos. Priorize seu bem-estar e diga “não” quando necessário.
– Pratique a Gratidão: Concentre-se nas coisas boas da sua vida e cultive sentimentos de agradecimento.
– Busque Ajuda Profissional: Se os sintomas persistirem, procure ajuda de um psicólogo ou psiquiatra. A terapia pode te ajudar a lidar com as causas da depressão e desenvolver estratégias para gerenciar suas emoções.

Lembre-se: Você Não Está Sozinho!
Buscar ajuda é um sinal de força e coragem.

Onde Encontrar Ajuda:
– Centro de Valorização da Vida (CVV): 188 (ligação gratuita)
– Serviços de Saúde Mental do SUS: Unidades Básicas de Saúde (UBS), Centros de Atenção Psicossocial (CAPS)

Autoimune, os nossos perrengues explicados por um especialista, Dr. Caio Zanetti, e por mim.

Ou amig♡ de auto imune

Vou tentar explicar, minimamente, o que acontece, que muitas vezes é interpretado de maneira equivocada.

Por favor, às pessoas da área da saúde, aqui é uma explicação básica e leiga, sem qualquer perspectiva de desenvolvimento técnico-científico.

Aquilo que nos acomete ou pode acometer, poucas, ou algumas vezes, ou seguidamente:

  • doenças das mais variadas, pela maluquice do corpo autoimune, que combate a si mesmo;
  • fadiga, que não é cansaço, muito menos preguiça, é o resultado de uma luta incansável do nosso corpo, que luta contra ele mesmo, com um inimigo externo.

A doença de Sjögren, minha autoimunidade, acomete as glândulas exócrinas.

As mais conhecidas e “visíveis, as responsáveis pelas lágrimas e saliva. As invisíveis, lubrificação das articulações, as responsáveis pela digestão… muitas outras, muitas mesmo, tudo o que fabrica algum líquido para o corpo funcionar.

Muitos órgãos acometidos: a pele resseca, racha, perde proteção (alergias), o nariz sem lubrificação (rinite, sinusite…); a garganta seca (amigdalite, faringite, laringite); infecções das vias aéreas superiores; pulmões “ressecados” inflamam, criam nódulos, “cicatrizam”; pâncreas, diminue as enzimas, amilase (digestão dos carboidratos), lipase (digestão das gorduras), tripsina( digestão das proteínas), insulina (digestão dos açúcares); fígado, bloqueio dos dutos biliares, hesteatose, cálculos na vesícula, hepatite autoimune; ainda temos, estômago, intestinos, rins, órgãos reprodutores.

Outras complicações podem incluir artrite, problemas oculares e perda da visão, problemas dentários, dores crônicas, neuropatias, problemas de sono, apneia, cálculos renais, doença renal, depressão e ansiedade, risco aumentado de câncer… dentre outros mais.

Deu pra imaginar o número de especialistas que temos que consultar ao longo da vida?! E os exames?!

O diagnóstico é difícil, confuso ou nunca acontecer.

Difícil, já cheguei a ter 16 especialistas.

Esclarecendo que, nem todo autoimune de sjögren tem ou é afetados em todos esses órgãos. As vezes em um, ou 2, outras em muitos.

A fadiga, sei que é difícil nos entender, porque não é cansaço, pode ocorrer por pouco ou muito tempo. Se o autoimune dormir não passa, se passar uma tarde inteira em frente a televisão, quieto, também não passa. São, horas ou dias e dias querendo apenas ficar num canto, para recuperar a energia perdida.

Família, colegas, amig♡s querid♡s não abandonamos vocês, continuam sendo amad♡s. A exaustão tomou conta e estamos tentando voltar a rotina e ao contato com quem amamos. O recolhimento faz parte.

O que pedimos a vocês: acolhimento, compreensão e respeito.

Finitude

Todos nós sabemos que um dia iremos morrer, não sabemos quando.

