Da Janela Que Se Mudou



No apartamento de 46m²,
a janela era uma tela infinita.
O horizonte vinha até mim sem pedir licença — um planalto de céu, uma geografia de nuvens, o distante que se fazia próximo.

Eu era pequena no espaço, mas imensa na vista.
A solitude tinha quilômetros de amplitude.
O vento entrava sem obstáculos,
e o silêncio era tão largo que cabiam todos os meus pensamentos — e ainda sobrava horizonte.

Agora, nos 120m², a janela não olha para o longe: olha para a vida.
Um prédio de moradores se ergue como um livro aberto.
Cada janela, um parágrafo; cada varanda, uma frase inacabada.

Vejo cortinas que se mexem, luzes que acendem ao entardecer, vultos que cozinham, esteiras que viajam quilômetros, que leem, que esperam.
Não há mais o vazio azul — há o colorido humano.
Não há distância — há intimidade involuntária.

No pequeno, eu tinha o céu.
No grande, ganhei as estrelas domésticas: a luz amarela da sala ao lado, a TV que pisca azul no terceiro andar, o vaso de flores na janela do quinto.

Perdi a imensidão,
ganhei a profundidade.
Antes, o horizonte me dizia: “você é parte do infinito.”
Agora, as janelas iluminadas me sussurram: “você é parte.”

Talvez a vida não seja sobre ter espaço, mas sobre trocar panoramas por presenças.
Sobre aprender que o vasto também pode ser vertical, próximo, cheio de histórias que não são nossas, mas que nos mantêm companhia no novo tamanho do nosso mundo.

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