Itaara a Mentira Santa e o  Silêncio

Uma história de mulheres, para mulheres


I. A JANELA E O RITUAL

São Paulo, 2022.

O dia em São Paulo começava antes do sol, num esforço deliberado de antecipar-se ao caos. Isabela despertava às cinco e meia, quando a cidade ainda respirava num silêncio suspenso, antes que os primeiros carros começassem a engarrafar a Marginal Pinheiros. Em seu apartamento no 27º andar de um edifício nos Jardins, a vista era um oceano de prédios que se estendia até a Serra da Cantareira, quando o céu permitia.

Aos 54 anos, Isabela carregava dentro de si duas mulheres: a menina que corria descalça no quintal da avó em Santa Maria e a executiva respeitada que negociava contratos milionários em Genebra, Singapura ou Nova York.

Essa dualidade era seu maior trunfo. Sabia transitar com a mesma naturalidade entre uma reunião na matriz europeia e uma roda de chimarrão na casa de uma tia afastada. Conhecia os códigos de cada ambiente, mas nunca perdeu a essência daquela menina do Sul.

Vice-presidente de uma das maiores multinacionais do setor de tecnologia, alcançara o posto com uma combinação rara de inteligência aguda e capacidade de liderança herdada das mulheres de sua família. Sua rotina era regida por fusos horários: reuniões com Tóquio às sete, com Londres às dez, com Nova York às dezoito. O apartamento, decorado com peças de design contemporâneo, guardava, no entanto, objetos que destoavam da frieza moderna: uma tábua de madeira da cozinha de Antônia, uma colher de pau gasta pelo tempo, uma imagem de Nossa Senhora que a mãe lhe dera quando se mudou para o Sul.

Com a xícara de porcelana pesada aquecendo suas palmas, ela se postava diante da vidraça e observava a cidade acordar. Os primeiros helicópteros sobrevoavam a Faria Lima, os executivos começavam a chegar aos prédios envidraçados. Mas Isabela não via nada disso. Via, em vez disso, o rosto da mãe. Sentia o cheiro de alfazema que Zulma usava nos lençóis. Ouvia o som das galinhas ciscando no quintal. Aos 54 anos, Isabela era uma mulher poderosa, mas ainda era a menina que aprendia com a mãe os segredos da cozinha, a adolescente que devorava os livros que a tia Helena lhe emprestava.

O celular vibrou sobre o granito: “Ligar para Zulma”. Antônia partira há meses, mas o hábito era uma cicatriz que não fechava.


II. OS OLHOS QUE SE ENCONTRARAM

Havia um espelhamento místico entre Antônia e Zulma, uma identidade que ia muito além do cuidado. Antônia tinha olhos azuis, muito claros e diretos, que pareciam ler a alma de quem os encarava. Zulma tinha os mesmos olhos. Antônia tinha cabelos claros, uma brancura de neve que Zulma mantinha sempre impecável na patroa — reflexo da marcante origem francesa da família de Antônia e Helena. Zulma também os tinha. A mesma cor, a mesma textura, o mesmo brilho.

Isabela, ao contrário, herdara do pai os cabelos negros e os olhos castanhos. Era uma menina introspectiva, que preferia a companhia dos livros à algazarra das primas. Passava horas sentada nos degraus da varanda dos fundos, observando as formigas carregarem suas folhas, o movimento das nuvens no céu, a luz mudando de cor ao entardecer. A natureza a nutria de uma forma que as pessoas não conseguiam. Era a única filha morena numa família de mulheres loiras, e isso, de certa forma, a marcou. Cresceu sentindo-se diferente, observadora, aquela que guardava os segredos que as outras não viam.

Quando as duas mulheres de olhos azuis se encontravam, havia ali um reconhecimento silencioso. Zulma não era apenas uma cuidadora; era um espelho físico e moral que refletia a dignidade que Antônia, mesmo mergulhada na neblina da demência, insistia em manter. O toque de Zulma era firme, mas doce, manuseando aquele corpo frágil com a reverência de quem cuida de um altar.

Isabela lembrava-se de quando, ainda menina, acompanhava a mãe e Zulma na colheita da macela, ao amanhecer de uma Sexta-Feira Santa, antes do sol nascer, seguindo a tradição de que a colheita sagrada guardava o poder de cura. Achava um absurdo acordar tão cedo, mas agora entendia: aquilo era um rito de amor. Em São Paulo, onde tudo era urgente, Isabela tentava preservar pequenos rituais. O café feito com calma, a xícara preferida, o momento de silêncio antes que o telefone começasse a tocar.

Nos últimos anos de Antônia, Zulma se tornara sua extensão. Era ela quem acordava de madrugada para dar os remédios, quem preparava a macela no horário certo, quem penteava os cabelos claros de Antônia todas as manhãs, mantendo a nobreza de sua aparência até o fim. Era ela quem sentava ao lado da cama nos momentos de confusão, segurando sua mão, esperando que a névoa da demência se dissipasse por alguns instantes. E, quando a névoa se dissipava, os olhos azuis de Antônia encontravam os olhos azuis de Zulma, e ali havia um entendimento que nenhuma palavra podia traduzir.


III. A DINÂMICA DOS AFETOS

Santa Maria, 1970.

Crescer na Rua Venâncio Aires era habitar um mundo de contrastes sensoriais. O casarão da família erguia-se num trecho de silêncios respeitosos, onde as famílias mais abastadas construíram seus destinos. As calçadas de pedras portuguesas eram emolduradas por jacarandás que, na primavera, estouravam em flores roxas, formando tapetes efêmeros que as crianças adoravam pisar. Isabela, mesmo adulta, ainda sentia aquele prazer infantil ao ver flores caídas no chão.