Este ano tive a real sensação de finitude, alguns eventos de saúde me trouxeram essa emoção. Nada a preocupar, apenas a concretude da realidade do fim.

Pensei com clareza o que a vida estava me proporcionando, tem tanta coisa maravilhosa, deu saudade daquilo que não poderei acompanhar, no futuro.

Amo os meus, quero que se sintam amados. Sabendo que não irei assistir vários anos de suas vidas. Um certo sentimento de melancolia se instalou. É a saudade do futuro que mencionei

Espero deixar a lembrança de quem eu realmente quis ser, porque realmente sou. Vivo cada momento com intensidade, fazendo o que acredito, sentindo cada emoção de cada instante.

Também quero ser uma referência querida, uma saudade boa.

Falo com naturalidade da morte, sempre falamos assim em família, sem tabus.

Já falei sobre o planejamento da minha morte, não gastem com coisas desnecessárias e supérfluas, guardem esse dinheiro. Mas pode deixar uma flor, amo flores.

Planejei o que quero no meu enterro, sem velório, por favor não façam isso, detesto, mas sim uma oração, um mantra, algo em que acreditem, comemorem a minha vida

Sempre amei cafés, sentem em algum que gostei, ou que curtam, lembrem de mim, rememorem uma vivência legal que tiveram comigo,compartilhando essas histórias entre si, chorem, riam, festejem minha existência.

Não pretendo morrer logo, mas não custa deixar manifestado o que se quer, porque a finitude não tem data e hora marcada, não é mesmo?!

Deixem tudo arrumado, informem a sua família de papéis, seguros, contas bancárias… Não deem trabalho! rsrsrsrs… Deixe uma pasta organizada e acessível.

E você, já falou naturalmente sobre a morte, a finitude? Não faça disso um tabu. Ela vai chegar mesmo!

Perdi meu Gil

Hoje eu perdi uma das pessoas que mais amei na minha vida.

Eu era apaixonada pelo Gil, aquele primo mais velho, que, na infância e adolescência, você quer imitar.

Foi tanto amor, recíproco, ele sempre esteve lá quando eu festejei e quando precisei.

Nas brincadeiras, na valsa de 15 anos, na morte do meu pai, na morte da minha filha, nas minhas crises existenciais, nas minhas comemorações.

Perdi meu pai com 10 anos. Quando revisitei a casa onde morávamos, algumas árvores haviam sido cortadas, parte de mim perdeu seus galhos, ele estava ao lado para dar o conforto de um abraço amigo e o passeio no seu jipe amarelo, por Pelotas, para desanuviar.

Assisti meu primeiro Scorsese, Alice Não Mora Mais Aqui, anos depois pensava como aquele jovem adulto nos dava seu tempo de juventude para os primos moleques.

Com Gil conheci Virgínia Wolf. Ele era escritor e eu também gostava de desenhar letras, mostrei para ele meus primeiros versos, nos nossos intermináveis cafés no porão. Também me apresentou a Tomie Ohtake.

Com ele vivi aventuras, mesmo não estando nelas. O passeio de moto pela América do Sul, quando, de repente, o céu dia se fez noite, num eclipse de final de mundo. Quando morou em Salvador e se tornou confeiteiro para sobreviver e repetia as receitas da nossa avó, por quem éramos apaixonados.

Quando voltou para Pelotas, ídolo dos mais novos, com sua jaqueta de couro preta, óculos a lá John Lennon, cabelos desgrenhados, todos corremos, imenso corredor afora, para dar um abraço de puro amor e saudade.

Não nos víamos há anos, cidades muito distantes, o carinho era o mesmo.

Não sabia que ele estava doente, passei esses dias pensando nele, muito mesmo.

Em determinado momento me ocorreu, será que ele sabia que eu estava de cabeça branca? Desses  momentos em que dialogamos conosco.

Nesta semana ele esteve comigo e eu com ele, mesmo sem saber que era uma despedida.

