Estrutura, Conjuntura – Vida

Lembro de vários momentos, em minha vida, em que eu estava dentro de um turbilhão, e pensava o quão difícil seria contornar aquela situação, que, hoje, olhando para trás, percebo como seria tranquilo administrar, mas a maturidade de agora é que enxerga e percebe isso.

Difícil se distanciar e fazer uma avaliação de como agir, mas é uma ação necessária. Olhar como espectador e não como ator.

Costumo dividir as situações em estruturais e conjunturais.

Estrutural é aquela situação que vai marcar a minha vida e fará com que a ela se modifique. O nascimento de um filho, a morte de alguém muito próximo, uma doença grave ou limitante. São aquelas mudanças que deixam uma marca indelével. As capazes de interferirem nos nossos valores, nos mudar.

As conjunturais podem ser difíceis, no momento em que se vive, trazerem sofrimento, mas só fazem diferença durante certo tempo, enquanto se está nela. Uma discussão, o fim de algum relacionamento, uma mudança de cidade, uma mudança de emprego. Situações que você pode mudar ou alterar.

O fim de um relacionamento também abre perspectivas novas, a saída do emprego idem.

Saiba dar a devida importância e perceber a diferença entre àquilo que realmente fará diferença em sua vida. Crises acontecem, são passageiras, nos proporcionam a possibilidade de crescer, amadurecer e evoluir.

Os eventos estruturais demandam de nós adaptabilidade e resiliência. Requerem uma energia intensa, são momentos decisivos em nossas vidas. São definitivos.

A vida é uma aprendizagem constante.

A extensão do seu corpo

O Brasil perdeu hoje um titan da música, Nelson Freire se foi.

Em uma entrevista, o maestro Isaac karabtchevsky falou que o piano, para Nelson, era a extensão do seu corpo.

Uma das suas maiores dificuldades, nos últimos tempos, foi ter que se afastar do piano, sofreu uma queda e uma torção da mão, o que limitou a sua música, severamente.

Não foi um limite apenas físico,  o deixou  emocionalmente abalado.

Me trouxe à memória a situação de minha avó, quando foi proibida de cozinhar. Para ela também o fogão à lenha era a extensão do seu corpo. Cozinhar era viver, era vida, amor.

Não deixou apenas de cozinhar, foi se afastando da vida, daquilo que lhe fazia vibrar, do que a inspirava.

Eu acompanhei esse processo com tristeza, minha avó foi a mulher que mais influenciou a minha vida.

Forte, decidida, usava o cozinhar como forma de transmitir o seu amor aos outros, e o colocava em cada comida que fazia, e foram muitas, incontáveis

Decorava seus bolos com suas rendas de confeiteira. Recheou os nossos sentimentos vida afora com doçura, amor e dedicação.

Não usava afagos, usava colheres de pau, gamelas, panelas e o seu fogão a lenha.

A cozinha era a extensão do seu corpo e o fogão o seu instrumento.

Minha avó Olga, sem conhecer a rica teoria de propósito, sempre me fez entender o quanto é importante, na vida, se fazer o que se ama, aquilo que faz nossa chama interior arder e nos impulsiona, como um trem a vapor, vida afora.

Deixo aqui a minha divagação sobre vida, amor e propósito, o que na sua vida é a extensão do seu corpo?!

Mundo BANI – o mundo dos autoimunes

O termo BANI, Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible, foi criado em 2018, para definir a atualidade dos processos sociais e seus reflexos. Em português, FANI, frágil, ansioso, não linear e incompreensível.

A COVID veio confirmar essa definição e nos mostrar o quão frágil é a nossa civilização frente a um vírus “invisível”. Mas aqui o assunto é o mundo autoimune.

Somos frágeis, mesmo vestidos com a couraça da coragem para enfrentar a vida e nossas adversidades. Haja vulnerabilidade emocional, a baixa autoestima, a perda do suporte social e familiar, pela incompreensão do que ocorre conosco.

Sofremos de ansiedade, a incerteza causa isso. Nunca sabemos como o nosso corpo irá reagir no próximo minuto. Afinal existe uma guerra no interior do nosso corpo, nossos anticorpos lutam contra nós mesmos, nos identifica como inimigo.

Vivemos a não linearidade, planejamentos não fazem muito sentido no nosso mundo, que está em constante mudança, precisamos readaptar sempre a vida, não temos o controle dela. É muita resiliência.

Incompreensível, como somos incompreendidos! Temos dores constantes, mas nenhuma ferida para mostrar. Temos fadiga, não é cansaço, mesmo descansando não passa. A luta dos anticorpos que acontece dentro de nós é diária, permanente, devastadora. E como ouvimos, você parece tão bem…

Nada é visível. Sintomas cada vez mais esquisitos, não sabemos de onde eles vieram e como ocorreram, ainda temos que tentar explicar para os outros, o que são, mesmo sem entender.

É frustrante, mas estamos aqui enfrentando nossa complexidade e seguindo em frente!

Somos um corpo complexo, aprendemos todos os dias uma infinidade de coisas que possam tornar a nossa vida mais fácil.

Precisamos de empatia, respeito, porque, muito antes da sociedade trocar o VUCA pelo BANI, já tínhamos esse mundo confuso e divergente dentro de nós.

A casa em que nasci

seus jardins, cheiros e cores…

Lembro da casa em que nasci e de toda a magia que ela sempre despertou em mim, com seus cheiros e cores.

A casa em si era cinza, de cimento penteado, com janelas verdes escuras. Tinha um lindo jardim e um pátio, de sonhos e magias, aquelas que as mentes das crianças, ainda intocadas pelo mundo, tem.

Na frente havia uma escada de mármore branco, margeado por outro azul, lindo, para mim, bancos, reconfortantes depois de correr em volta da casa e passear entre árvores e plantas.

O muro tinha desenhos e recortes, era uma montanha russa para os meus pés. Caminhar sobre ele era uma aventura, cheia de desafios, quanto mais rápido melhor e, na mente infantil, extremamente perigoso.

O jardim tinha flores aromáticas, borboletas, joaninhas, de diferentes cores, tamanhos. Na frente, bem no centro, as amarelas fortes, quase um laranja, cabos bem fininhos e altos que desafiavam a gravidade, depois as papoulas vermelhas, de pétalas tão finas e sedosas, me lembravam asas de borboletas.

A grama era entrecortada por pedras de granito. Os quadrados irregulares, faziam os caminhos a serem percorridos.

De um lado sempre bateu mais sol, porque a casa ficava mais para a direita do terreno, não foi centralizada propositadamente, para se fazer a estradinha de granito cortado até o final, onde ficava a garagem.

No muro alto que ladeava havia um roseiral. Rosas grandes, rosa claro, saiam de troncos retorcidos, ali tinham uma convivência harmoniosa com as orquídeas, em sua maioria chuva de ouro e com a hera que recobria o cimento, deixando o cinza verde.

Do outro lado, na parede mais solar, havia um canteiro cavado no solo, cujas laterais possuíam pequenas corredeiras de cimento, que escoavam as chuvas no terreno inclinado, o meu pequeno rio, onde foram depositados muitos barquinhos de papel.

Flores diversas, de muitas cores, tamanhos e variedades faziam a minha festa, margaridas, bocas -de-leão, onze horas, hortênsias. Lembro de uma, especialmente, cuja a seiva depositada nas pétalas era de uma doçura ímpar, intercalava o sabor com as azedinhas. Muito mais tarde alguém me falou que era tóxica, mas não me fez mal algum…

Ao fundo espadas de São Jorge e de Santa Bárbara ornavam as multicoloridas flores.

No pátio, ao fundo, eu tinha a minha floresta particular, formada por abacateiros, limoeiros, árvores de uva japonesa, pitangueira, bergamoteiras, nêsperas doces, árvore onde eu subia para ver a floresta de cima, todas frutíferas e podia ver a parreira de uvas, onde fazia o meu piquenique imaginário.

Do outro lado,  que deveria ser o sombrio, moravam as hortênsias, azuis, rosas e brancas, sentia ao passar o perfume que vinha do solo, cheiro de umidade e terra preta, profundo, ainda consigo lembrar de cada um dos aromas desse jardim, ficaram impregnados na minha memória.

Havia uma escada de cimento nos fundos, alta, mais inclinada que a da frente, e outra igual entre as hortênsias.  Subir e descer era uma aventura. Mais ainda a das hortênsias cuja porta estava sempre fechada por segurança, mas para mim isso tinha todo um mistério.

