O Livro de Receitas

Herdei o livro de receitas da minha avó. Minha tia me entregou, dentro de um plástico, anos após a sua morte. Era um presente para a sobrinha que gostava de cozinhar. Tive medo de mexer, pela fragilidade do conteúdo.

O livro, apenas um caderno antigo da Livraria Commercial, gasto pelo tempo, com a primeira página de papelão toda quebradiça, faltando alguns pedaços.

Anos após, já passadas algumas mudanças, inclusive de cidade e estado, retirei do plástico com cuidado.

Para minha surpresa consegui ler o seguinte:

“Pertence a alunna” — com dois n mesmo.

Escrito quase imperceptivelmente, leio:

Lívia Reis… não consegui decifrar o terceiro sobrenome.

Como assim, o livro de receitas da minha avó, com aquela caligrafia perfeita, desenhada, não era da minha avó?

Minha tia e minha mãe, ambas falecidas, nunca gostaram de cozinhar. Sequer devem ter manuseado o caderno.

Fico imaginando quem terá sido Lívia Reis. Uma amiga da minha avó? Uma parente distante? Alguém que, como eu, amava cozinhar e deixou registrado em letras caprichadas o que a vida, depois, espalhou por outras mãos? O caderno atravessou décadas, mudou de dona, cruzou cidades — e veio parar comigo, justamente comigo, a neta que herdou o gosto pela cozinha.

Talvez não precise saber quem ela foi. Talvez o que importe seja que suas receitas, escritas com tanto esmero, continuem sendo feitas. E que, ao prepará-las, de alguma forma, eu mantenha viva não apenas a memória da minha avó, mas também a dessa misteriosa Lívia, que um dia também acreditou que cozinhar é um ato de amor.

Para sempre ficarei com esse mistério.