Perdi parte de mim, perdi meu Gil.

Deixa eu te contar, fadiga é #foda!

Estou fadigada, isso não quer dizer cansada.

Fadiga é muito mais.

Na doença autoimune é o resultado do corpo lutando, o tempo todo, contra você mesma, porque qualquer coisa é uma ameaça, os anticorpos acham que é invasão, há um combate feroz, toda a estrutura reagindo, a gente fica exausta.

Exames e médico se tornam uma rotina, muito além do que qualquer outra pessoa possa fazer, tipo, sabe aquele check-up anual? Para autoimune é um check-up mensal.

No meu caso específico, pneumo, gastro, hepato, cardio, reumato, endócrino, oftalmo, ortopedista, hemato, dermato, geriatra, dentista, psicóloga… Deve estar faltando algum que esqueci. Sim, ginecologista, e?! …

Claro, ainda tem todos os exames, que cada um dos especialista pede para que eu faça, para acompanhamento das reações de cada parte do meu corpo, contra ele mesmo. Ultrassonografia, ressonância, tomografia, cintilografia, exames laboratoriais, regularmente.

Nossa, mas você precisa de tudo isso mesmo?! Que exagero!

Vamos lá tem nódulos na tireoide, no pulmão, pâncreas hipotrofiado, cartilagens soltas ou desmanchadas, ossos em atrito, fígado intoxicado, controle das células sanguíneas, olhos sem lágrimas, boca sem saliva, pele sem hidratação, inúmeras alergias, infecções de repetição. E dores…

Administrar o desconforto, inferências, caras e bocas! As pessoas e seus pitacos azedos, ou escondidos! Nos olham como uma lunática, hipocondríaca…

É uma agenda intensa para prevenir e remediar, pilates, fisioterapia, 3 vezes por semana, cada uma, acupuntura 2 vezes, terapia. Muuuuitas dores no corpo e na alma.

Você cansou?!

Trabalho, estudo, atualmente são 2 cursos, gerencio redes sociais, de 2 páginas e um blog. A agenda é cheia.

O sorriso no meu rosto é constante, porque a vida parece difícil, eu não preciso torná-la mais.

Minha vida é boa! Eu tenho meios de me tratar, eu tenho uma família incrível, filhos, marido, netos e amigos. Eu sou feliz!

Queria compartilhar, ser autoimune é difícil e fadigoso.

Ter fadiga é que cansa!

Sua estratégia de vida é fundamental para estar bem! Eu criei a minha.

Descansar, quando preciso, distrair, quando necessário, rir de mim mesma, cuidar do meu corpo, amar, afastar, ser fiel e leal a mim. Bom humor, positividade, resiliência e adaptação. Levo a vida, não deixo ela me levar.

8 anos… falta a Cláudia em minha vida

Avatar de adrianafetterPara Cláudia

Nem preciso te dizer que todos os dias lembro de ti, como uma irmã, amiga, são gatilhos que acontecem, naturalmente.

Já foi com muito sofrimento, hoje junta é saudade, é triste, mas a dor diminuiu.

Sinto falta da tua intensidade para tudo, vida trabalho, hobbies, críticas e um apoio e amor incondicionais.

Restaram as orações, as lembranças e uma lacuna, a das nossas longas conversas e trocas.

Deixo aqui a oração que fazíamos no evangelho do lar, quando eu estava em Pelotas, Maria passa na frente.

Que a luz esteja contigo!

Maria passa na frente e vai abrindo estradas e caminhos.
Abrindo portas e portões.
Abrindo casas e corações.
A Mãe vai na frente e os filhos protegidos seguem seus passos.
Maria, passa na frente e resolve tudo aquilo que somos incapazes de resolver.
Mãe, cuida de tudo o que não está ao nosso alcance.
Tu tens poder para isso!

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O metrô e a vida

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Todos os dias no metrô ela dormia às vezes sentada, quando dava, outras em pé mesmo, encostada aproveitava os infinitos minutos, até chegar ao destino.

