Os Papéis da Presidência



Nunca imaginei que uma parte da minha vida fosse ser medida em gramaturas.

Quando cheguei, fui apresentada a um universo que não conhecia: os papéis dos escaninhos. Prateleiras finas, meticulosamente organizadas, abrigando folhas de todos os tamanhos, texturas e pesos. Cada uma com uma função. Cada uma com uma alma própria.

Eles me mostraram, com a paciência de quem ensina um ritual sagrado, que não se tratava apenas de papel. Tratava-se de protocolo, de etiqueta, de um código silencioso que eu precisava aprender a decifrar.

Havia o papel de seda, fino, transparente, lindo ao toque. Era o mais delicado de todos. E, no canto superior esquerdo, trazia impresso o brasão dourado — uma marca de autoridade que parecia flutuar na leveza do papel. Era reservado para as palavras escritas à mão, como um sussurro íntimo e solene do Presidente.


Havia o cartão branco, em casca de ovo, com brasão dourado, imponente e solene. Este era o escolhido para as mensagens especiais, a um destinatário único, como um gesto de distinção pessoal. Era o pavão da burocracia, mas um pavão que só exibia as penas para quem realmente importava.


O cartão branco com marca d’água, mais tímido e talvez o mais humano, era usado para os cumprimentos e condolências, onde a caligrafia se misturava à tinta, tornando-o um objeto de afeto em meio ao protocolo.


No papel ofício, couché, com o brasão da República em marca d’água, o Presidente não escrevia; ele discursava. Ali repousava a voz da nação, pronta para ecoar em solenidades.


E o papel A4, couché, com brasão dourado, era o canal oficial para a comunicação com a Câmara, o Congresso e outros órgãos. Era a voz da República falando com as instituições, carregando o peso da lei e da autoridade.

E então, o governo mudou.

Pessoas novas chegaram, com olhos ávidos e pressa de assumir. E eu, que havia aprendido aqueles códigos, me tornei a tradutora.

Ensinei que o cartão de brasão dourado era para um gesto raro, que o papel de seda exigia a caligrafia mais bela, que o ofício com marca d’água não era para rascunhos, ali imprimia-se os discursos. Ensinei o peso de cada palavra, o valor de cada textura.

Eu deveria ter guardado cada um deles. Deveria ter guardado o cheiro da tinta, a textura áspera da gramatura pesada sob os dedos, a leveza etérea do papel de seda deslizando pelas mãos — e o brilho discreto do brasão dourado naquele canto superior esquerdo, como uma joia incrustada na delicadeza.

Mas o tempo passou.
A Presidência foi se tornando mais tecnológica, mais veloz, menos analógica.
Os escaninhos foram se esvaziando.
Os papéis foram sendo substituídos por telas, por bits, por um mundo que não tem textura, que não tem peso, que não tem cheiro.

E eu, que nunca imaginei que teria de conhecer tantos tipos de papéis, agora me pego saudosa de algo que nem sei se ainda existe.
Saudosa daquela era em que a importância de uma palavra se media pela gramatura do papel em que ela era escrita, e em que a hierarquia de um país inteiro cabia, silenciosamente, dentro de um escaninho.

Guardo na memória todos os protocolos e o sabor daquelas tradições, assim como o cheiro de cada um dos papéis.

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