Isabela e Natália nasceram no mesmo ano de 1968, um período de efervescência cultural que chegava ao Brasil pelas ondas do rádio e pelas capas dos discos. Enquanto o mundo vivia a explosão da Tropicália e o embalo dos festivais de música, as duas primas cresciam embaladas pelos sons que vinham do rádio de válvula na sala da avó. Elis Regina, Chico Buarque, Caetano Veloso, Jovem Guarda — tudo isso fazia parte da trilha sonora de suas infâncias. Nos anos seguintes, enquanto a ditadura endurecia e a censura cerceava, a música continuava sendo o fio que conectava a casa com o mundo lá fora.

O jardim da avó era um espetáculo de cores e perfumes que mudava com as estações. Na primavera, as azaleias formavam cercas-vivas roxas, enquanto as roseiras trepadeiras cobriam o muro dos fundos. As hortênsias floresciam do outono ao inverno em bolas azuis e rosas. Os amarílis despontavam em outubro como guardiãs solenes. Havia também dálias e lírios brancos perto do oratório de Nossa Senhora.

No verão, de dezembro a março, o calor era uma redoma de mormaço. Era a época das uvas, pêssegos e figos. As parreiras carregavam cachos verdes e rosados, e as crianças disputavam os maiores. Os pêssegos e figos também amadureciam, e a avó fazia geleias e compotas que perfumavam a despensa.

No outono, de março a junho, as folhas dos plátanos caíam, cobrindo o chão. As hortênsias começavam a despontar. Era tempo de colher nozes e castanhas para as tortas.

No inverno, de junho a setembro, o vento minuano assobiava nas frestas. As manhãs acordavam brancas de geada. Era a época das bergamotas, do chocolate quente espesso de Antônia, dos suspiros que derretiam na boca, do caldo de galinha com capeletti servido quente.

A vida interna seguia o rito da fartura. O casarão cheirava a encáustica e lenha de pinho. Antônia governava a cozinha com nobreza. Seu repertório ia muito além do carreteiro: no Natal, preparava peru com sarrabulho; na Páscoa, cordeiro assado; nos domingos à noite, feijão mexido cremoso; a macarronada caseira com molho cozido lentamente; as ambrosias douradas, o arroz doce com canela, as tortas de nozes e castanhas.

Isabela e Natália, primas vizinhas de berço, cresceram juntas, e o quintal da avó era o reino de todas as aventuras. Corriam atrás das galinhas, coletavam os ovos ainda quentes, colhiam flores para enfeitar a casa. Brincavam de esconder, de roda, de elástico, de amarelinha. A brincadeira preferida era imitar as adultas com suas panelinhas de alumínio, preparando comidinhas de mentira com folhas e pedrinhas.

Mas nem tudo era harmonia. Natália, mais forte, mais dona do território, batia em Isabela quando ninguém estava olhando. Tapas dados às escondidas, empurrões na fila do banheiro, beliscões no escuro do quarto. A rivalidade que atravessou a adolescência começou ali, naquelas pequenas violências que Isabela aprendeu a esconder. “Não conta”, dizia Natália. E Isabela, menina de olhos castanhos que queria ser aceita, não contava. Guardava as marcas como guardava os segredos.

Leonor, desde cedo, assumiu a defesa de Isabela. Quando via Natália se aproximar com aquele olhar de quem planejava mais uma agressão, interpunha-se. Protegia a menina de cabelos negros com unhas e dentes, sem que Isabela precisasse pedir. Era uma proteção silenciosa, mas absoluta.

Isabela se identificava com a tia Helena, a irmã mais nova de Antônia. Helena era uma mulher de beleza serena e olhos claros, que tivera seus momentos de rainha de clubes, desfilando em festas e encantando a cidade com sua elegância. Mas escolhera outro caminho: a vida acadêmica. Professora universitária, dedicava seus dias às aulas, às pesquisas, aos livros. Isabela ouvia encantada suas histórias da universidade, o cheiro de giz e papel velho que emanava de suas pastas, a forma como ela falava de conhecimento com paixão. Quando precisava de conselhos sobre estudos, era Helena quem procurava. A tia a incentivava a ler, a questionar, a não se contentar com o óbvio.

Helena vivia uma vida dupla entre o campus e o casarão. Nas tardes de sábado, quando não havia aulas, sentava-se na varanda com Antônia, e as duas irmãs tagarelavam horas a fio, rindo de lembranças da infância em Itaara, enquanto Isabela e Natália brincavam no jardim. Mas durante a semana, Helena sumia no mundo acadêmico, voltando para casa com livros debaixo do braço e a mente cheia de ideias que dividia com a sobrinha mais velha.

Natália, filha de Helena, era o oposto. Enquanto Isabela se perdia nos livros emprestados pela tia, Natália preferia ficar na cozinha com Antônia, aprendendo os segredos das receitas, os pontos do crochê e do bordado que mais tarde desenvolveriam sua sensibilidade estética. Era Antônia quem lhe ensinava a arte de transformar fios em rendas, de dar vida a um pedaço de pano com agulhas e linhas coloridas. Mais tarde, Natália se tornaria Miss Rio Grande do Sul, mas sua verdadeira vocação estava no fazer manual: desenvolveria uma requintada linha de roupas de banho em crochê e, mais importante, daria cursos para mulheres da periferia, ensinando bordado, crochê e tricô, transformando o artesanato em emancipação.

Isabela, por sua vez, herdara de Antônia o talento para a cozinha. Desde pequena, acompanhava a mãe nos ritos culinários, aprendendo os temperos, os pontos, os segredos que faziam da mesa da família um banquete. Com o tempo, tornou-se uma quituteira de mão cheia, capaz de preparar um jantar inesquecível, digno das melhores mesas. Quando adulta, em São Paulo, era famosa entre os amigos por seus almoços de domingo, onde ressuscitava as receitas da mãe e, por algumas horas, trazia de volta o calor da cozinha da Venâncio Aires.