Embaixo de cada escada havia uma porta, elas levavam às imaginárias cavernas. A da frente só era aberta vez em quando, para guardar as ferramentas do jardim, soube muito tempo mais tarde. A de trás levava ao tanque e a sala de lenha, usada diariamente para o fogão, para a lareira, no inverno, e a salamandra de ferro, do quarto de meus pais.

Na lateral, uma porta levava ao porão, para um salão onde minha tia dava aulas de francês, onde eu moraria após a morte do meu pai. Aquele lado tinha o cheiro de terra molhada na primeira chuva.

Vivi muitas aventuras em meu jardim, criei muitas outras imaginárias, a cada estação ele mudava, sempre havia uma flor brotando, frutas amadurecendo, cheiros novos no ar.

Talvez ele nem fosse tão grande, como eu imaginava, mas era grandioso, efervescente, vibrante e possibilitou que o meu imaginário infantil viajasse por mundos desconhecidos, me deu asas, sonhos, viagens mil.

Meus jardins foram refúgio da alma, as flores sempre me comovem, os gramados ampliam os meus horizontes.

Presilha

Eu tenho uma presilha de cabelo, pequena, de plástico, que minha filha me deu, tem um significado imenso para mim.

Em 2017 eu estava hospitalizada, no meu rosto uma paralisia facial, decorrência de uma infecção nos ossos da cabeça. A rebeldia dos cabelos me incomodava.

Silvia me acompanhava em mais um dos 10 longos dias, ali. Abriu a bolsa e tirou uma minúscula presilha. Iniciava uma constante companhia.

Estamos em 2021 e a presilha fica ao meu lado, resiste ao tempo, recorro a ela inúmeras vezes.

Cada vez que a pego em minhas mãos, relembro os dias de superação, uma drástica mudança de vida, muita fisioterapia, muita auto dedicação.

A presilha é um marco na minha vida do antes e do depois, me traz a mente do que somos capaz.

A infecção deixou alguma sequela, rosto voltou 97%, diante de um prognóstico de 85%. O corpo precisou de tempo para recuperar altíssimas doses de corticoide.

Superei a paralisia, a perda do meu emprego, o início de uma doença autoimune, a transformação e aceitação de uma vida mais tolhida fisicamente, cirurgias reparadoras de ligamentos.

Iniciei uma transformação interior, me reinventei.

Fiz cursos, criei página nas redes sociais, escrevo em blogues, fiz uma pós graduação. Me adaptei. Não me entreguei.

Descobri uma nova profissão. Sou mentora de adaptabilidade e resiliência.

A presilha me lembra dessa trajetória, dos percalços, mas, principalmente, de tudo que venci. Meu troféu pessoal.

Chocolate quente

Ela sentou no balcão, pediu um chocolate quente, sabia que viria com um merengue açucarado. Tentava segurar as lágrimas.

Iria sorver as colheradas, adoçar a alma, já que a tristeza que invadia o seu peito doía como ferro queimando.

As atendentes conversavam e riam, ignorando aqueles sentimentos.

Quando a caneca chegou, a moça percebeu que as lágrimas escorrendo, sem cerimônia, se afastou, chegou perto da colega e deu uma cotovelada, apontando com a cabeça.

Se instalou o silêncio!

Saberia depois que faltava apenas uma hora para a morte, mas pressentia.

Estava deixando para trás o último abraço que dera no irmão, não voltaria a vê-lo vivo.

O corredor do hospital trazia para cafeteria os barulhos metálicos das macas e cadeiras de rodas, das portas que batiam. Havia o forte cheiro do álcool misturado ao desinfetante. Era melhor ouvir as pessoas da cafeteria.

O chocolate ajudava pouco, haviam gritos internos, que teimavam em sair expressados pela água que escorria pelo rosto.

Quem vende doce nos hospitais deve entender de dores.

Há um quê de curiosidade na relação do açúcar com a tristeza. Por instinto pedira um chocolate quente, segunda vez que tentava aplacar uma dor de morte, aprendera isso no velório do pai, alguém havia colocado uma bala na sua boca.

No prédio do hospital, antigo e velho, transitava há dias. A lanchonete, escura e sombria, cumpria a função de alimentar as suas mazelas.

Eram dias tristes, dias de despedida de um amor fraterno.

Nunca mais o chocolate quente teria aquele sabor agridoce. Provavelmente, seria o último.

14 de Abril

Metaforicamente, foi um dia de puxar meu espírito pelos cabelos, buscando trazer para fora a minha força interior, a coragem para viver esses dias tão difíceis, onde falta sensibilidade, empatia e humanidade.

Há um ano, dentro de 46 m², vivo minha solitude plena, com confiança, que, agora, tem se esvaído, diante a trágica realidade brasileira.

A realidade que se impõe é excessivamente dura.

Deus permita que possamos atravessar essa tempestade e recuperar sentimentos de humanidade, olhar para o lado e enxergar um irmão, não um inimigo.

Que ao aportar em águas mais tranquilas, tenhamos ao lado nossos queridos e amados e nossa integridade. Que meus cabelos brancos, de bons dias vividos, resgatem, em mim, a minha esperança.

A minha Páscoa

Meu pai morreu na Páscoa, foi para o hospital na sexta-feira santa. Na noite do sábado de aleluia faleceu e foi enterrado no domingo. Eu tinha 10 anos.

Quando se perde uma pessoa tão amada, numa data especial, você acaba tendo dois dias para chorar.

Marca a data do luto duas vezes, o dia da morte e o feriado, uma tristeza sempre estará presente, uma melancolia, para toda a vida.

A Páscoa nunca mais foi a mesma.

Eu a festejei, desde o nascimento da minha filha, depois meu filho e agora, também, os netos. Havia trilha do coelhinho, ninhos escondidos.

Crianças nos ressuscitam, dão sentido ao verdadeiro significado da Páscoa.

No entanto, geralmente nos reunimos, para almoçar, na sexta, último dia de vida do meu pai. No sábado e no domingo fico quietinha. Desde a chegada do coronavírus, isso não acontece.

Meu filho chegou na quinta-feira, com colombas e um ovo de chocolate, presente dele e da Silvia, minha filha. Em um ano de pandemia e isolamento, foi a terceira vez que nos vimos, de longe.

No domingo de Páscoa esse carinho e um pedaço de chocolate dará o alento e a doçura necessária.

As Meninas da Vela

Definitivamente, sonho acontece em qualquer momento, e, quando envolve alegria e beleza, ele vai vento afora.

É bonito ver desabrochar aquela iniciativa que contém um acalantado projeto de vida. Se torna mais desafiante e incrível colocar em prática esse projeto no meio de uma pandemia.

A Dani (@danifantoniazzi) e a Tatá (@tatamott) se lançaram ao mar, mais uma vez, para criar o projeto meninas da vela (@meninasdavela).

Essas duas comandantes chegaram para inspirar e proporcionar uma nova experiência no mundo das viagens, em especial na Baía de Todos os Santos, com seus recantos tão especiais.

Elas resolveram levar a experiência da navegação para outras mulheres, que gostariam de conhecer o desafio da vela e se deliciar ao navegar mar afora.

Com a segurança de quem conhece as velas e o mar há anos, elas levam outras mulheres para conhecer paisagens maravilhosas e se reenergizar em meio as águas salgadas, respirar e encher o olhar de vida.

Ao comemorar o seu aniversário no mar, Lilian (@lilianvilasanti), experiente agente de turismo (@terraemarviagens), que viajou o mundo inteiro, foi a primeira a abraçar o projeto meninas da vela. Ficou encantada com a inusitada e belíssima experiência de vela e mergulho.

Não há fronteiras para as mulheres pós50. Rompemos as barreiras adentrando novos mares.

Que tal subir a bordo para novos desafios?! As @meninasdavela te esperam em Salvador.

A história desta foto

O mundo é muito grande para você se limitar e eu nunca me limitei.

Porém, sou de uma geração onde as pessoas tinham vocação e, isso para mim era esquisito, para os outros, que tinham encontrado sua área futura de atuação, a esquisita era eu.

Quando fui escolher minha profissão, fiquei entre Ciências Sociais e Medicina. Me acharam meio doida (minha mãe também). Diziam que eu deveria fazer medicina, era a profissão do momento, tinha status.

Escolhi História. Ao terminar migrei para Ciência Política.

Enquanto trabalhava, resolvi cursar uma pós em gastronomia e fazer um curso de barismo (bebidas com café).

