O melhor carnaval da minha vida

Naquele dia minha amiga me disse: porque não gostas de carnaval? Pensei um pouco, reservadamente, em minhas lembranças infantis, homens mascarados, encapuzados com uma fronha preta enfiada em suas cabeças, com olhos e bocas vermelhas, se aproximavam gritando, ainda me causavam arrepios, não era festa, era medo.

Era apenas uma mera conversa, mas a mente adentrava em seus labirintos sombrios. Respondi, não sei, apenas não gosto.

Regina me disse, já fostes à Salvador?! Eu apenas passara por lá, sequer tinha idéia do que era o carnaval na Bahia.

Ela emendou: você não gosta de carnaval porque nunca foi ao de Salvador, lá o carnaval é do povo, vou todos os anos.

Pensei cá com meus botões, duvido, mas apenas sorri.

Naquela época eu mal vivia, cumpria rotinas, em casa, no trabalho, como uma boa esposa.

Casada com um homem aparentemente carinhoso, havia um domínio ferrenho da minha vida, eu sequer percebia minhas correntes. Apenas segui meu caminho achando que era feliz.

O controle não era claro, aparente, vinha em perguntas simples: passou na padaria, temos lanche, que horas chegou, almoçou onde, por que demorou tanto? Ou opiniões sobre amigas, melhor se afastar, não está a sua altura.

Ao tempo que se mostrava uma vítima para mim: não almocei, a comida estava intragável, você não cuida direito da casa, esperei até essa hora para você trazer um lanche decente, me sinto mal quando você sai com colegas de trabalho, sempre existe um perigo de uma interpretação indevida, estou cuidando de você.

Nunca viajávamos, apenas para visitar a família, qualquer outro plano estava fora de cogitação, sempre era caro demais e um gasto desnecessário.

Fui envelhecendo aos 30 anos, me vestia como uma idosa, o brilho do olho não existia mais, eu só trabalhava, muito. Era a minha fuga da infelicidade instalada aos poucos, despercebida por mim.

Um dia ele se foi, não havia mais a quem dar explicações, eu podia sair, eu podia respirar, sem reclamações, enfim só.

Assim a vida se descortinou, podia simplesmente percorrer a cidade de carro, sem horário para chegar em casa, ver as novas árvores floridas, como nunca as tinha visto.

Então, arrebentando de vez os grilhões, resolvi finalmente passar o carnaval em Salvador. Sem compromissos, conhecer o que a Regina falava ser o melhor carnaval de sua vida.

Queria dançar rua afora, mostrar a todos a minha alegria, me diziam, se quiser você será beijada a cada metro. Mais que beijos eu queria o prazer de estar comigo.

Estava solteira, feliz, e na rua dancei, precisava voltar a me amar, ver um mundo novo de cor, deixar a vida me levar.

Era tanta gente resplandecente, eufóricos, desde a Barra até Ondina. Me contagiei nesta opulência. Olhava para os lados e podia perceber aflorar por todos os meus poros os meus sentidos.

E no bloco dos mascarados esbanjei, o caramujo se abriu ali, cantando e dançando nascia uma mulher que prometia a si mesmo nunca mais deixar de viver.

Conto de Adrianafetter

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