IV. O CHAMADO DE ITAARA

Itaara era o refúgio onde o tempo parecia flutuar. Estrategicamente encravada no topo da Serra Geral, a cidade era um reino de neblina e silêncio. Para chegar lá, o ritual começava na saída de Santa Maria, enfrentando as curvas sinuosas da BR-158. O carro vencia a inclinação da serra enquanto a paisagem urbana ficava para trás, substituída por encostas íngremes e vales profundos cobertos de uma mata atlântica vibrante e úmida. À medida que a altitude subia, a temperatura caía bruscamente, e o ar tornava-se leve, tingido pelo perfume resinoso dos eucaliptos e das araucárias.

O dia a dia lá era regido pelo “ruço” — aquela neblina densa e branca que subia dos vales e descia sobre as copas das araucárias, transformando os pinheiros em cálices gigantes que pareciam sustentar o céu. A neblina envolvia tudo, criando um mundo de contornos suaves e sons abafados. Os pingos d’água que escorriam das folhas eram a única música, um tamborilar suave e constante. A casa de campo tinha o cheiro persistente de mofo suave misturado ao de lenha guardada, um aroma de abrigo e de histórias antigas.

Isabela, quando menina, adorava as idas para a serra. O frio, a neblina, o cheiro de eucalipto — tudo aquilo era uma aventura. Mas, na vida adulta, Itaara se tornara um lugar de memória e despedida. A última vez que estivera lá com a mãe, antes da pandemia, fora num daqueles raros dias de sol no inverno, em agosto, quando o ruço se dissipava por algumas horas e deixava ver o verde profundo da paisagem. Antônia, já com a demência avançada, tivera um momento de lucidez e dissera, olhando o arroio: “É aqui que eu quero voltar”. Isabela guardara aquelas palavras como um tesouro, sem saber que seriam uma profecia.

Zulma a levou lá no fim, sem Isabela. Isso doía. Doía saber que a mãe tivera seu último momento de paz com Zulma, não com a filha. Mas Isabela entendia. Zulma estivera ali todos os dias, enquanto ela estava em São Paulo, em reuniões intermináveis, voando para outros países, fechando contratos. O preço do poder era a ausência. E Isabela pagava esse preço todos os dias.


V. A PRIMEIRA DESPEDIDA

Antes da pandemia, Helena adoeceu. Foi uma erosão rápida que a arrancou da luminosidade das salas de aula para o vácuo asséptico do hospital. Ali, o cheiro de encáustica do casarão era substituído pelo odor metálico de desinfetante e éter. O silêncio não era o da biblioteca, mas o silêncio pesado dos corredores de azulejos brancos, interrompido apenas pelo bipe rítmico dos monitores sob luzes fluorescentes frias que nunca se apagavam.

Natália via a mãe — a mulher que cheirava a livros e perfumes franceses — agora prisioneira de tubos, com as mãos translúcidas revelando veias azuladas sob a pele de papel. O toque da pele da mãe era frio, úmido, tão diferente do calor dos seus abraços. Natália segurava aquela mão e sentia a vida escorrendo pelos dedos, uma angústia física que lhe apertava o peito e dificultava a respiração. Helena reuniu um resto de força e sussurrou um recado para a irmã Antônia: “Seja feliz”. Isabela chorou ao ouvir a mensagem por telefone; era o primeiro rasgão no tecido da família, uma dor que vinha em ondas, apertando-lhe a garganta e os olhos.

As cinzas de Helena foram entregues ao arroio em Itaara, longe da assepsia hospitalar, voltando finalmente para o perfume da terra úmida. Natália estava lá, e Isabela imaginou a prima à beira do arroio, despedindo-se da mãe. Pensou que, apesar de tudo, havia uma dor que as unia.


VI. A TARDE EM QUE O TEMPO DESABOU

São Paulo, 2022.

Fazia dois anos que Isabela não via Antônia pessoalmente. Desde março de 2020, quando a pandemia se instalou no Brasil e o mundo parou, ela entrara em quarentena rigorosa no primeiro dia. Autoimune, não podia arriscar. Uma simples gripe poderia se transformar em uma pneumonia devastadora. Os médicos haviam sido claros: evitar aglomerações, evitar viagens, evitar qualquer exposição desnecessária. Antônia, por ser idosa e frágil, também não podia receber visitas. O risco de contaminação era alto demais. Zulma, que morava com ela, assumiu sozinha os cuidados, entrando e saindo com máscaras, aventais, toda a proteção possível.

Restaram as telas.

Nas videochamadas semanais, Isabela via o rosto da mãe através de uma tela de computador. A imagem às vezes travava, o som falhava, mas era tudo o que tinham. Antônia, já com a demência avançada, nem sempre entendia que a filha não podia estar ali fisicamente. Perguntava quando ela viria, quando a visitaria, quando dariam um abraço. Isabela inventava desculpas, dizia que estava trabalhando muito, que em breve apareceria. As mentiras doíam, mas eram necessárias.

— Tô bem, filha. Não te preocupa.

A voz de Antônia vinha distante, comprimida pelo algoritmo, mas ainda assim era a voz dela. O mesmo timbre, a mesma entonação, o mesmo jeito de puxar o “r” da fronteira com o Uruguai. Isabela sorria para a câmera. Antônia sorria de volta. Nenhuma das duas dizia o que realmente doía.

A notícia de que a mãe estava no pronto-socorro chegou numa tarde de segunda-feira, enquanto Isabela preparava uma apresentação para a matriz europeia. O celular vibrou. Era Zulma.

— Dona Isabela, a senhora precisa vir. A Antônia passou a noite no pronto-socorro. Estão transferindo ela para o hospital. A saturação baixou muito. Ela não está bem.