Isso trabalhando na área pública. Ali descobri o quanto eu gostava de tecnologia da informação, antes mesmo das redes sociais.

Fui aplicar políticas públicas TI. Era um mundo muito novo, não tinha e nunca me formei em tecnologia da informação, mas implementei várias políticas nela, certificação digital, inclusão digital, apaixonante.

Em abril de 2017, tive uma complicação de saúde, me afastou do trabalho por 10 dias.

Durante a minha hospitalização, a equipe de diretores, para a qual eu trabalhava, foi demitida e, por consequência, eu seria também.

A partir daí, eu teria que me organizar, exclusivamente, com a minha aposentadoria e uma grande perda salarial.

Primeiro decidi fazer uma viagem com amigas, já estava mesmo paga, oportunidade de descansar e organizar melhor a cabeça.

Essa foto foi feita dois dias depois de chegar de viagem.

Coloquei o celular em cima da caixa de som do computador, onde eu estava, antes programei para clicar em 5 segundos.

Acredito que ficou muito boa, pelo inusitado da falta de técnica, eu estava criando, naquele momento, o meu blog e a página no Facebook, ambos chamados Pós50.

Essa é a foto do cabeçalho, e o início de uma incrível jornada de conhecimento.

Nunca se limite, a vida te propõe inúmeros desafios, você pode aceitá-los e descobrir caminhos e possibilidades incríveis.

Flores e estrelas

Eu tive meu pai por 10 anos em minha vida , e, nossa, como ele foi importante nesse tempo!

Meu pai me fazia sentir amada.

Uma das melhores coisas da nossa convivência foi ele me ensinar sobre flores e estrelas e eu lembro delas até hoje.

Eu desejo a você que você tenha, sempre em sua vida, alguém que lhe ame e que lhe ensine sobre flores e estrelas.

Se me derem licença…

Pessoal eu vou me auto elogiar sem constrangimentos, descaradamente!

Vou explicar o porquê.

Estou me sentindo fodástica! Desculpa se o termo agride, mas é isso mesmo, não encontrei outro pra expressar o meu sentimento.

Eu tenho síndrome de Sjögren, uma doença rara, isso quer dizer que eu tenho pouquíssimas lágrimas (sinto areia nos meus olhos o tempo todo), pouca saliva (a boca seca de repente, imagina engolir) e todas as minhas articulações doem, todos os dias, (algumas já operei), além de problemas pulmonares (diversas pneumonias e problemas respiratórios), porque essa raridade afeta as glândulas exócrinas, externas e internas. Só para dar parte do cenário diário para vocês.

E o que eu faço com isso?! Eu vivo! Vivo o máximo, tudo o que eu posso viver, fiquei em distanciamento social, nesta pandemia do COVID, por mais de ano.

Terminei uma pós-graduação em psicologia positiva, em paralelo com cursos de certificação.

Na conclusão da pós, para o projeto final, poderíamos escolher entre diversos templates. Entre eles, um artigo científico, ou uma entrevista com pessoa renomada da área, um vídeo, um produto, um meio de divulgação da psicologia positiva, enfim eles foram super criativos, em nos proporcionar diversas formas para concluir.

Para esses diferentes tipos tínhamos de que desenvolver um roteiro, descrevendo o que faríamos, dentro das referências bibliográficas da Psicologia Positiva.

Eu escolhi desenvolver um blogue, o PAP, propósito acolhimento positivo.

Foram meses quebrando a cabeça, a começar pelo tema, depois layout, paleta de cores, produção de conteúdo, estudando, tudo com cuidado.

Concomitantemente, eu lia os últimos artigos e livros, sobre a Psicologia Positiva, distanciamento e isolamento na pandemia, sobre como desenvolver um blogue, para população leiga, com conteúdos da PP, de fácil acesso e aprendizado do conteúdo.

A partir disso, escrever um roteiro de uma maneira científica, descrevendo cada etapa de construção do blogue.

Gente eu penei!

Então, cuidava de tudo conciliando com os afazeres da casa, limpar lavar, quem cuida disso sabe o trabalho que dá, nunca acaba.

Não cozinho, as mãos inflamam e doem, meu marido cuida disso brilhantemente.

Eu tinha uma faxineira, uma vez por semana e só ia retocando a limpeza durante os demais dias. Madalena, como eu, fez distanciamento!

Voltando ao blogue, cara fiquei orgulhosa, acho que mandei bem no acolhimentopositivo.com! Visitem!

Concomitante, terminei o roteiro científico, encaminhei para o orientador. Confesso que não correspondeu as minhas expectativas, ele só leu o texto, como se o blogue não existisse. Frustrada aqui!

Não deixei de cuidar, junto com a Sandra (mana do coração), da página Pós50, continuo frequentando meu grupo de política online (fiz ciência política, não desliguei), e fui me preparando para prova final dá pós graduação.

Fiz um monte de cursos gratuitos. Doida!

Na idade do condor eu estou mandando bem! Ah eu estou orgulhosa, e sim, me sinto muito fodástica!

Querido diário – há vida nas cavernas?!

Voltem para as cavernas, aliás, nem deveriam ter saído de lá, não precisávamos assistir a escrotidão das suas perversidades.

Voltem para as cavernas, porque nós precisamos da humanidade de quem nos cuida, de quem está lutando pelas nossas vidas.

Vocês que só pensam no dinheiro, na bolsa, nos ativos, nas commodities, em ter, em possuir, em deter, em explorar, que fixam suas vidas no capital, voltem para as cavernas!

São tempos de humanidade, de solidariedade, de afeto, de empatia, de resiliência, de respeito, vocês não estão à altura desses tempos, voltem para as cavernas.

Não é tempo de especular, abusar, humilhar, menosprezar, voltem para as cavernas.

É tempo de cuidar, vocês não sabem o que é isso, voltem para as cavernas.

Vocês que soltaram a sua desenfreada bestialidade e arrogância, voltem para as cavernas.

Não estou falando das cavernas de pedras, da natureza, onde os primeiros humanos se refugiaram, como também os animais. 

Estou falando da caverna escura, inabitável, profunda, buraco soturno, onde se escondeu cada alma de vocês.

Voltem para as cavernas, nos deixem viver!

Querido diário – Pandemia e Pandemônio

Uma amiga questionou, nessa semana que passou, o motivo, o porquê desta pandemia, buscando sentido em tudo o que estamos passando.

Eu também não entendo.

No início achei que era um choque para a perdida humanidade, para que retomasse um rumo, um caminho mais humano de viver.

Agora, vendo no Brasil tanta gente aflorar a mesquinhez, os piores preconceitos, egoísmos e agressividades, colocar para fora o seu pior lado, eu me pergunto, até onde vamos?! Temos limites para o execrável?!

Parece lei de Darwin, cada dia fica mais aparente a falta de importância que certas castas dão à vida, alheia.

Me lembra Darcy Ribeiro e o carvão.

A nossa sociedade é uma sociedade enferma de desigualdades, suponho que a causa básica está em que somos descendentes dos senhores de escravos, fomos o último país do mundo, nós e Cuba, a acabar com a escravidão e a escravidão cria um tipo de senhorialidade que se autodignifica, que se acha branca, bonita, civilizada, come bem, é requintada, mas que tem ódio do povo, trata o povo como carvão para queimar. Então, na realidade, é uma classe dominante de filhos de senhores de escravos que vê o povo como a coisa mais reles, não tem interesse em educar o povo e também não tem interesse em que o povo coma.”

O Brasil que assisto me assusta, me apavora! Percebo a lei do mais forte se aproximando e posso ouvir a turba dos raivosos. Essa minoria não tem nenhuma empatia.

Os mais fortes e os que tiverem mais recursos financeiros realmente vão sobreviver, não se importam com quantos vão morrer, desde que o seu quinhão fique garantido, falo de uns poucos, que são aniquiladores.

Não é só sobre o coronavírus, é a miséria, a fome, é assistir à fratura exposta do que disfarçamos, do que e de quem era invisível, as fissuras econômicas e sociais abertas e sangrando. Quem realmente as vê?!

Parece o horror retratado nas obras de Dante Alighieri. Me parecia impossível a existência daquele mundo, hoje me vejo vivendo nele. 

No mundo real, não nessa realidade paralela em que vivemos, os agentes da saúde são dignificados e não agredidos, vejo Nova Iorque cantando, todos os dias, às 19h, New York New York, para quem está trabalhando para salvar vidas, na Europa batem palmas.

