
Conversamos horas a fio de, tudo.
Me levou até o metrô, beijinhos.
Mensagem no celular: não te ofereci nada para comer.
Eu com a barriga roncando respondo: foi tão bom que esquecemos.
Miniconto de Adrianafetter

Conversamos horas a fio de, tudo.
Me levou até o metrô, beijinhos.
Mensagem no celular: não te ofereci nada para comer.
Eu com a barriga roncando respondo: foi tão bom que esquecemos.
Miniconto de Adrianafetter

A minha família reúne mulheres fortes, impressionante como somos fortes.
Me incluo nesse grupo porque, são minhas referências, exemplos que segui, juntando pedacinhos admiráveis de cada predecessora. Cada uma com um estilo único.
Nem sempre somos agradáveis aos olhos dos outros, alguns nos chamam de arrogantes. Aqueles que, provavelmente, confundem impetuosidade, coragem e objetividade, com arrogância.
Não lembro de nenhuma de nós pararmos em meio à adversidade. Podíamos fazer um intervalo na caminhada, apenas para analisar o modo como iríamos superar aquele momento e seguirmos em frente.
Nessa trajetória, tive uma pessoa com quem me identifiquei em muitos momentos da minha vida, um modelo a seguir e, tenho certeza, que ela viu em mim uma miniatura sua, em várias situações.
É uma mulher linda, que, nonagenária, ainda guarda essa beleza. De convicções fortes e sorriso largo.
Foi meu exemplo de simpatia constante, de dedicação profissional, de vida universitária, de perseverança e apoio incondicional.
Nem consigo contar os tantos momentos em que a procurei, fosse pra corrigir um trabalho, ou para conversar, ou apenas procurar um abraço.
Sentávamos a mesa pra tomar um café e muitas vezes comer uma torta de chocolate, que ela sempre amou. Nossa convivência era diária, até os meus 25 anos. Sua casa sempre fez parte da minha vida.
Em muitas ocasiões da vida fui abraçada, de perto e de longe.
Dela vinha a solução nos impasses de família com minha mãe. Mesmo sendo a irmã mais nova, era quem minha mãe ouvia.
Nunca falamos sobre a minha liberação para cursar mestrado em Brasília, mas eu soube da sua discreta intervenção, para que eu fosse liberada, depois de muitas idas e vindas burocráticas. Ela sabia o quanto era importante para mim e eu sempre guardei imensa gratidão.
Muitas vezes também fomos as bicudas que não se beijaram, de temperamento e opiniões fortes, tão grandes quanto o respeito mútuo.
Assisto impotente e de longe as dores que a idade tem-lhe impingido.
Minha mãe e ela não moram mais juntas, as necessidades e cuidados constantes que minha mãe precisa me fez optar por uma casa geriátrica. Chorei dias e dias por essa decisão. Não queria separar as duas, que nunca vi discutir, amigas inabaláveis.
Saber da fragilidade dela me dói, assim como me doeu constatar a da minha mãe.
Hoje, do hospital, ela enviou um recado para a minha mãe, que agora vive num mundo próprio, da sua infância, esperando as cucas de natal da minha avó assarem: seja feliz. Chorei…

Mais um aniversário de muita saudade, não tem dia em que eu não pense em ti.
Nenhuma palavra pode traduzir a falta que sentimos.
O ciclo não se fechou, sonhos foram interrompidos, com a dolorida saída tua de nossas vidas.
Desejo que estejas bem, dentro da tua crença que, ao desencarnar, serias acolhida pelos teus espíritos de luz. Somente no teu espiritismo conseguimos justificar o teu desaparecimento de nossas vidas.
Por aqui a vida continua, mas ficou o vazio da tua ausência e de tudo o que poderia ter sido.
Feliz aniversário minha amiga, que sejas luz sempre!