Isabela sentiu o chão sumir. As mãos começaram a tremer. O mundo pareceu girar ao redor. Imediatamente, começou a busca por passagens — abriu todos os sites de companhias aéreas, calculou horários, tentou encontrar um voo para Porto Alegre. A malha aérea estava reduzida, os voos escassos. Depois de horas de tentativas desesperadas, conseguiu um único bilhete para o dia seguinte. Um dia depois. Só um dia depois.

— Vamos contigo, mãe — disse Fernando. — Vamos todos.

Lígia já começava a separar as malas, enquanto Fernando assumia a logística dos voos. Isabela, atordoada, passou as horas seguintes entre ligações para o hospital, para Zulma, que já estava ao lado de Antônia. Cada notícia que chegava era pior que a anterior. Setenta por cento de oxigenação. Quadro crítico. Provavelmente não resistiria.

Na manhã seguinte, Isabela embarcou com os filhos. O voo para Porto Alegre foi silencioso. Isabela olhava pela janela, as mãos frias dentro das mãos quentes de Lígia, e sentia um nó no estômago que não a largava. Fernando segurava sua outra mão. Os três estavam juntos, unidos pela angústia.

Quando o avião pousou, já era noite. Alugaram um carro e seguiram para Santa Maria. As duas horas de estrada se arrastaram como uma eternidade. Isabela não conseguia tirar os olhos do telefone, esperando uma notícia de Zulma, mas o aparelho permanecia mudo. O silêncio era a pior resposta.

Chegaram a Santa Maria no amanhecer. O céu ainda estava escuro quando estacionaram em frente à casa de Antônia. Isabela desceu do carro com as pernas trêmulas. Os filhos a acompanhavam, prontos para ampará-la a qualquer momento.

A porta estava entreaberta. Isabela entrou e encontrou Zulma no quarto da mãe, arrumando os pertences com uma calma meticulosa, como se fosse um ritual. A cuidadora se virou ao ouvir os passos. Seus olhos azuis estavam vermelhos, marejados.

— Ela se foi, Dona Isabela. Na hora da Ave-Maria, ontem à noite. Eu estava com ela. Não a deixei sozinha. Assim que ela partiu, eu liguei. Tentei falar com a senhora, mas o telefone não atendia. Deixei mensagem. A senhora não recebeu?

Isabela puxou o celular do bolso. Uma mensagem de Zulma, recebida na noite anterior. O celular estava no silencioso. Ela não tinha ouvido. A culpa apertou seu peito com força redobrada.

— Eu não vi — sussurrou. — Eu não vi.

As pernas fraquejaram, e os filhos a seguraram. Lígia a abraçou por um lado, Fernando pelo outro. Zulma aproximou-se, tomou suas mãos.

— Ela perguntou pela senhora até o fim. Eu disse que a senhora estava chegando, que já estava a caminho. Eu menti para ela, Dona Isabela. Disse que a senhora ia chegar a tempo. Ela sorriu. Acalmou.

As lágrimas que Isabela vinha contendo finalmente rolaram. Zulma a abraçou, e as duas mulheres ficaram ali, no quarto que ainda cheirava a alfazema, chorando juntas, com os filhos ao redor, em silêncio respeitoso.


VII. A MENSAGEM QUE NÃO DEVIA TER VINDO

No dia anterior, ainda em São Paulo, uma hora antes da morte de Antônia, o celular de Isabela vibrou com uma mensagem de Leonor:

“Eu conheço sua mãe antes de você. Passei mais anos da minha vida me relacionando com ela do que com a minha própria mãe. Como você não me avisa que ela está no hospital? Tive que saber por uma prima que passou e a viu. Eu, que sempre segurei a barra por aqui enquanto vocês viviam de arte e diplomas. A sua mãe nunca me reconheceu, nunca valorizou o que eu fiz por ela. E você, Isabela, sempre achou que sua vida em São Paulo era mais importante que tudo.”

Isabela leu e releu, incrédula. Uma prima que passou e a viu. Mentira. Antônia estava numa sala de emergência, depois na UTI. Ninguém “passava” por ali naqueles dias de isolamento rigoroso. As palavras de Leonor entraram como facas, uma a uma, abrindo feridas que nem a iminência da morte da mãe conseguia anestesiar.

Ela respondeu com calma, explicando a correria, o desespero, a falta de tempo para avisar quem quer que fosse. Explicou como pôde. Depois, desligou e ficou olhando para o teto, esperando que aquela não fosse a última imagem que guardaria da cunhada.

Uma hora depois, sem que Isabela soubesse, Zulma ligou para dar a notícia da morte de Antônia. O telefone estava no silencioso. Isabela só veria a mensagem no amanhecer, ao chegar à casa da mãe.


VIII. A MENINA QUE CHEGOU ANTES

Leonor estava na família desde antes de Isabela nascer, em 1968. Apaixonou-se por Isabela no momento em que a viu ainda bebê. Era uma menina de cabelos negros, que havia puxado fortemente ao pai — o sogro de Leonor —, um homem de inegável origem portuguesa. Aquele traço escuro era muito diferente da beleza da sogra, Antônia, e da tia Helena, que carregavam a origem francesa nos olhos azuis e cabelos claros.

Leonor seguiu carreira administrativa na universidade, mas seu foco sempre foi a micro-gestão dos afetos. Assumia o papel de supervisora implacável: exigia que os colarinhos do uniforme de Isabela brilhassem, revisava cada livro escolar, buscava-a no portão da escola para passar os finais de semana com ela e Pedro. Naqueles dias, o lanche era farto — cheiro de bolo de laranja assando — e a proteção de Leonor era absoluta. Mas aquele zelo controlador vinha com uma nota promissória invisível que Leonor cobraria décadas depois.