Essa era a rotina, levantar, arrumar rapidamente o café, lavar a louça e sair correndo para pegar o ônibus, para conseguir entrar no metrô as 6h.

A vizinha levaria as crianças para a escola, deixava a mesa posta com o café e elas de uniforme, as vestia mesmo dormindo, para não dar trabalho para a amiga.

O marido?! Já tinha se ido, achado outro caminho, sequer tinha notícias dele.

O sustento da casa era por conta dela, mas comida na mesa tinha. Podia ser pão dormido com café, arroz e feijão com ovo, mas tinha. Morar no subúrbio era o que dava, no momento.

Sempre dizia às filhas: estudem, nunca dependam de ninguém, a vida só é vivida assim, façam seu próprio caminho.

Nem ela…

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Mulheres e Meninas Digitais

A pandemia agravou a situação de trabalho das mulheres, cada oportunidade é preciosa.

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A desigualdade de gênero está em todos os lugares, apenas 5% dos cargos de chefia e CEO de empresas no mundo são ocupados por mulheres, segundo pesquisa da OIT. No Brasil, as mulheres estudam mais, porém recebem salários menores que os homens, para desempenharem as mesmas funções.

Pare, leia e reflita sobre o texto a seguir da Onu Mulheres:

O mundo do trabalho está mudando de um modo que terá consequências significativas para as mulheres. Por um lado, os avanços tecnológicos e a globalização trazem oportunidades sem precedentes a quem tem a possibilidade de acessá-los. De outro lado, estão o aumento do trabalho informal, a desigualdade de salário e as crises humanitárias.

Apenas 50% das mulheres em idade de trabalhar estão representadas na população economicamente ativa no mundo. Os homens representam 76% dessa força de trabalho. A esmagadora maioria das mulheres trabalha na economia informal,

sustenta o trabalho…

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Glória Maria, morre um ícone

Glória vai fazer muita falta, com sua energia, vida, força.

Foi a jornalista da minha geração, cobriu de tudo, participou de verdade nas suas matérias, mostrando todas as suas emoções. Pioneira.

Abriu caminhos, para as mulheres. Para as mulheres negras foi ícone, farol, coragem.

Fez história, Brasil, mundo,vida!

Única, estilo inigualável, essa é a palavra: admirável!

Ela realmente viveu! Vai em paz Glória, a luz te recebe com muita honra!

Usurpação, o dia que invadiram o Palácio do Planalto

Eu já usei essa mesa, ou uma idêntica, escolhi pela beleza do trabalho na madeira.

Eu trabalhei no gabinete pessoal do Presidente da República, no 3º andar.


Fui servidora da Presidência da República por 24 anos, 8 deles no gabinete pessoal, como adjunta.


A invasão de domingo também me invadiu, de tristeza, de perda, vi a mesa no meio das cenas de destruição, foi desolador, fui usurpada.

Nunca, trabalhando no 3° andar, tive a sensação que isso, um dia, poderia acontecer, nunca.


O espelho d’ água do Palácio Planalto não era previsto no projeto original de Oscar Niemeyer, foi construído em 1989, no final do governo Sarney, depois que um homem, dirigindo um ônibus, subiu a calçada do planalto e chegou até as pilastras.

Ali foi percebido a fragilidade da segurança do prédio. Se tivesse subido 2 rampas estaria no 3° andar, o do Presidente. Os protocolos foram revistos, o espelho foi instalado, como uma barreira física.


O palácio sempre foi guardado e protegido por seguranças, ligados ao GSI (Gabinete de Segurança Institucional), pelo batalhão da guarda presidencial (infantaria), ou pelo batalhão dos dragões da independência (cavalaria). Tem sempre parte da tropa de plantão, para proteger 4 palácios, o Planalto, o Alvorada, o Jaburu e a Granja do Torto, os ligados à presidência da República. Tem sempre segurança dentro dos prédios.