Não reconheço esse país aonde vivo.

Ainda bem que tenho uma bolha de humanistas com quem convivo, nos falamos e nos dizemos, vai passar, esse pandemônio vai passar!

Reflexões no isolamento pelo COVID-19

Texto longo, cheio de divagações…

É uma época de profunda reflexão de vida e conscientização, aceitação do que é possível e o que nunca mais estará ao nosso alcance… Época de aprender a conviver com a impotência.

Uma situação muito difícil a que vivemos, momento que proporciona uma análise e revisão de vida…

As digressões tomam conta dos pensamentos. Pondero sobre os possíveis cenários num futuro próximo.

Eu moro longe da minha mãe, hoje com quase 95 anos. Ela precisa de cuidados especiais e está num lar geriátrico maravilhoso, com outras dez senhoras.

Lá é cuidada carinhosamente, convive com as coleguinhas e gosta de viver ali.

Sempre estou lá no final maio, nós duas e a minha cunhada fazemos aniversário neste mês, gosto de passar com elas. Faço uma festinha para a mãe, o que não vai acontecer este ano, as visitas estão proibidas para protegê-las e eu não posso sair do meu isolamento, por ser imunodeficiente.

A nossa mente, em épocas de distanciamento social, também nos coloca a realidade nua e crua, os pés no chão e a impotência, frente a essa nova realidade.

Não sei o que vai acontecer, ainda verei minha mãe em vida?! Tem a dificuldade de chegar a Pelotas, por enquanto tenho tentado aceitar isso, mas uma coisa é a teoria, outra a prática.

Outra é, como estruturar a prática daquilo que não conseguiremos atender?! Só restou a mim de filha, eu quase morri antes dela, então tive que montar toda uma estrutura de atendimento, mesmo que eu não estivesse mais presente.

Tenho pensado na vida, evitando me angustiar, tentado fazer um planejamento dos cenários possíveis, porque não tenho o controle desta situação, mas posso torná-la mais confortável para todos.

Faz parte da minha personalidade tentar construir os cenários possíveis e fazer os planejamentos necessários. Essa foi praticamente a minha história de vida.

Acredito que, o fato de ter que lidar com a morte muito cedo, perdi meu pai com 10 anos, uma filha, muita gente amada, por fim meu irmão e também os meus problemas, me trouxe uma aceitação e normalidade diferentes de outras pessoas sobre esse assunto, falo sobre isso naturalmente, a morte já quase me pegou 3 vezes.

Cada pessoa tem uma jornada própria, eu tive que domar a minha. Muitas vezes tive que tomar as decisões dolorosas e práticas na família, deixando o sentimento escorrer por dentro, para dar apoio por fora.

O que tenho feito é me adaptar, apesar de conviver, com doenças sérias, elas nunca impactaram o modo desejado de viver, mas, há algum tempo, tenho sofrido consequências que vão me limitando fisicamente.

Então, antes do coronavírus, já estava com uma vida social mais restrita, porém fiz várias adaptações, para poder fazer o que para mim é importante. A tecnologia foi minha auxiliar constante, supera minhas limitações físicas.

Não uso mais o teclado, uso a voz para escrever, ou pelo celular ou notebook, diminuindo as dores das mãos. Faço quase tudo pela internet ou pelas redes sociais, elas ampliaram as minhas possibilidades.

Sou super resiliente, sempre convivi com as minhas imperfeições e deficiências, sem perda de qualidade de vida.

Ficar afastada da família, com risco real imediato, me traz diferentes dimensões, uma de organização, outra de reavaliação do que realmente importa.

Sim! Temos a possibilidade de dar a precedência ao que importa.

Em 2019, resolvi fazer uma pós graduação em Psicologia Positiva e vários cursos de extensão EAD. Buscar novos conhecimentos é uma das minhas escolhas prediletas, em momentos limitantes.

Sábia decisão, em um momento que sequer imaginava o quanto esses ensinamentos me seriam úteis e me trariam conforto pessoal. 

Minha busca vai além de adquirir conhecimento, é a busca de um novo propósito também.

Estou me preparando para esse incerto futuro, mais uma vez, avaliando os possíveis cenários, ainda sem qualquer perspectiva, apenas tentando ser resiliente, de novo.

Fardos

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Olho no espelho vendo as rugas e marcas do tempo,.Não aprendi a esquecer, descobri isso, revendo nelas minha vida e as situações pelas quais passei, deixaram trilhas na face.

Restaram muitas alegrias, inúmeras mágoas. 

Eu sinto falta de quem amo, das pessoas que passaram pela minha vida deixando bons sentimentos, eu sinto falta das boas conversas, eu sinto falta das amizades que achei ter conquistado.

Mas, passados alguns anos,  as pessoas simplesmente se foram, cumpriram seu destino. 

Então, finge-se estar bem, siga sorrindo, porque todos têm seus próprios fardos, não querem ser incomodados, querem rir, leveza, conviver consigo já não é fácil, se você é um peso a mais, por favor, se afaste. 

Sua boca profere palavras rasgadas, como raios disparados, na verdade, uma súplica: me olha, me enxerga, fala comigo, pergunta como eu estou, me acolhe.

Sinais transversos não são entendidos, são apartados… 

Há uma sensação de abandono, aquela convivência de anos, perdida em um dia, a crível amizade e a sensação de permanência que escorre pelas mãos num piscar de olhos.

Existem dias de fardos maiores, em que a balança desequilibrada faz a alma jorrar.

A sensação é de caminhar por um campo, largando pelo caminho fardos de feno, que se acumularam nos ombros, anos a fio, sobrecarregando o corpo cansado. 

Imperceptíveis, nem todos caem, alguns ficam presos às pernas, acrescentam o peso da vida a caminhada.

Entre fenos perdidos e adquiridos, segue-se a vida, pedindo que os fardos restem mais no campo que nas pernas.

 

Nem sempre a verdade é a melhor resposta…

Minha mãe faleceu no início deste ano. Faria 100 anos, em 2025, e os momentos de lucidez já eram raríssimos.

Estávamos conversando, certo dia, e ela me perguntou, apontando para o céu, e a minha mãe?

Então, ao invés de responder, eu simplesmente comecei a falar das coisas que a vó fazia na cozinha, com cada fruta da época.

“Mãe lembra da vó descascando os pêssegos? Para fazer a geléia, a pessegada, os pêssegos em calda e os suco de uva?! E aquela vez que ela mandou o pêssego em calda para ser enlatado?! 12 fatias por lata, ao abrir descobriu que o responsável enlatava 10, ficando com duas fatias, de cada lata, para ele.”

Lembrei das fornadas de cucas…

Ela ria das histórias…

Era uma maneira de relembrar a sua mãe, minha vó Olga, reviver os momentos felizes.

E assim eu levava, porque não queria relembrar nela, em uns poucos minutos, um profundo sentimento de angústia e perda.

Ela não precisa saber que já tinha perdido a mãe, a irmã e o seu filho, meu irmão, verdades dolorosas, que não precisavam ser ditas.

Era muito bom fazê-la sentir uma breve felicidade, recordando daqueles que amou e as alegrias que viveu com cada um.

Por isso eu digo, mesmo valorizando a franqueza, nem sempre a verdade é a melhor resposta…

Convicções

Eu tenho um pensamento super ativo e parece, muitas vezes, difícil abordar determinados assuntos, porque eles me pipocam contraditoriamente.

E o mundo está cheio de convicções, não existe abertura para o contraditório.

Minha mente desafia as minhas próprias ideias, colocando uma incerteza e autocrítica constantes em mim.

Além disso, estamos numa época de censura alheia e opiniões agressivas. Isso me tira completamente a vontade de dialogar sobre o contraditório. Apesar de achar isso absurdamente saudável, a troca de ideias, soma em aprendizado.

Tem uma frase, que ouço sempre, que a verdade é individual e a perspectiva sobre os fatos também é.

Coloque três pessoas, que assistiram a mesma coisa, peçam para elas narrarem o que viram, você terá três histórias diferentes.

É necessário respeito às pessoas e às suas ideias.

Nós somos um caldo de cultura, valores e vivências. Tentar desmerecer o outro é um demérito para quem o faz.

Algumas coisas me afastam das pessoas, uma delas é a desonestidade. Aqui entra também a falta de caráter.

Me chama atenção, atualmente, a falta de autocrítica das pessoas e a sua desonestidade ética.

Têm a pretensão de impor aos outros uma moral que elas mesmo não tem.