Leonor amava Pedro, filho de Antônia, mas o casamento foi difícil. Pedro perdia dinheiro facilmente, envolvia-se em noites de baralho, deixava o sustento da casa nas costas da mulher. Leonor sofria resignada, jamais falando disso a ninguém. Não entendia porque a família abastada não ajudava, mas a família não sabia das confusões de Pedro, que escondia de todos seus fracassos. Com o tempo, Leonor foi se transformando. A mulher amorosa que um dia embalara Isabela foi, aos poucos, dando lugar a alguém cínico e amargurado, que descontava nos outros a própria desilusão.

Isabela, mesmo depois de tudo, ainda guardava um cantinho de afeto por Leonor. Era difícil apagar décadas de convivência. Lembrava-se da Leonor que a esperava no portão da escola, da Leonor que preparava seus lanches favoritos, da Leonor que a defendia de Natália. Mas o amor tinha limites. E Leonor os ultrapassara.


IX. O ÚLTIMO ATO DE ZULMA

Zulma contou tudo naquela manhã, no quarto de Antônia. Contou como fora o fim.

No ambiente estéril do hospital, onde o cheiro de éter e a luz fluorescente tentavam apagar a humanidade, Antônia lutava contra o próprio corpo. Sob a máscara de plástico, sentia o frio cortante do oxigênio entrando pelo nariz — um sopro gélido, metálico, que contrastava com a lembrança do vento puro e com o cheiro de terra molhada de Itaara.

Foi nesse vácuo gelado e clínico que Zulma se tornou a sua única âncora. Moveu-se com a mesma serenidade com que arrumava a casa. Aproximou-se do leito com um frasco de óleo de amêndoas e um ramo de alecrim escondido no avental. Com as mesmas mãos que colheram a macela, começou a massagear os pés e as mãos de Antônia, gélidos como as pedras do arroio. O óleo aquecia a pele fria, e o cheiro do alecrim trazia um sopro de natureza para dentro daquele cubículo de morte.

— Não tenha medo, Dona Antônia — sussurrou Zulma. — O arroio está logo ali. O ruço já está baixando em Itaara e a senhora pode descansar.

Zulma penteou os cabelos claros de Antônia, garantindo sua nobreza até o fim. Quando os olhos azuis de Antônia se abriram, encontraram os olhos azuis de Zulma. Não houve necessidade de palavras. Sabendo que Isabela não chegaria a tempo, Zulma inclinou-se e proferiu a “mentira santa”:

— A Isabela chegou, minha patroa. Ela está ali na porta, tirando o casaco. Ela veio te ver.

Antônia sorriu — um sorriso fraco, mas pleno — e a rigidez do oxigênio frio dissolveu-se. Antônia partiu sentindo o aroma de alfazema que Zulma emanava e o calor da mão que nunca a soltara. Aquele gesto foi o último “chocolate quente” que sua alma recebeu.

Isabela sentiu uma gratidão imensa. Zulma dera à mãe o que ela não pudera dar: uma morte em paz, com a certeza de que a filha estava por perto. Naquele momento, entendeu que Zulma não era apenas uma cuidadora; era uma extensão de sua própria alma.

Depois da morte de Antônia, Isabela construiu uma casa para Zulma. Desde que enviuvara, Zulma morava com Antônia, no quarto ao lado, e não via sentido em morar longe. Uma fazia companhia à outra. Agora, Isabela garantiria que Zulma tivesse seu próprio espaço, mas perto o suficiente para que nunca se sentisse sozinha. Era a única forma de retribuir tudo o que ela havia feito.


X. AS MÃOS QUE FICARAM (O Último Altar)

O velório ocorreu na mesma tarde em que Isabela chegou, numa capela nos arredores de Santa Maria. O inverno deixava o ar gelado, e a luz que entrava pelos vitrais era pálida, filtrada, como se o próprio céu respeitasse a solenidade do momento. Isabela olhou para o rosto da mãe e sentiu uma dor tão física quanto uma punhalada, uma compressão no peito que a impedia de respirar fundo. Lembrou-se de todas as vezes que aquele rosto se iluminara ao vê-la chegar, de todas as vezes que aquelas mãos agora frias a haviam aquecido.

Antônia repousava como uma rainha. O caixão de madeira nobre parecia flutuar sob uma avalanche de pureza. Antônia estava submersa por um mar de flores brancas. Coroas imensas rodeavam o esquife, mas eram as flores soltas que desenhavam a despedida: lírios majestosos, com pétalas de um branco leitoso, exalavam um perfume doce e pesado; centenas de crisântemos formavam um tapete de resistência; e rosas brancas velavam seu sono com a suavidade de suas pétalas aveludadas. Havia também flores do jardim da avó, trazidas por Zulma: hortênsias azuis e rosas que ainda guardavam o perfume da terra de Antônia.

Seus cabelos claros, de um branco de neve, estavam impecavelmente penteados. A pele de porcelana contrastava com a força de sua história, e os olhos azuis, agora fechados, guardavam a transparência de sua alma.

Natália chegou com passos lentos, os olhos marejados. Aproximou-se do caixão, inclinou-se sobre a tia e sussurrou algo que ninguém pôde ouvir. Ficou ali por alguns instantes, a testa quase tocando a de Antônia, como se conversassem, como se as duas ainda pudessem se entender naquele silêncio. Depois, afastou-se e foi para o canto, onde permaneceu em oração.

Durante as horas pesadas do velório, Leonor não tardou a exibir seus arroubos, o choro alto e escandaloso que misturava arrependimento e desgosto. Lígia permaneceu ao lado da mãe o tempo todo, segurando sua mão, amparando-a, protegendo-a. Era um apoio silencioso, mas absoluto.

Apoiada pela filha e pelo filho, Isabela aproximou-se do esquife e pegou a mão da mãe pela última vez. O toque gélido foi um choque de realidade brutal contra o calor da mulher que tantas vezes a embalara. Ali, de mãos dadas com o silêncio, curvou a cabeça e fez uma oração emocionada. Depois, soltou a mão e deixou as lágrimas rolarem.


