ODOR DE ROSAS




O relógio marcava o fim de mais um turno. O chão de parquê, com suas tabuinhas gastas desenhando geometrias antigas, refletia a luz como um espelho. O assoalho era antigo, mas o cuidado era impecável; o encerado brilhante fazia as cores vibrantes das paredes e dos móveis modernos parecerem flutuar. Éramos várias sócias naquele Coworking de alto padrão, um espaço que pulsava, onde a arquitetura clássica e o design contemporâneo se encontravam sem esforço.

O prédio ficava numa área reformada da W2 Sul, pertinho do meu apartamento no Plano Piloto. Eu adorava aquele trajeto curto; a caminhada entre as quadras era o meu momento de descompressão. As janelas e as portas de correr do coworking iam do teto ao chão, deixando a luz de Brasília entrar e fazer o lugar parecer suspenso no tempo. O alívio dos turnos exaustivos era o canto especial para cafés: um espaço reservado, com grãos moídos na hora, xícaras de porcelana e um silêncio respeitoso.

O canto do café era a minha obra de arte particular. As prateleiras exibiam uma coleção de xícaras e canecas que eu trazia de cada canto por onde andava, além de outras que ganhava de presente. Cada uma tinha uma história. E os grãos também eram especiais: do Pará, de Minas, do Espírito Santo, do Cerrado. Quem chegava escolhia o grão e via a moagem na hora, o aroma tomando conta do ar. Eu tomava meu café ali todas as tardes, antes de voltar para casa.

Naquele dia, cheguei em casa cansada, mas leve. Era o dia da faxina. A sala, pintada num tom de amarelo claro, tinha a exata cor do sorvete de creme que eu comia na infância. A luz da tarde entrava pelas vidraças e iluminava o pó que dançava no ar.

Robson estava lá faxinando, concentrado numa mancha circular no piso, um dos vasos grandes havia vazado. Eu o havia contratado meses antes, não pela rapidez ou pelo currículo impecável, mas pela leveza da alma e pelo sorriso contagiante. Ele era um espetáculo à parte: vestia sempre camisetas de cores fortes — naquele dia, uma peça roxa com listras vermelhas —, tinha uma energia que preenchia o ambiente e assobiava enquanto esfregava o chão.

Passei pela sala em direção à varanda. Os aspargos de jardim, os brincos de princesa e as orquídeas precisavam ser aguados, alguns já mostravam as pontas secas. Ao passar entre a parede e o aparador, senti um leve desequilíbrio — um tropeço bobo, o peso do corpo transferido para o ombro esquerdo.

A cerâmica da parede cedeu, onde apoiei a minha mão para não cair, fazendo um clique. De repente, um mecanismo desconhecido deslizou a parede inteira para o lado, revelando um cômodo. Um banheiro.

Cibele ficou estupefata. O rosto perdeu a cor. Robson parou com o pano no ar, os olhos arregalados, a boca aberta.

— Oxe! — ele exclamou, a voz saindo num tom de assombro. — A senhora tem um quarto secreto?

— Eu não sabia que tinha! — respondeu Cibele, a voz falhando, os olhos fixos na escuridão do novo cômodo.

Espiou para dentro. Era um banheiro quadrado, amplo, quase do tamanho de um quarto. Havia uma pia, um vaso sanitário e um chuveiro. As paredes tinham azulejos brancos antigos. O lugar parecia pronto.

Foi então que o cheiro os atingiu. Um perfume doce e forte, inconfundível: o sabonete Odor de Rosas, da Phebo. O ar era úmido, pesado, como o de um banho quente recente. No chão e no box do chuveiro, havia respingos de água.

O espanto nos olhos de Robson se transformou em puro pânico.

— Dona… — ele sussurrou, recuando um passo. — Tem água no chão. E o ar tá úmido.

Cibele olhou ao redor do cômodo, a ficha caindo com um frio na espinha. Não havia porta. Não havia batente. Não havia janela. Não havia nenhum lugar por onde uma pessoa pudesse ter entrado ou saído daquele banheiro. Era um cubo de azulejos selado, com a água do banho ainda evaporando no ar, mas sem entrada e sem saída.

Ela tocou os azulejos das outras paredes, sentindo a superfície úmida. Passou os dedos por cada rejunte, procurando algum clique, alguma fresta, mas nada se abriu. A parede não tinha voltado ao lugar, e não havia como fechá-la. A casa agora tinha uma parede entreaberta para o impossível.

Robson recuou mais um passo, o pano caído no chão. Ele olhou para Cibele, não disse mais nada. Apenas virou as costas e caminhou rápido em direção à porta da frente. O som da porta se fechando ecoou pela sala.

Cibele não o seguiu, recuou dois passos, sentiu o joelho bater na imensa poltrona amarela e simplesmente se deixou cair nela. O corpo afundou no tecido, uma avalanche de pensamentos caiu sobre ela: o banheiro, a parede, a umidade, o cheiro de sabonete. A vida como ela conhecia, até aquele minuto, parecia ter entreaberto, como a parede a sua frente. Ela ficou ali, imóvel, encarando o banheiro, sem saber como seria, nada.

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