Lembro da casa em que nasci e de toda a magia que ela sempre incutiu em mim com seus cheiros e cores.
A casa em si era cinza, de cimento penteado, com janelas verdes escuras, tinha um lindo jardim e um pátio de sonhos, cheio de magias, aquelas que as mentes das crianças, ainda intocadas pelo mundo, tem.
Na frente havia uma escada de mármore branco, margeado por outro azul, lindo. Para mim os degraus eram bancos, reconfortantes depois de correr em volta da casa.
O muro tinha desenhos e recortes, era a montanha russa dos meus pés, caminhar sobre ele era uma aventura, cheia de desafios, quanto mais rápido melhor.
O jardim tinha flores de diferentes cores e aromas, na frente, bem no centro, as amarelas fortes, quase um laranja, cabos bem fininhos e altos que desafiavam a gravidade, depois as papoulas vermelhas, de pétalas tão finas e sedosas, me lembravam asas de borboletas.
A grama era entrecortada por pedras de granito. Os quadrados irregulares, faziam os caminhos a serem percorridos.
De um lado sempre bateu mais sol, porque a casa ficava mais para a direita do terreno, não foi centralizada propositadamente, para se fazer a estradinha de granito cortado até o final, onde ficava a garagem.
No muro alto que ladeava havia um roseiral, rosas grandes, rosa claro, saiam de troncos retorcidos, ali tinham uma convivência harmoniosa com as orquídeas, em sua maioria chuva de ouro e com a hera que recobria o cimento, deixando o cinza verde.
Do outro lado, na parede mais solar, havia um canteiro cavado no solo, cujas laterais possuíam pequenas corredeiras de cimento, que escoavam as chuvas no terreno inclinado, o meu pequeno rio, onde foram depositados muitos barquinhos de papel.
Flores diversas, de muitas cores, tamanhos e variedades faziam a minha festa, margaridas, bocas -de-leão, onze horas. Lembro de uma, especialmente, cuja a seiva depositada nas pétalas era de uma doçura ímpar, intercalava o sabor com as azedinhas. Muito mais tarde alguém me falou que era tóxica, não me fez mal algum…
Ao fundo espadas de São Jorge e de Santa Bárbara ornavam as multicoloridas flores.
Do outro lado, que deveria ser o sombrio, moravam as hortênsias, azuis, rosas e brancas, sentia ao passar o perfume que vinha do solo, cheiro de umidade e terra preta, profundo, ainda consigo lembrar de cada um dos aromas desse jardim, ficaram impregnados na minha memória.
No pátio, ao fundo, eu tinha a minha floresta particular, formada por abacateiros, limoeiros, árvores de uva japonesa, pitangueira, bergamoteiras, nêspera doces, árvore onde eu subia para ver a floresta de cima, todas frutíferas e podia ver a parreira de uvas, onde fazia o piquenique imaginário.
Havia uma escada de cimento nos fundos, alta, mais inclinada que a da frente, e outra igual entre as hortênsias. Subir e descer era uma aventura. Mais ainda a das hortênsias cuja porta estava sempre fechada por segurança, mas para mim isso tinha todo um mistério.
Embaixo de cada escada havia uma porta que levavam às cavernas, isso no meu imaginário infantil. A da frente só era aberta vez em quando, para guardar as ferramentas do jardim, soube muito tempo mais tarde. A de trás levava ao tanque e a sala de lenha, tanto para a lareira no inverno, quanto para o fogão de ferro da cozinha.
Na lateral a porta levava para um salão onde minha tia dava aulas de francês, o porão, onde eu moraria após a morte do meu pai.
Vivi muitas aventuras em meu jardim, criei muitas outras imaginárias, a cada estação ele mudava, sempre havia flor brotando, frutas amadurecendo, cheiros novos no ar. Talvez ele nem fosse tão grande como eu imaginava, mas era grandioso, efervescente, vibrante e possibilitou que o meu imaginário infantil viajasse por mundos desconhecidos, me deu asas, sonhos, viagens mil.
Até hoje consigo me refugiar nele, quando preciso de calma e concentração é para lá que viajo. Essas lembranças sempre me conectam contigo, também tinhas um jardim cheio de flores, um pátio cheio de aventuras, que rica vida foi ali vivida. Quantos sonhos não podes mais viver…
Texto dedicado a Cláudia Pinho Hartleben, amiga desaparecida.
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