XI. O CHIMARRÃO AMARGO

No dia seguinte ao velório, Isabela foi ao quarto da mãe organizar os pertences. A casa estava silenciosa, apenas Zulma circulava pelos cômodos, arrumando o que restava. Isabela abriu o armário, sentiu o cheiro de alfazema que ainda impregnava as roupas, pegou um casaco e levou ao rosto. Ficou ali, por um longo instante, sentindo o último vestígio da mãe.

Zulma entrou com uma cuia de chimarrão. Seus olhos azuis, tão parecidos com os de Antônia, estavam marejados.

— Senta, Isabela. Toma um chimarrão.

Isabela aceitou, sentando-se na poltrona onde a mãe passava as tardes. O som da água quente e o chiado da bomba eram os únicos ruídos naquele ambiente agora vazio.

Isabela sorveu o primeiro gole. A erva parecia “queimada”, de uma adstringência agressiva, excessivamente amarga, travando na língua e descendo pela garganta como um ácido que corroía por dentro.

— Tua mãe merecia mais, Isabela — começou Zulma, baixando o olhar. — A Leonor mora a uma quadra e meia daqui. Dá para vir a pé. Mas não vinha. Às vezes passava semanas, meses. E o pior era quando vinha. A Antônia, coitada, já tão perdida na neblina da doença, às vezes olhava para a porta e perguntava com esperança: “E o Pedro não veio?”.

Zulma fez uma pausa, o peso da recordação apertando a voz. Isabela via a cena na mente: a mãe, frágil no leito, os olhos turvos buscando a porta, uma centelha de esperança iluminando seu rosto antes da queda.

— Qualquer pessoa inventaria uma desculpa, uma mentirinha doce para acalmar o coração de uma mãe. Mas a Leonor fazia questão de olhar bem nos olhos da tua mãe e responder: “O Pedro morreu, Antônia! O teu filho está morto e enterrado, tu não lembra?”. Ela dizia isso e ficava ali, olhando a Antônia sofrer o luto tudo de novo, chorar uma dor que a memória já tinha apagado. O choro de Antônia era de partir o coração, um soluço de criança perdida que não entendia por que estava sofrendo.

Isabela sentiu o amargor do mate intensificar-se, uma onda de náusea que subia do estômago. Leonor não criava o assunto, mas usava a fragilidade e o esquecimento de Antônia como uma arma.

Foi então que Zulma contou sobre o casamento de Leonor e Pedro. Contou sobre as noites de baralho, as perdas de dinheiro, o sustento da casa caindo sozinho sobre os ombros de Leonor. Contou sobre a resignação silenciosa com que ela carregava aquele fardo, jamais pedindo ajuda, jamais reclamando.

Isabela ouviu em silêncio. A dor que Leonor carregava explicava muitas coisas, mas não justificava tudo. A amargura que antes parecia gratuita agora ganhava contornos humanos. Isabela entendeu a cunhada, compreendeu as razões de sua aspereza, mas entendeu também que o convívio nunca mais seria o mesmo. Algumas feridas cicatrizam, mas deixam marcas profundas demais para serem ignoradas. Naquele momento, Isabela decidiu que se afastaria de Leonor. Não por vingança, não por rancor. Para preservar as boas lembranças do amor que existiu no passado, antes que a amargura as corroesse por completo.


XII. O ARROIO E O REENCONTRO

Dias depois, Isabela foi a Itaara com os filhos. O inverno deixava a paisagem impressionante: o ruço descia das araucárias como fumaça, e o som da água no leito basáltico era a única música que Antônia sempre amara. O ar gelado, o cheiro de pinheiro, o silêncio — tudo aquilo era a materialização da paz que ela buscava.

Caminharam pela trilha que cheirava a húmus e folha de pinheiro seca. Isabela, profundamente abalada e exaurida por toda a dor dos últimos dias, mal conseguia se manter de pé, mas continuava sendo amparada firmemente pelos braços de seus filhos. Lígia a segurava de um lado, guiando seus passos, seu corpo quente contra o frio da serra. Fernando a amparava do outro, sustentando-a como o escudo que prometera ser. O vento gelado batia em seu rosto, e ela sentia as lágrimas congelarem nas bochechas.

Diante do leito basáltico e das águas frias, Natália assumiu a despedida. Com a voz embargada, mas carregada daquela força singular, fez uma oração bonita e profunda por Antônia, uma prece que ecoou entre as araucárias, abençoando a tia que fora o seu norte. A voz de Natália subia clara no ar gelado, e cada palavra parecia se enroscar nos galhos dos pinheiros.

Ao fim da oração, Fernando aproximou-se da margem e jogou lentamente as cinzas nas águas cristalinas sobre as pedras pretas, num movimento suave e reverente. As cinzas tocaram a água e se espalharam como uma névoa cinzenta antes de serem levadas pela correnteza. “Vão juntas. Cuidem uma da outra”, murmurou Isabela, com a voz falhando.

Isabela se aproximou de Natália. Não houve abraço — ainda havia uma certa dificuldade de convívio na vida adulta, resquícios do passado de desentendimentos. Se respeitavam, se amavam, mas não tinham intimidade. Isabela apenas disse, com os olhos marejados:

— A mãe te amava muito. Obrigada pela oração, obrigada por estar aqui.

Natália assentiu, com os olhos úmidos.

— Guarda essa gratidão para o céu — disse a prima, com o sorriso de quem já sentia seu próprio fim.

Isabela franziu o cenho, sem entender. A frase ecoou na mente dela por um instante, mas a dor do momento a impediu de questionar. Só muito tempo depois, quando Natália partiu, ela compreenderia o significado daquelas palavras.


XIII. O ÚLTIMO ALMOÇO

Depois do arroio, Isabela passou alguns dias em Santa Maria com os filhos. A cidade estava diferente — ou talvez diferente estivesse ela. No último dia, almoçou com Leonor e a sobrinha num restaurante na rua do Rosário, um dos mais antigos da cidade, com suas toalhas de xadrez vermelho e o cheiro da gordura quente e do vinagre de vinho forte. O ambiente guardava a essência da infância.