Estamos criando uma geração egoísta, egocêntrica e sem empatia. Onde o que é certo é o que é melhor para mim. 

Como dialogar se cada um só olha o próprio umbigo?! Não há diálogo no isolamento.

Boa parte dos filhos de classe média convive com pais verbalmente agressivos nas mídias sociais, isolados em suas tecnologias, lhes dando míseros minutos de atenção.

Tem também os filhos da própria sorte, porque, para colocar comida na mesa, seus pais (boa parte só as mães) comprometem praticamente todas as horas do dia.

Os filhos dos mais abastados são preparados social e educacionalmente para mandar nos dois primeiros. Aprendem tudo para manter o status quo.

O abismo social se aprofunda.

E, assim, segue a vida, cheia de convicções, pouca autocrítica, falso moralismo, muita miséria humana, pouquíssima empatia. E eu fervilhante em pensamentos analíticos.

Se importar com os outros não está na moda…

Sombrio

As vezes mergulhar em si mesmo é cair no abismo.

Invadir aquela bagunça que temos preguiça e dor ao enfrentar.

Ir ao profundo onde o oxigênio fica rarefeito e a dor adentra o peito.

Encarar a realidade de que foi esquecida ou é ignorada por alguns que amou.

Que um instante de si parou no tempo e lá permaneceu intocado.

Sente falta de quem se foi. Parte de envelhecer significa a saudade da alegria inconsequente da própria juventude.

Remexe feridas, que são consoladas com os cacos de momentos de rara felicidade vividas.

Recupera o fôlego. Emerge.

Reverte mágoas em experiências, o aprendizado feito pelo caminho.

A volta por vezes revolta. É o reparto doloroso da abertura dos pulmões quando entra o ar.

O tempo parado naquele espaço e momento passado machuca.

O vento sopra gelado no rosto, bate agudo, levanta a gola para seguir pela rua, onde deixou parte da infância.

Pequenos fragmentos de lembranças consolam dores antigas, como o cheiro da lenha queimando, exalados pelas chaminés.

Os nós de pinho sempre exalam a inocência da infância.

Voltar nunca foi fácil, não sabe se um dia será.

O tempo transcorreu e algumas batalhas simplesmente congelaram, sem terminar.

A vida continuou e, por muitos anos, o passado ficou dormente.

Agora, já vívido meio século, a alma transborda, como um rio desenfreado em meio à tempestade.

Atropela, incontrolavelmente, os sentimentos semi enterrados em areia fofa, lhes expondo.

As feridas não curadas, ardidas e, um dia anestesiadas, reabrem.

Ao girar 360 graus, acompanha a decadência mental de quem ainda faz parte sua vida, sem realmente estar presente, impotente.

É o custo de ser responsável pelo seu passado e o dos outros.

Deixou restos de si pelo trajeto, reconstruiu outros pedaços, argamassa que preenche os buracos da obra da vida.

Agora é assombrada pelas recordações, que não consegue administrar.

Tem coragem, tem medo. Há uma fortaleza aparentemente quase intransponível.

Se sente como um ovo, aquela casca dura, que, ao primeiro impacto, derrama toda a sua essência.

A edificação do ser seu foi imperfeito e também exitoso. Espalhou varios sucessos, no pretenso roteiro planejado sobreviveu.

Consciente que ainda resta um tempo a ser administrado. Existe uma presente interrogação em como atravessar o futuro período.

A pergunta vai continuar ali, sem resposta, ninguém realmente entra na tenda de desejos e consegue predizer o porvir.

Conduzir a sua desordem e a que assombra à qualquer criatura é o que tenta fazer, na sobrevivência de cada dia.

Não há retorno. Assim se forja a vida, num martelar o corpo, como ao ferro, dando forma ao imperfeito e ao desgaste, que aparenta retocado, reerguido.

Conto de Adrianafetter

Minha tia

A minha família reúne mulheres fortes, impressionante como somos fortes.

Me incluo nesse grupo porque, são minhas referências, exemplos que segui, juntando pedacinhos admiráveis de cada predecessora. Cada uma com um estilo único.

Nem sempre somos agradáveis aos olhos dos outros, alguns nos chamam de arrogantes. Aqueles que, provavelmente, confundem impetuosidade, coragem e objetividade, com arrogância.

Não lembro de nenhuma de nós pararmos em meio à adversidade. Podíamos fazer um intervalo na caminhada, apenas para analisar o modo como iríamos superar aquele momento e seguirmos em frente.

Nessa trajetória, tive uma pessoa com quem me identifiquei em muitos momentos da minha vida, um modelo a seguir e, tenho certeza, que ela viu em mim uma miniatura sua, em várias situações.

É uma mulher linda, que, nonagenária, ainda guarda essa beleza. De convicções fortes e sorriso largo.

Foi meu exemplo de simpatia constante, de dedicação profissional, de vida universitária, de perseverança e apoio incondicional.

Nem consigo contar os tantos momentos em que a procurei, fosse pra corrigir um trabalho, ou para conversar, ou apenas procurar um abraço.

Sentávamos a mesa pra tomar um café e muitas vezes comer uma torta de chocolate, que ela sempre amou. Nossa convivência era diária, até os meus 25 anos. Sua casa sempre fez parte da minha vida.

Em muitas ocasiões da vida fui abraçada, de perto e de longe.

Dela vinha a solução nos impasses de família com minha mãe. Mesmo sendo a irmã mais nova, era quem minha mãe ouvia.

Nunca falamos sobre a minha liberação para cursar mestrado em Brasília, mas eu soube da sua discreta intervenção, para que eu fosse liberada, depois de muitas idas e vindas burocráticas. Ela sabia o quanto era importante para mim e eu sempre guardei imensa gratidão.

Muitas vezes também fomos as bicudas que não se beijaram, de temperamento e opiniões fortes, tão grandes quanto o respeito mútuo.

Assisto impotente e de longe as dores que a idade tem-lhe impingido.

Minha mãe e ela não moram mais juntas, as necessidades e cuidados constantes que minha mãe precisa me fez optar por uma casa geriátrica. Chorei dias e dias por essa decisão. Não queria separar as duas, que nunca vi discutir, amigas inabaláveis.

Saber da fragilidade dela me dói, assim como me doeu constatar a da minha mãe.

Hoje, do hospital, ela enviou um recado para a minha mãe, que agora vive num mundo próprio, da sua infância, esperando as cucas de natal da minha avó assarem: seja feliz. Chorei…

Eleição e pós verdade

Este texto vai ser sobre eleições, plebiscitos, consultas populares, sobre a manipulação das populações, explorando pessoas suscetíveis e seus medos.

A política é uma das minhas áreas de atuação e tento me manter atualizada sobre ela, de uma maneira mais completa e analítica.

Não recorro simplesmente a fontes jornalísticas brasileiras, também recorro às internacionais, que acredito serem mais isentas e fidedignas.

Assisto a todos os documentários, de 2016 para cá, sobre Brexit, eleições pelo mundo, campanhas políticas.

Eleição é um negócio, como todo negócio é manipulável. Não estou falando de contagem de votos, estou falando da cabeça do eleitor, cujos hábitos, gostos, repúdios, perfil de consumo, todo o seu jeito de viver, viraram algoritmos e foram vendidos. Negócio bilionário!

Vou compartilhar aqui filmes, documentários, ficções baseados em fatos reais, que indico.

Dois documentários imprescindíveis Brexit e The Great Hack. Uma série sobre pós verdade, Years and Years. Um filme baseado em fatos reais, Lavanderia.

Há um ano, mais ou menos, eu assisti a um vídeo impecável do YouTuber Slow, Canal do Slow 62, sobre Bolsonaro e Steve Bannon.

Ele fez um trabalho de levantamento primoroso, de como o financiamento de campanhas políticas estava usando as redes sociais, para manipular o voto dos eleitores.

Documentou todos os fatos a que se referiu, indicando as fontes. Impressionante foi assistir depois o documentário The Great Hack, lançado este ano, confirmando toda a análise do Slow.

Não há como ter esperança quando você vê o dinheiro correndo solto, em detrimento da democracia.

Carole Cadwalladr, ganhadora do prêmio Pulitzer, denunciou o Facebook, a Cambridge Analytica, a SCL, fazendo como jornalista um levantamento investigativo de como essas empresas influenciaram os eleitores e mudaram o seu voto.

