Hemerocallis – o lírio de um dia

Hoje eu assisti o filme A Mula com Clinton Eastwood, baseado em fatos reais. Recomendo!

Um aspecto especial tomou a minha atenção, o início do filme, que apresenta o principal personagem, Earl, como cultivador das Hemerocallis, a flor da foto.

Na minha família havia duas pessoas apaixonadas por plantas, minha avó e o seu genro, meu pai.

Esse amor atravessou a geração e me tocou. Flores sempre me encantaram. As do meu pai, mais ainda. Era apaixonado por elas e me transmitiu esse sentimento. Os jardins desenhados por ele eram lindos.

Na casa da cidade, na minha infância, tínhamos flores multicoloridas. Eu passava horas e horas naquele jardim, olhando as hortênsias brancas, azuis e rosas as papoulas vermelhas, as bocas de leão multicoloridas. Os muros eram recobertos por hera, e troncos de rosas trepadeiras, onde orquídeas chuva de ouro repousavam.

Os jardins da casa da praia eram os meus preferidos, as flores eram mais rasteiras, mais ao meu alcance. Meu pai dedicava boa parte do tempo àquele jardim.

Ali tínhamos muitas rosas, muitas mesmo, de todas as cores e multicoloridas, copos de leite, Pallas, Strelitzia reginae, Margaridas, Amor Perfeito, Amarílis, lírio japonês, cravo, dálias, onze horas, zinias, pessegueiro de jardim, gladilos, astromelias, Iris e Narcisos.

O lírio de um dia, os do filme, me fizeram viajar para minha infância. Eles rodeavam os muros baixos do enorme terreno da casa, eu tinha fascínio por eles, ficava horas passando a mão nas plantas, abrindo o invólucro das sementes, de bolinhas pretas, enquanto percorria a linha do muro. Cada flor, originária de um bulbo, durava apenas um dia.

Uma imagem, uma flor e uma infância inteira para recordar.

Eu filha, eu mãe

Este é o texto que resolvi fazer pelo Dia das Mães.

Não vou aqui glorificar a maternidade, vou tentar ser o mais honesta e real possível, porque eu acredito que assim é a vida, momentos de amor e alguns de quase pesadelos.

Essa é a minha realidade de vida, algumas pessoas poderão se identificar outras não, é a minha história como filha e como mãe.

Ser criada em uma família de mãe com origem alemã não foi fácil, as mães alemãs não demonstram muito os sentimentos, isso seria sinal de fraqueza. Minha infância foi difícil, não queria isso para os meus filhos.

As exigências para com os filhos germânicos é quase de perfeição. Além disso não espere demonstrações de afeto. Minha avó, que amo profundamente, não está mais entre nós, demonstrava o seu gostar pelos netos pela comida, você recebia dela lanches no meio da manhã ou tarde deliciosos, doces após o almoço e seu bolo de aniversário predileto.

Minha mãe não cozinhava, era católica, quase carola, foi educada em colégio de freiras, tinha muitas dificuldades em demonstrar afeto, achava que educar era ser rígida, quase não apanhei, mas sofri com o que considerava frieza. Já com os netos crianças ela brincava como uma menina da mesma idade.

Um dia, conversando, ela me perguntou de que maneira eu havia construído a minha relação com os meus filhos. Estávamos sempre juntos, demonstrávamos o nosso amor, diferente da relação que nós duas tivemos. Como fui educada a ser distante com ela, não demonstrar afetividade, havia realmente uma distância respeitosa entre nós.

Sei que minha resposta foi dura, mas foi sincera e profunda: mãe, eu decidi fazer o oposto da nossa relação, resolvi demonstrar todos os meus sentimentos, abraçar e beijar sempre e permitir o diálogo aberto com os meus filhos.

Amo minha mãe, tivemos muitas dificuldades vida afora, mas aprendi a respeitar todos os seus bloqueios, eles foram um exemplo do oposto para mim. Percebi o que não deveria ser feito na educação dos meus filhos.

Hoje estamos mais próximas, a velhice dela e a minha maturidade nos uniu.

Feliz dia das Mães!

Furacão interior – a infância na vida adulta – parte 2

Escrever sobre as implicações da infância na nossa vida adulta é muito pano pra manga, escrevi o suficiente pra três posts aí eu enxuguei bastante, ficaram dois, pra não ser cansativo. O primeiro publiquei ontem, hoje é continuidade.

É óbvio que sempre que eu escrevo estou falando sobre a minha vida, sobre as minhas incursões, minhas reflexões, eu não sei o quanto da minha perspectiva é válido para vocês, portanto façam suas reflexões, e me deem o devido desconto.

Seguidamente eu volto ao meu passado, e percorro todas as mudanças de trajetória da minha vida, os caminhos percorridos na infância em Pelotas até os dias atuais em Brasília.

Percebo que muitas das minhas reações frente a vida, com outras pessoas ou episódios, tem muito a ver com as mesmas de criança, são reflexos. Meus colegas de escola me consideravam muito séria, brava, hoje vejo que era apenas uma defesa.

Eu realmente era introspectiva, mas tinha meus motivos…

Tenho viajado pelos meus momentos críticos de vida, na infância, a perda do meu pai, depois a epilepsia. Sempre considerei meus percalços um obstáculo a superar para me fortalecer. Isso produziu uma pessoa sensível ao mesmo tempo uma fortaleza frente a vida. Parece um contrassenso, mas foi uma união perfeita, para o meu ser e para a minha sobrevivência.

À minha criança soube lutar da sua maneira, para me fazer chegar até aqui de forma completa. Não critique a sua criança interior, reflita e corrija o que for necessário na sua vida adulta.

Temos que  aprender a conviver com nossos turbilhões e buscar a força, que muitas vezes nos falta, nas meninas e meninos que fomos.