A entrada foi um marco visual das novas alianças: Isabela cruzou o salão de braços dados com Lígia, sendo amparada pela filha o tempo todo com uma ternura protetora. Fernando vinha logo atrás, de cabeça erguida, fechando aquele escudo familiar inabalável.

O garçom trouxe a sopa de caldo de galinha com capeletti, servida quente em canecas de ágata. O aroma reconfortante se espalhou pela mesa, trazendo um aconchego que todos ali precisavam. O vapor subia das tigelas, aquecendo as mãos frias e os corações gelados. Aquele era o sabor da infância, da casa da avó, dos invernos em Santa Maria.

Almoçaram galeto primo canto, polenta brustolada e radici com bacon, mas o clima à mesa era de puro adeus. Durante toda a refeição, Isabela observou Leonor. Viu nela os vestígios daquela mulher que um dia a protegera com unhas e dentes, que a buscava na escola e lhe preparava lanches fartos. Mas viu também a amargura que corroeu aquela relação ao longo dos anos: as visitas cada vez mais raras, as palavras duras que faziam Antônia reviver a dor da perda de Pedro, a incapacidade de Leonor de perdoar a vida por tê-la feito viúva. Isabela lembrou-se de todas as vezes que tentara telefonar, manter a ponte, e ouvia apenas respostas curtas e queixas. A relação já estava morta há muito tempo; aquele almoço era apenas o enterro.

Leonor, com o hálito de fumo e o olhar seco, fez a pergunta que apenas confirmava o aviso que Isabela já lhe dera há tempos. Leonor sabia que, com a morte de Antônia, Isabela não tinha mais motivos para regressar.

— Tu não vais voltar mais, né?

— Não, Leonor. Não vou.

Na porta do restaurante, abraçaram-se. Isabela sentiu o corpo franzino de Leonor contra o seu, e pensou em todas as vezes que aquele colo a abrigara. Pensou também no preço que fora cobrado por aquele amor. Depois, entrou no carro e não olhou para trás. Isabela perdoava Leonor, mas não queria mais conviver com ela. O amor que existira entre elas ficaria guardado na memória, protegido do desgaste dos anos.


XIV. A REPRESA E O SILÊNCIO

Na saída da cidade, pararam na represa de águas escuras e imóveis. O vento minuano assobiava nos ouvidos como uma lâmina de gelo. A água parada refletia o céu cinzento, criando uma paisagem de tristeza infinita. Isabela lembrou dos cuidados de Antônia e da falsa narrativa de Leonor. Os filhos a envolveram em um abraço, e ela se deixou ficar ali, naquele silêncio, naquele vazio.

Na volta para São Paulo, durante o voo, Isabela olhou pela janela e viu as nuvens lá embaixo. Pensou na mãe, nas águas de Itaara, no ciclo que se completava. Sentiu que, pela primeira vez em meses, conseguia respirar fundo.

De volta a São Paulo, Isabela retomou sua rotina na multinacional. As reuniões, os relatórios, as viagens — tudo continuava como antes. Mas algo havia mudado. Ela passou a reservar um tempo para si mesma, para cozinhar as receitas da mãe, para cuidar das plantas na varanda, para ligar para Zulma com mais frequência. O sucesso profissional continuava importante, mas já não era a única coisa.


XV. A TRAIÇÃO SILENCIOSA

Meses depois, organizando os papéis de Antônia, Isabela encontrou uma escritura de transferência de propriedade. O papel amarelado trazia a assinatura trêmula da mãe, datada de um ano antes de sua morte. O terreno estava registrado em nome de Leonor e da filha.

Isabela sentiu um aperto no peito, não náusea. Um sentimento profundo de traição. Leonor nunca falara das dificuldades, das necessidades. Por que o subterfúgio de usar a sogra, já com sinais de demência, para conseguir o terreno? Isabela teria ajudado. Sempre honraria o passado que tivera com Leonor. Mas ela preferiu escamotear, como fazia nos últimos tempos. A amargura a cegava, e o tempo só aprofundava sua desconfiança e amargura.

Guardou o papel e o silêncio. Não confrontaria Leonor. Não valia a pena. A imagem de Leonor em sua memória ficou para sempre manchada, mas a gratidão pelo que um dia foi permaneceu, guardada num canto seguro do coração.


XVI. A GRATIDÃO NO CÉU

Natália morreu dois anos após Antônia, numa primavera. Isabela lembrou-se de como Natália amava essa estação, quando o jardim da avó explodia em cores. A doença a havia consumido lentamente, roubando-lhe a carne, mas nunca a majestade. Em seus últimos momentos, ainda era impressionantemente bela; embora muito magra, com a pele quase translúcida esticada sobre a estrutura facial perfeita, seus olhos preservavam a mesma altivez e a refinada sensibilidade estética que sempre a definiram.

Isabela estava em Singapura, numa negociação crucial. Não pôde estar no velório. Naquela noite, trancou-se no quarto do hotel e, pela primeira vez em anos, chorou como chorava quando menina. Lembrou-se das tardes no quintal, das disputas, dos tapas que escondia, dos abraços, do crochê que Natália tentava lhe ensinar. Lembrou-se da oração de Natália no arroio e das palavras enigmáticas: “Guarda essa gratidão para o céu”. Agora entendia: Natália já sabia. A frase que lhe soara estranha no dia da despedida de Antônia era, na verdade, uma premonição. Natália já sentia o próprio fim se aproximando.

Para a despedida, enviou um vaso com lírios roxos e íris exóticas — flores que floresciam na primavera, exatamente como Natália: belas, raras e impossíveis de ignorar.