Ela exemplifica os testes feitos em pequenos países, antes da eleição de Donald Trump, onde depois os mesmos métodos foram utilizados, com muito, mas muito dinheiro, usando os algoritmos do Facebook, providenciados pela Cambridge.

Estamos na época da pós verdade de Steve Bannon e sua política de ultra direita. Para ele a realidade tem que ser quebrada, destruída, para a criação de uma nova era. Propõe conflitos, usa as pessoas e as torna menos humanas, explora seus medos, com mentiras, surgem os anticomunistas, racistas, homofóbicos, xenófobos, misóginos.

Bem-vindo à nova era da pós verdade, onde a história e os fatos são irrelevantes e os algoritmos, das redes sociais, realmente fazem a sua cabeça!

Para quem viveu a política como uma ciência, a vontade é de sentar e chorar, mas a luta pela democracia tem que continuar.

Querido diário – pausa

Não sei vocês, mas cada vez que eu vejo as falas e ações desse governo, me sinto doente, aliás, eu realmente adoeci, me tornei uma pessoa cardíaca.

Então, abandonei o meu querido diário, por um tempo, para poder respirar, me restabelecer e voltar à resistência, de uma forma mais objetiva.

É muita ignorância, falta de humanidade, de discernimento, abandono da dignidade e justiça.

Adoece quem tem por objetivo de vida os valores humanitários.

Quando nos tornamos um povo tão doente, com tanto ódio, que ri e apoia atrocidades, que tem sangue nos olhos, quando isso aconteceu?!

Quanto tempo vamos levar para recuperar a dignidade de ser brasileiro?!

Tenho uma sugestão para vocês, busquem se informar e fazer uma resistência efetiva, mas também busquem se distrair, fazer alguma atividade que traga alegria a sua vida.

Precisamos voltar a ter felicidade no Brasil, só voltaremos à condição humana se formos um povo alegre, com menos ódio no coração.

Resistência amo vocês!

Querido diário – Pepe Mujica e a justiça social

A última vez que eu estive no Uruguai, querido diário, Pepe Mujica ainda era o presidente, hoje senador.

Conversando com um dos seus eleitores, me repassou o seguinte pensamento do presidente, em toda a sociedade existem pessoas que jamais terão condições de trabalhar, seja por deficiência mental, desajuste social, ou qualquer outro problema, então, o estado tem que se precaver, formular políticas públicas para atendimento a essa população.

Confesso que, meu diário, inclusive, abriu uma nova perspectiva de mundo para mim, ampliei meus horizontes sobre políticas compensatórias, quando conheci os valores de Pepe.

Uma das minhas críticas ao estado liberal é não entender isso, as pessoas que pregam o liberalismo econômico pensam em capital, desestatização, progressão por mérito.

Quem defende o estado mínimo jamais teria uma percepção humanista do outro, da justiça social, muito menos desse outro tão carente e deficiente, que exige um olhar de extrema acuidade.

Fiquei encantada com seu olhar humano, correto e tão assertivo nas políticas públicas, implementadas no Uruguai.

Tanta generosidade, advinda de tempos extremos e de sofrimento pessoal, transformaram esse homem num dirigente único, sábio, coerente. Para mim um símbolo e uma pessoa no ápice da suas virtudes e coerência de vida.

O Uruguai sempre me foi uma referência, desde a infância, por ter nascido muito próximo àquela região.

Hoje, mais do que nunca, me aquece o coração pensar nesse país, suas políticas, sua vanguarda, sempre penso em voltar por lá.

Querido diário vivo hoje no Brasil, pensando no Uruguai.

Querido diário – reflexões de vida e a beleza que mata

Hoje, às 6h da manhã, eu bati uma foto da minha janela, de um sol vermelho, lindo, pensei, querido diário, essa beleza mata.

Mata porque as cores vem das queimadas.

Pouco depois, ainda sob o impacto daquele instantâneo, eu abri uma reportagem, que falava de uma queimada em Rondônia, onde um casal, que não conseguiu fugir do fogo, morreu abraçado.

Há dias que venho refletindo, querido diário, sobre o dinheiro, o capital, a bolsa de valores. Por que, por mais que eu pense, eu não consigo entender essa filosofia do ganhar pelo ganhar, do ter pelo ter, de cada dia apostar em ter mais.

Quando foco é apenas o dinheiro, no ganhar, há imensas perdas pelo caminho.

Para isso pessoas são sacrificadas, no excesso de trabalho, na escravidão e mortes injustificadas. Mesmo que para isso se mate populações de fome e se alimente os porcos e o gado. Mesmo que para isso se fabrique cada vez mais armas, para se vender mais armas, para se fomentar a violência e as guerras.

Uma floresta inteira está sendo destruída, povos indígenas dizimados, biodiversidade arrasada e as nascentes d’água, que garantem o futuro, poluídas, obstruídas, desviadas.

No ganho rápido, que queime tudo, que haja ouro, exploração, minério, que se enriqueça.

Que os mercados se valorizem, que o dólar suba, que as bolsas apostem no caos, que os investidores migrem de país para país, saqueando suas reservas, empobrecendo suas populações.

Enriquecer é o objetivo, sem, no entanto, se conseguir levar um tostão sequer ao túmulo.

Querido diário eu não entendo o mundo, eu não entendo a desumanidade, eu não entendo o Brasil, em que vivo atualmente, eu não entendo os empresários sem consciência, eu não entendo, simplesmente, eu não entendo.

Se prefere destruir a edificar, matar a viver em humanidade. Estamos nos condenando e as gerações futuras, pelo ganho momentâneo, pelo consumo desenfreado e desnecessário.

Querido diário viver é caro, custa vidas!

Querido diário – eu não quero perder a esperança

O meu marido às vezes pede, que nos finais de semana, eu não acesse os canais políticos, ele sabe da minha constante preocupação, com o nosso país e o nosso povo brasileiro, muitas noites perco o sono, mas eu não consigo, está em mim acompanhar a política o tempo todo, é de família e de profissão.

Ele sabe o quanto o crescimento do feminicídio, das pessoas desamparadas, as agressões aos LGBTs, ao meio ambiente, aos mais pobres, aos indígenas, aos pequenos agricultores, a educação, a saúde, com tantas agressões a tudo e a todos, eu devo estar esquecendo alguma área aqui, me desestabilizam.

Difícil manter a esperança, querido diário, quando vejo que este desgoverno ainda tem tanto apoio, é desumano!

Ser a resistência nessas horas nefastas traz uma dupla responsabilidade, conosco e com os outros. Você sabe que não pode parar, que não pode se abater, que não pode deixar pra lá, em nenhum momento, em nenhuma hora.

O cansaço emocional chega, nos abala, nessa hora precisamos nos afastar temporariamente, para renovar as energias e voltar a defesa inquestionável dos valores humanos.

Quando vejo a declaração do Candido Bracher, presidente do banco Itaú Unibanco, confesso que perco parte da esperança no ser humano: “As reformas deixam o Brasil em uma situação tão boa como eu nunca vi em minha carreira”.

Boa para quem querido diário?! Para os quase 13 milhões de desempregados, para as pessoas que estão morrendo de frio nas ruas, para os desabrigados em número crescente, dormindo embaixo das marquises, para a fome que voltou ao Brasil, o país está bom para quem?!

Está bom para quem investe em bancos, bolsa de valores, que vivem do capital pelo capital. Esses realmente comemoram.

Ai lembro da propaganda dos Médicos sem fronteiras, que fala: “podemos ser violentos, insensíveis, cruéis, egoístas, indiferentes, mas só quem pode salvar a vida de um ser humano é outro ser humano.” Aí eu respiro fundo e penso que um de nós pode salvar o outro.

Todos os dias recomeçamos, porque somos a #resistência!

Roda Viva

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

É assim que me sinto em alguns dias dessa nova era brasileira.

Vez ou outra preciso me retirar e reenergizar, porque viver fora dos padrões de dignidade humana tem sido sufocante.

Eu fui atingida nas minhas crenças de valores humanos e de justiça, porém tem brasileiros sofrendo na carne, estão vivendo abaixo da linha da pobreza.

Aquelas cenas dos venezuelanos buscando comida no lixo, eu gostaria de dizer que isso está acontecendo aqui no Brasil, neste momento, a diferença, a televisão não mostra, ou mostra pouco.

A nossa indignação é seletiva?! Conseguimos ser solidários ao distante, mas indiferentes ao conterrâneo?