Mesmo sendo do corpo de servidores da presidência da república, depois que saí do gabinete, eu só poderia transitar me identificando na segurança das recepções.


Sei lá, me invade um sentimento de angústia, sempre me senti segura lá dentro, me pergunto onde estava essa gente, que sempre deu proteção…


Onde vocês estavam? Por que não protegeram o Palácio?

Não existe fórmula para um ano perfeito

Faça suas reflexões para o novo ano. O que quer que aconteça?

Verifique o que é realmente importante e relevante para a sua vida e faça disso o maior sonho a maior conquista.  Isso vale para os pedidos de desculpas que não fez, aquela declaração que não disse, aquela visita que você vive adiando. 

Trate de avivar a sua vida. Se quiser dançar, dance.  Cante! Vá ao cinema quando desejar, coma aquele doce que você tanto gosta, faça pipoca pra ver TV, não fique adiando planos, mesmo que sejam simples.

Sabendo que, um momento pode mudar tudo, o que estamos fazendo em nossos instantes?!

Perdemos a nossa verdadeira expressão, a verdadeira exteriorização de nós mesmos, vivemos para agradar aos outros, infelizes.

Se pergunte e responda, onde quero chegar, com quem quero ir, só você pode ser só você, qual caminho irá trilhar, seja honesta, porque só você terá as respostas.

Na vida o melhor é ser o mais honesto possível, inclusive consigo mesmo! Não se foge de problemas, no máximo se adia.

Monitore sempre os seus sentimentos e os seus problemas, para que não se agigantem e para não se afundar com eles, para não atrapalharem a navegação.

Para a vida o diálogo, o respeito e o amor são uma boa fórmula, um bom caminho.

A vida tem suas estações, tudo ao seu tempo, mudamos para evoluir, assim como na natureza.

O tempo não para, não pare no tempo. Não perca a capacidade de sonhar e continue colorindo a tela em branco que é a vida.

Nem sempre a verdade é a melhor resposta…

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Minha mãe faleceu no início deste ano. Faria 100 anos, em 2025, e os momentos de lucidez já eram raríssimos.

Estávamos conversando, certo dia, e ela me perguntou, apontando para o céu, e a minha mãe?

Então, ao invés de responder, eu simplesmente comecei a falar das coisas que a vó fazia na cozinha, com cada fruta da época.

“Mãe lembra da vó descascando os pêssegos? Para fazer a geléia, a pessegada, os pêssegos em calda e os suco de uva?! E aquela vez que ela mandou o pêssego em calda para ser enlatado?! 12 fatias por lata, ao abrir descobriu que o responsável enlatava 10, ficando com duas fatias, de cada lata, para ele.”

Lembrei das fornadas de cucas…

Ela ria das histórias…

Era uma maneira de relembrar a sua mãe, minha vó Olga, reviver os momentos felizes.

E assim eu levava, porque não queria relembrar nela, em uns…

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Estrutura e Conjuntura

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Lembro de vários momentos, em minha vida, em que eu estava dentro de um turbilhão, e pensava o quão difícil seria contornar aquela situação, que, hoje, olhando para trás, percebo como seria tranquilo administrar, mas a maturidade de agora é que enxerga e percebe isso.

Difícil se distanciar e fazer uma avaliação de como agir, mas é uma ação necessária. Olhar como espectador e não como ator.

Costumo dividir as situações em estruturais e conjunturais.

Estrutural é aquela situação que vai marcar a minha vida e fará com que a ela se modifique. O nascimento de um filho, a morte de alguém muito próximo, uma doença grave ou limitante. São aquelas mudanças que deixam uma marca indelével. As capazes de interferirem nos nossos valores, nos mudar.

As conjunturais podem ser difíceis, no momento em que se vive, trazerem sofrimento, mas só fazem diferença durante certo tempo, enquanto se está nela…

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