
A Estrela do Dia 18
A Benette era uma artista que escolheu o afastamento. Reclusa em seu ateliê, numa casa no mundo rural da Cascata, um distrito de Pelotas conhecido por seus córregos, corredeiras e pequenas cachoeiras. Era um lugar onde as famílias vão nos fins de semana em busca de natureza, de piqueniques à sombra das árvores, e do café colonial. Em meio a essa paisagem de água e terra, a Benette passava os dias entre pincéis, tecidos e tintas, alheia à pressa do mundo.
Eu a vi pouquíssimas vezes na vida. Mas no dia 18 de maio, quando eu nasci, ela abriu mão do seu refúgio. Saiu de seu casulo de arte, atravessou a distância da Cascata até a cidade, e foi até a minha mãe. Olhou para mim, um pequeno embrulho de vida, e fez uma profecia: “Ela sempre terá uma boa estrela.”
A justificativa da Benette não era apenas um carinho de momento; era matemática sagrada. Ela falou de numerologia numa época em que ninguém falava disso. Não havia internet, não havia moda mística. Era um conhecimento guardado, acessível apenas a mentes sensíveis e profundas. A Benette decifrou a minha data com a intuição de quem lê o invisível.
O dia 18. Na numerologia o 18 é a soma do 1 com o 8, que resulta em 9. O 1 é a coragem do começo. O 8 é a força, a resiliência. E o 9 é a conclusão, a sabedoria. A Benette sabia que eu teria uma estrada, no mínimo, intensa.
Mas ela foi além. Disse que o 18 era um número especial porque se deixava dividir. Por 3, por 6 e por 9. Hoje, olhando para trás, vejo que ela estava projetando o meu futuro.
O 3 é a minha voz, a necessidade de escrever, de criar.
O 6 é o meu colo, a família, os filhos, os netos, a mesa farta.
O 9 é a minha busca, a espiritualidade, a capacidade de renascer.
A vida não foi um conto de fadas. Ela me testou cedo, com uma infância que exigiu de mim uma maturidade que nenhuma criança deveria carregar. Eu precisei aprender a ser forte antes de aprender a ser menina. Eu passei por perdas, por dores físicas, por travessias que pareciam impossíveis.
Mas em cada momento em que o chão ameaçou sumir, eu me agarrei àquela profecia. A Benette foi farol que me deu a certeza de que a vitória era possível. Ela olhou nos meus olhos de recém-nascida e norteou a minha sorte. Aquela frase não foi um elogio; foi uma espiritual amuleto. E, carregando essa força espiritual, eu levantei a cada queda, eu encontrei forças para recomeçar. A força do 8 se manifestou em mim; a centelha do 1 me deu a coragem; e a sabedoria do 9 me ensinou que a dor pode ser transmutada em arte.
Embora eu a tenha visto tão poucas vezes, a Benette se tornou um ó alicerce invisível. O vestido de organza branco que ela pintou de rosa aos meus quinze anos ainda flutua nas minhas memórias, provando que a arte dela sempre me acompanhou. E a estrela do dia 18? Essa segue brilhando dentro de mim. Não como um conto de fadas, mas como a certeza de que, mesmo quando o mundo desaba, eu tenho a força necessária para levantar e seguir.