As mortes violentas nas favelas continuam e nada…

Quem financia a violência onde mora? Em endereços onde é inimaginável uma operação policial, nos moldes das que acontecem onde vivem os mais pobres.

Acredita mesmo que um moleque aliciado pelo tráfico comprou um fuzil, que custa mais de R$50 mil?! E aquele cara que importa mais de 117 fuzis e mora num condomínio é o que?!

Provavelmente, o dono do dinheiro do crime convive com você, esteve numa festa onde você também estava, ou num show maneiro que você assistiu.

Ninguém segue o dinheiro.

Trabalho análogo à escravo e infantil também está valendo, aquela roupa da moda, que tanto vende, pode estar numa loja que explora essas condições. Não importa as lágrimas de quem fez.

O Brasil que condena a invasão de terras pelo MST é o mesmo Brasil que aplaude os que invadem, matam e grilam terras, desmatando 19 hectares por hora na Amazônia.

O capital se importa com o consumo, nunca com as pessoas. Você também se torna escravo dos seus desejos.

O dinheiro pelo dinheiro não tem ética. Onde anda a nossa consciência social?!

Hoje temos no Brasil 55 milhões de brasileiros vivendo abaixo da linha da pobreza, desses, 5 milhões, vivem na extrema pobreza, isso significa sobreviver com cerca de R$7,00 por dia, são os miseráveis. Provavelmente está pior, esses dados são antigos…

Estamos passando pela vida deixando as marcas da destruição pelo caminho.

Esse verso de Chico Buarque define o que sinto em alguns dias

Tem dias que a gente se sente
Como quem partiu ou morreu
A gente estancou de repente…

Se o Brasil sobreviver, me avisem

Querido diário – arrependimento

Querido diário eu me pergunto quantos eleitores do Bolsonaro estão arrependidos de terem votado nele?

Sei que vários professores votaram, mesmo sem nunca terem visto uma mamadeira de piroca numa creche, uma aula de abuso sexual em suas escolas e nem tão pouco a doutrinação marxista, de que falam… Me pergunto como esses profissionais estão reagindo a retirada dos cursos de filosofia e sociologia do ensino superior, se concordam com as mudanças na educação, com o novo ministro e com as propostas estapafúrdias, com o corte de verbas para as bolsas de pesquisa?

Também sei que alguns amigos, que defendem um mundo com atenção a natureza, a sustentabilidade e a preservação das áreas de Proteção ambiental também votaram neste candidato. Aí me ocorre a mesma indagação, satisfeitos com o desmonte do CMBIO, do IBAMA, com o descaso com o meio ambiente, com a perda de grande parte da equipe técnica demitida, com mais de 20 anos de experiência na área? E a proteção da natureza e das águas, com os mais de 400 agrotóxicos aprovados? O desmatamento da Amazônia, a invasão pelos grileiros e pelas mineradoras das terras indígenas preservadas? Como eles estão se sentindo com isso?

E as pessoas da saúde? Milhares de brasileiros sem atendimento médico, principalmente no interior do país, porque os médicos cubanos foram mandados embora e os brasileiros só assumiram em lugares convenientes. Hoje os hospitais estão cada dia mais lotados, porque as unidades de saúde foram fechadas ou estão sucateadas. Como estão sentindo?! Sei de uma médica, porque ela me disse, com mais de 20 anos de profissão, que a é primeira vez que tem vontade de se demitir do hospital público, porque ela gostaria de estar atendendo os casos graves, da área dela, AVC, infarto do miocárdio, mas está atendendo gripes, resfriados, infecções de garganta, porque a população não tem mais posto de saúde… O atendimento básico à saúde acabou!

Segurança pública, estão gostando? A única coisa que eu tenho visto é a morte de pessoas sem qualquer ligação com o crime, de trabalhadores, não estou vendo nenhum combate ao crime organizado e as milícias. As taxas de feminicídio aumentaram drasticamente. As mulheres se sentem mais seguras com a liberação do porte de arma?! Passou a sensação de que é possível ser estuprada a qualquer momento?!

Quem votou nele está gostando da reforma da previdência? Ou vai ser atingido por essa reforma em cheio?! A reforma que não mexe com privilégios de bancos, que aumenta o soldo dos militares significamente (em alguns casos em até 73%), que não mexe com grandes fortunas. O cidadão comum tem que pagar impostos, o de renda e todas as taxas impostas pelo governo, como IPVA e o IPTU. E para as grandes empresas o governo é um pai cheio de bondades, tem parcelado seus devidos impostos, inúmeras vezes, com imensos descontos, sem necessidade alguma, tem até um cidadão que conseguiu parcelar em 104 anos.

Os ricos não pagam taxas pelo seus aviõezinhos, nem pelo seu jet-ski, pelo seu iate, podem voar e navegar livremente, sem taxa nenhuma, sem imposto nenhum por esses bens de nenhuma necessidade, você está sentindo representado?

Não questiono nenhuma pessoa da área da economia liberal, essas votaram conscientes com o que pensam, com o desmonte do estado, na desestatização, de acordo com o pensamento liberal. Votaram por este motivo, são extremamente coerentes com seu voto, até tinham outros candidatos para votar: o Alckmin, o João Amoedo, o Meirelles, até mesmo o Ciro Gomes, que já foi ministro da fazenda. Temos aqui um fato concreto, não quiseram arriscar, preferiram votar num inepto e inapto, apostando em Paulo Guedes.

E os filhos querido diário, o que é isso?!

Querido diário tem sido difícil assistir a tudo isso, como já falei antes, mas eu sabia que tudo isso iria acontecer e por isso repudiei desde o início este candidato. Eu não tenho nenhum arrependimento do meu voto.

querido diário como viver nesse país onde as pessoas deixaram de se importar e agora o que realmente importa?! É só o dinheiro, o capital, o dólar, a bolsa? Qual o cidadão comum que aplica o seus parcos recursos nesses lugares ?! Aliás, aplicar o quê?! Muitos deles estão desempregados e nem se sustentar e a sua família conseguem…

Trocaram o ser pelo ter! Só que quem vai ter não é o povo brasileiro, é aquele que sempre teve e cada vez terá mais!

O que você faria?!

O que você faria se recebesse essa notícia: seu corpo pode falhar a qualquer momento, não tem prazo, nem data, pode ser amanhã ou daqui a de 20 anos. Mas pode ser amanhã…

Correria para realizar um grande sonho, se reuniria mais com a família, continuaria vivendo a mesma vida ou mudaria radicalmente a atual?!

Confesso que eu não sei o que eu faria, na iminência de partir…

Após o acidente da Chapecoense, o jornalista sobrevivente, Rafael Henzel, escreveu o livro Viva Como Se Estivesse de Partida. Foi o que ele fez, até a sua morte prematura na semana passada, aos 45 anos. “Jamais havia tido noção do que é o tempo... Hoje eu uso meu tempo com as coisas que me dão prazer.

Desde que nascemos, temos data, prazo de “validade”, só não sabemos quando esse prazo se finda.

Então, porque não decidimos fazer com que a nossa vida seja produtiva sabendo disso?!Não falo em ganhar dinheiro, fazer fortuna (se isso lhe satisfaz, vá em frente). Falo das nossas relações de amor ao outro, da amizade, da família. Falo em amor e em amar e ser a melhor pessoa que se puder ser.

Uma coisa que as últimas eleições me mostraram, é que, podemos ser as piores pessoas que temos dentro de nós mesmos. Eu não entendo isso, eu não consigo entender a opção pelo ódio. É subumanidade.

O ser humano está longe de ser construtivo. Nas nossas relações disputamos espaços, não respeitamos as diferenças, sujamos o mundo, não sabemos viver em sociedade e queremos ter ganhos em cima do sofrimento e da necessidade alheia.

Temos ensinado mais a odiar do que a amar. Porque armamos ao invés de amarmos?!

Deixo duas perguntas para vocês. O que você faria se soubesse que o seu tempo está se encerrando?! Qual a herança que você vai deixar aqui na terra?!

2019 – luto…

Quantas vezes ainda vamos chorar este ano?!

Triste em ver tantas pessoas morrendo por crimes, tragédias, e exploração, desde o início de 2019.

No início foram 33 mulheres mortas por feminicídio, em 11 dias; depois veio Brumadinho; Sabrina Bittencourt; ontem as chuvas no Rio e hoje a tristeza dos meninos do Flamengo.

O sonho de ser um jogador, de tantos meninos promissores, convocados, se encerrou hoje.