XVII. A CARTA E O SILÊNCIO

A carta de Leonor chegou meses depois, num envelope simples com o selo do Sul. Isabela reconheceu a letra firme e abriu devagar, sentindo o cheiro de mofo e tempo, como se a carta tivesse ficado guardada por muito tempo antes de ser enviada.

“Isabela,

Não espero resposta. Só quero que saiba: lembro de tudo. Lembro de você pequena, do teu riso, do teu medo de trovão. Lembro de te embalar no colo enquanto teu irmão trabalhava. Lembro de te ensinar a ler, a pular corda, a fazer pão.

Lembro também das coisas que não devia ter dito. Da vez que respondi tua mãe sobre o Pedro. Das vezes que fui dura, que não soube ser doce, que me calei quando devia ter falado.

Não peço perdão. Só quero que saiba: te amei. Te amo ainda. E se algum dia quiser lembrar disso, lembra assim: do colo, das brincadeiras, do amor que existiu antes das mágoas.

Cuida-te.

Leonor.”

Isabela leu e releu. Viu o arrependimento, o amor, a tentativa de reconciliação. Mas viu também o que a carta não dizia: nada sobre o terreno, nada sobre a traição. Guardou a carta junto à escritura. As duas coisas, lado a lado, eram a síntese de Leonor: amor e traição, tudo misturado.

Nunca respondeu. Algumas histórias não precisam de continuação. O amor que existira fora suficiente.


XVIII. O SONHO DAS ÁGUAS

Isabela sonhou com todas elas em Itaara. No sonho, era primavera. O jardim da avó estava em flor: azaleias roxas, roseiras carregadas, hortênsias começando a despontar. Ela era novamente a menina do quintal, correndo com Natália. Via a mãe jovem, a tia Helena com seus livros, Zulma com seu ramo de alecrim. Via Leonor na margem oposta do arroio, hesitante.

No sonho, Isabela estendeu a mão na direção de Leonor. Não para perdoar, mas para dizer: “Eu lembro de ti. Lembro do que fomos. E isso é suficiente”. Leonor hesitou, deu um passo à frente, e a bruma começou a dissipar-se, revelando seu rosto mais jovem, mais suave, o rosto da mulher que a embalava no colo.

Ao acordar, Isabela sentiu uma paz que não sentia há meses. As águas de Itaara tinham levado suas mágoas. O que restava era amor.


XIX. A HERANÇA DAS MULHERES FORTES

Isabela via a sua constelação: Antônia, Helena, Natália, Zulma e Leonor. E via a si mesma no centro, não como a soma de todas elas, mas como uma mulher única, forjada por cada uma daquelas histórias.

Aprendeu que o amor de Antônia estava no chocolate quente, nos suspiros que derretiam na boca, nos jantares inesquecíveis que ela mesma aprendera a reproduzir. Toda vez que cozinhava, sentia a mãe ao lado, corrigindo o ponto do sal, ensinando a bater as claras em neve. Era a sua forma de manter Antônia viva.

O amor de Helena estava nos livros, no conhecimento, na chama intelectual que Isabela carregava consigo. Quando proferia uma apresentação brilhante na empresa, quando negociava um contrato difícil, sentia a tia ali, orgulhosa, dizendo: “Tu vais longe, guria”.

O amor de Natália estava nas linhas e agulhas, na arte de transformar fios em beleza e emancipação, e também na reconciliação tardia, que chegou à beira do arroio. Isabela, mesmo sem o talento manual da prima, aprendera a admirar a paciência, a delicadeza, a capacidade de criar beleza com as próprias mãos. Nas noites silenciosas, quando pegava uma agulha de crochê e tentava imitar os pontos que a prima lhe ensinara, sentia Natália ao seu lado, tecendo também sua própria história. Lembrava-se das uvas colhidas no verão, das bergamotas descascadas no inverno, de todos os sabores que a prima a ajudara a descobrir.

O amor de Zulma estava no cuidado silencioso, na macela colhida na Sexta-Feira Santa, na mão que não soltou a de Antônia até o fim. Isabela aprendera com Zulma que o amor não precisa de palavras. Basta estar presente. Basta segurar a mão.

E o amor de Leonor? Isabela escolheu guardar o que havia de bom: as mãos que a embalaram, as tardes na cozinha. O resto, deixou que as águas de Itaara levassem.

Envolta no amor eterno de seus filhos, Lígia e Fernando, Isabela seguiu em frente, com os olhos no horizonte de concreto de São Paulo e o coração batizado pelas águas eternas de Itaara. Nos seus almoços de domingo, quando preparava as receitas da mãe e via os amigos se deliciarem, sentia que todas elas estavam ali, à mesa, rindo com ela. Nas noites silenciosas, quando revisava relatórios ou preparava apresentações, sentia o olhar de Helena sobre seus ombros. E nas memórias mais doces, via a si mesma e a prima, meninas no quintal da avó, disputando os maiores cachos de uva no verão, descascando bergamotas junto à lareira no inverno, e preparando, com suas panelinhas de alumínio, os primeiros banquetes de uma vida inteira de afetos.

Isabela não era mais a menina do quintal. Era uma mulher poderosa, uma executiva respeitada, uma referência no mundo corporativo. Mas, no fundo, continuava sendo aquela menina. E isso, pensava ela, era o mais perto do sagrado que a gente pode chegar.


Para as mulheres que cuidam, para as que partem, para as que ficam.
Para Zulma, Leonor, Natália, Helena, Antônia.
Para Antônia e Helena, que correm juntas nas águas de Itaara.
Para Natália, que me ensinou que a gratidão pode esperar.
Para Leonor, que me amou antes de eu nascer.
Para meus filhos, Lígia e Fernando, minha força e meu escudo.
Para mim, Isabela, que aprendi que a herança mais valiosa são as memórias que carregamos no coração.

FIM

Novela de Adriana Fetter

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