Baianos, uma receita da vó Olga

Aprendi a amar comida com a minha avó. Sou de uma família onde os encontros sempre se deram em torno de uma mesa, ou de um fogo.

É assim que recordo alguns de meus melhores momentos da vida. A cozinha me emociona.

Receitas e mais receitas… Essa aqui achei há pouco tempo, relendo o caderno de anotações da minha avó Olga.

Divido com vocês, certamente vai tornar alguém mais feliz. Escrito exatamente assim.

Baianos:

meio quilo de açúcar, 125 gramas de manteiga, 18 gemas, um côco ralado
Bata às gemas com açúcar e a manteiga e junte o coco, leve ao forno em forminhas.

E agora minha vó?!

Sou uma neta privilegiada, tenho o livro, da minha avó paterna, Amélia, que descreve todo o gerenciamento de uma casa. Tem de tudo, o mais precioso para mim, cardápios detalhados. Foi um presente de minha madrinha.

Privilégio duplicado, há alguns anos, minha tia Eny, me entregou o caderno de receitas da minha avó materna, Olga. Minha tia acreditava ser eu uma das herdeiras, das prendas de minha avó Olga, pois algumas vezes cozinhei para ela.

É um caderno simples, capa de papelão, costurado no meio, daqueles em que se anotavam as despesas do armazém. Consta ali, ao final, inclusive, algumas despesas da época.

Guardo com muito cuidado, por sua precariedade, passadas muitas décadas, desde sua primeira anotação. A capa está a desmanchar-se.

Que letra linda e desenhada, foi a primeira impressão, me pareceu que outras pessoas ali escreveram receitas. Algumas grafias feitas em caneta tinteiro, outras em lápis ou caneta comum.

Resolvi transcrever algumas receitas, após o pedido da receita de quindins, solicitada por uma prima. Presente garantido em nossos aniversários.

Quindins, é uma das poucas receitas detalhadas. Vó Olga só apontava os ingredientes e rapidamente o cozimento. Tinha todo o processo guardado em sua cabeça.

E agora minha avó?!

  • o que seria um pão de 200 réis;
  • meia quarta de batatas ou uma quarta de amêndoas;
  • uma dita de manteiga
  • Ou quanto é Cem réis de caninha ou spirito (não faço ideia o que seja esse).

O mais fácil, até agora, foi converter libra em kilo ou gramas…

Em uma pesquisa no Google, encontrei referências à antigas medidas lusitanas. Algumas datam da mudança da família real para o Brasil, sem, no entanto, ter qualquer registro da conversão de quarta ou dita.

Tem sido uma aventura, deliciosa, traz as melhores recordações, de quando, muito pequena, mal os olhos transpunham o tampo da mesa, observava as prendas de minha avó como confeiteira.

Os quindins, ou queijadinhas, desabados ao desenformar, tinham paradeiro certo, a barriga dos netos presentes.

A extensão do seu corpo

O Brasil perdeu hoje um titan da música, Nelson Freire se foi.

Em uma entrevista, o maestro Isaac karabtchevsky falou que o piano, para Nelson, era a extensão do seu corpo.

Uma das suas maiores dificuldades, nos últimos tempos, foi ter que se afastar do piano, sofreu uma queda e uma torção da mão, o que limitou a sua música, severamente.

Não foi um limite apenas físico,  o deixou  emocionalmente abalado.

Me trouxe à memória a situação de minha avó, quando foi proibida de cozinhar. Para ela também o fogão à lenha era a extensão do seu corpo. Cozinhar era viver, era vida, amor.

Não deixou apenas de cozinhar, foi se afastando da vida, daquilo que lhe fazia vibrar, do que a inspirava.

Eu acompanhei esse processo com tristeza, minha avó foi a mulher que mais influenciou a minha vida.

Forte, decidida, usava o cozinhar como forma de transmitir o seu amor aos outros, e o colocava em cada comida que fazia, e foram muitas, incontáveis

Decorava seus bolos com suas rendas de confeiteira. Recheou os nossos sentimentos vida afora com doçura, amor e dedicação.

Não usava afagos, usava colheres de pau, gamelas, panelas e o seu fogão a lenha.

A cozinha era a extensão do seu corpo e o fogão o seu instrumento.

Minha avó Olga, sem conhecer a rica teoria de propósito, sempre me fez entender o quanto é importante, na vida, se fazer o que se ama, aquilo que faz nossa chama interior arder e nos impulsiona, como um trem a vapor, vida afora.

Deixo aqui a minha divagação sobre vida, amor e propósito, o que na sua vida é a extensão do seu corpo?!

Nem sempre a verdade é a melhor resposta…

Minha mãe faleceu no início deste ano. Faria 100 anos, em 2025, e os momentos de lucidez já eram raríssimos.

Estávamos conversando, certo dia, e ela me perguntou, apontando para o céu, e a minha mãe?

Então, ao invés de responder, eu simplesmente comecei a falar das coisas que a vó fazia na cozinha, com cada fruta da época.

“Mãe lembra da vó descascando os pêssegos? Para fazer a geléia, a pessegada, os pêssegos em calda e os suco de uva?! E aquela vez que ela mandou o pêssego em calda para ser enlatado?! 12 fatias por lata, ao abrir descobriu que o responsável enlatava 10, ficando com duas fatias, de cada lata, para ele.”

Lembrei das fornadas de cucas…

Ela ria das histórias…

Era uma maneira de relembrar a sua mãe, minha vó Olga, reviver os momentos felizes.

E assim eu levava, porque não queria relembrar nela, em uns poucos minutos, um profundo sentimento de angústia e perda.

Ela não precisa saber que já tinha perdido a mãe, a irmã e o seu filho, meu irmão, verdades dolorosas, que não precisavam ser ditas.

Era muito bom fazê-la sentir uma breve felicidade, recordando daqueles que amou e as alegrias que viveu com cada um.

Por isso eu digo, mesmo valorizando a franqueza, nem sempre a verdade é a melhor resposta…