Que Deus acolha em seus braços os que se foram e carregue cada pessoa, que aqui ficou sofrendo, na palma da sua mão.

A #Vale roubou vidas, me roubou #Inhotim

© Foto de Fernando Rabelo. No alto, a Ferrous Esperança Mineradora extrai o minério, ao lado do Instituto Inhotim. Brumadinho, 2014. Revendo meus arquivos pessoais encontrei esta foto de Instituto Inhotim, quando sobrevoei de ultraleve a região de Brumadinho para realização do meu livro “Cores e Luzes de Belo Horizonte”. Na foto vemos a área do maior museu aberto do mundo. O que poucos sabem é que a Ferrous Esperança Mineradora explora o minério sem cessar, bem ao lado de Inhotim.

Brumadinho chora! Neste primeiro momento todas as nossas orações são pelas vítimas mortas. Vítimas da Vale.

Nossas lágrimas brotam também pelo crime ambiental do rompimento da barragem do feijão.

A Vale roubou vidas, roubou a natureza, está roubando o maior Museu ao ar livre do mundo, Inhotim, que não sabe como vai sobreviver.

As mineradoras mineiras só se importam com os lucros, desconsideram pessoas, consideram valores materiais e numéricos e, assim, vão historicamente ignorando tudo o que diz respeito a sobrevivência da natureza e dos humanos.

Eu iria visitar Inhotim, em julho próximo, presente de aniversário da minha filha, viagem em família.

Assisti, nesta semana, documentário sobre o Rio doce e as consequências do rompimento da barragem de Mariana para população e para o meio ambiente. Existem consequências, a longo prazo, que não estão sendo consideradas.

Em Mariana e em todo percurso do Rio Doce, além das perdas naturais e humanas, com o passar do tempo, pela água parada, chegou a dengue e chikungunya, quem de nós soube disso?!

A população adoeceu. Várias pessoas que passaram pela tragédia hoje tem depressão, doenças pulmonares, são inúmeras as consequências humanas.

Eu tenho uma saúde frágil, há muitos anos. Conhecer o Inhotim era um sonho antigo, que agora está inviabilizado. A Vale me roubou o sonho.

Mas, perto de todo sofrimento das pessoas que hoje choram os seus mortos, o meu sonho não é nada. Brumadinho chora!

Sobre a foto utilizada neste texto
© Foto de Fernando Rabelo. No alto, a Ferrous Esperança Mineradora extrai o minério, ao lado do Instituto Inhotim. Brumadinho, 2014.Revendo meus arquivos pessoais encontrei esta foto de Instituto Inhotim, quando sobrevoei de ultraleve a região de Brumadinho para realização do meu livro “Cores e Luzes de Belo Horizonte”. Na foto vemos a área do maior museu aberto do mundo. O que poucos sabem é que a Ferrous Esperança Mineradora explora o minério sem cessar, bem ao lado de Inhotim.

25 de novembro como o Dia Internacional da Não-Violência Contra a Mulher

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Me sinto sufocada, é isso, quando a violência me atingiu, minha amiga-irmã se foi, desapareceu,  fiquei completamente impotente, durante um ano virei um zumbi. Continuei fazendo tudo como antes, trabalhando, vivendo, mas no automático, aí resolvi fazer a única coisa que me restou, escrever sobre ela e nunca deixar que ela e a sua trajetória fossem esquecidas.

Todo mês de novembro tento lembrar a todas as pessoas que a violência contra a mulher pode bater a sua porta, sem mais nem menos.

Dia 9 de abril de 2020 fará 5 anos do desaparecimento da Cláudia Hartleben, de dentro de casa, sem nenhuma materialidade que possa levar alguma pessoa a julgamento. A polícia e a promotoria tratam o caso como assassinato, tudo ficou intacto.

A Cláudia era Médica Veterinária, Mestre em Medicina Veterinária e Doutora em Biotecnologia pela Universidade Federal de Pelotas (UFPel). Professora Adjunta do Centro de Desenvolvimento Tecnológico (CDTEC/UFPEL) onde atuava nos cursos de Graduação em Biotecnologia, Pós-Graduação em Biotecnologia/UFPel e Pós-Graduação em Parasitologia/UFPel. Liderava o grupo de pesquisa em Imunodiagnóstico, onde buscava o desenvolvimento tecnológico em geração de produtos e processos inovadores aplicados ao diagnóstico de enfermidades humanas e dos animais. Presidente da Comissão Interna de Biossegurança (UFPel) e Membro da Comissão de Ética em Experimentação Animal (UFPel). Integrante dos colegiados de curso de Graduação e Pós-Graduação em Biotecnologia. Ministrava aulas nas disciplinas de Biossegurança, Microbiologia e Imunodiagnóstico. Tinha experiência na área de Microbiologia e Imunologia Aplicada, atuando principalmente nos seguintes temas: Produção de Anticorpos Monoclonais e Desenvolvimento de Testes de Diagnóstico. Era reconhecida mundialmente, apresentou trabalhos na Argentina, Espanha, Alemanha.

Todo esse currículo não impediu que ela sofresse violência doméstica e, por fim, fosse vítima de desaparecimento.

Este ano foi criado o Troféu Cláudia Pinho Hartleben, durante a premiação da sétima Feira de Ciências, do Conjunto Agrotécnico Visconde da Graça, do IFSul, em Pelotas, uma memória eternizada,  na merecida homenagem a uma professora e pesquisadora excepcionais!

Dia 25 de novembro me divido entre a alegria do aniversário da minha neta e um dia marcado, em mim, como mais uma data sobre a Cláudia e a violência que a atingiu. A injustiça de terem ceifado a sua vida, que tanto prometia ainda, num momento de extrema felicidade dela, porque uma pessoa frustrada não conseguiu suportar a sua alegria e vitoriosa carreira.

 

 

Castelo de Cristal

De repente alguma coisa quebrou dentro dela, não sabia explicar, apenas não tinha mais aquela alegria de antes, ficou com medo da vida e de viver.

Estava presa no castelo de cristal, que se tornara a sua frágil mente. Dali ela observava o mundo, com receio de que o cristal se rompesse e o mundo lhe machucasse.

Os amigos estranharam o seu desaparecimento do convívio social. Cada um tinha a sua vida para cuidar, assim seguiram em frente. Por vezes alguém telefonava. Sem saber o que falar, apenas dizia que estava bem. Ela se afastava do mundo e o mundo se afastava dela.

Seus pânicos haviam tomado conta de tudo e ela não sabia como sair daquela redoma e retomar o caminho de volta à sanidade.

A vida se tornara devastadora na imensidão das dificuldades que sentia para resolver qualquer coisa, a roupa por lavar, as compras por fazer, retornar as ligações, responder os e-mails, dormir. Alternava entre insônia e só querer dormir. Dormir era bom, um momento de fuga na dor, as vezes queria adormecer até se sentir curada.

Já tinha pedido uma sonoterapia para a médica, ela respondera que os problemas ainda estariam lá quando acordasse. Tudo o que tinha que resolver estava dentro dela e não fora.

As paredes de cristal impediam que seus gritos interiores fossem ouvidos, só ela os escutava. Doíam tanto…

Tentava se socorrer em orações, as repetia o dia inteiro, para aplacar o buraco no peito que tanto doía.

Se sentia sozinha lutando contra o dragão da depressão, pensava assim, era dragada para um buraco negro, para um poço sem fim, todos os dias.

Sem alternativa e no desespero procurou a única saída saudável que via, ligou para o CVV, era sua última tentativa.

Foi abraçada por um estranho, do outro lado da linha, sem julgamentos, poderia falar sobre suas dores, sem nenhuma vergonha, a voz apenas lhe confortava.

Dentro de si sabia que teria que achar forças para procurar um tratamento, um psicólogo, um psiquiatra para medicá-la.

O Castelo iria ruir, rachar e, assim como ele, ela se faria em pedaços, iria sucumbir.

Há duas possibilidades de terminar esta história, sucumbir ou lutar, eu lutei há mais de 10 anos atrás.

O meu texto fala da fragilidade de uma pessoa deprimida. Aqui finalizo este texto, já me senti assim, é desesperador, passou, tive ajuda psicológica e médicos competentes.

A depressão é uma doença muito séria e tem que ser tratada com medicamentos, porque é uma falha química do cérebro que pode ser sanada. As pessoas podem ser curadas, se tiverem ajuda de quem as cerca.

Não ignore um pedido de ajuda, um olhar de desespero, você pode ser a única saída que essa pessoa encontrará.