Diálogos Malditos de Natal

– Vera já acabou de colocar a mesa para ceia?!

– Estou quase acabando Dona Ester, todos já chegaram? (Que saco! Vera por favor isso, Vera por favor aquilo, mas para Aline nenhuma observação. Mais uma noite de Natal e ela está atrasada. Será que não se toca que todos estamos esperando pela beldade?! Desculpa Senhor, sei que é Natal e não deveria pensar assim…).

(Provavelmente ela faz de propósito, entrada triunfal, todos aqui a veneram é a preferida da sogrinha. “Dona Ester passei na confeitaria e comprei aquele bolinho que a senhora gosta, Dona Ester que cor linda de batom, esse vestido lhe cai tão bem, que bom gosto a senhora tem.” interiormente imitava a voz e ria)

A verdade é que Vera via na cunhada uma rival e ela não estava a altura dessa concorrência, sempre seria a perdedora, a de classe media do interior e não a filha de médicos.

Enquanto Aline nao chegava, Vera se penitenciava pelos diálogos malditos, que a atormentavam fazendo dela mais uma pecadora, na data religiosa.

– Aline você chegou e como está bonita!

– Deixa de ser boba mulher, coloquei um vestido floral que gosto. (será que a Vera nunca vai aprender a se vestir?! Está usando maquiagem demais e esse vestido todo de renda, que coisa mais fora de moda. Deixa para lá, é a preferida da dona Ester mesmo: “Vera por favor coloca a mesa, Vera por favor me ajuda aqui na cozinha, Vera vem aqui querida.” Eu sou a inútil que ninguém da familia enxerga, a filhinha de papai, a esnobe que não sabe fazer nada em casa, porque trabalha o dia inteiro.)

– Mário e Carlos, filhos, todos já chegaram para que possamos começar a nossa ceia? Mais um ano sem o meu marido, sem o pai de vocês. (Ahhh Ester, só ele realmente sabia festejar, até demais, todos os vizinhos conheciam os seus indiscretos galanteios, suportados pela boa convivencia. Não soube ser marido de verdade, companheiro, queria ter uma filha, restaram as noras, não que eu não goste delas, meu Deus, tão diferentes, a pacata e a perua.)

– A cunhada caprichou, hein?! Mário tascou um beijo em Vera (é essa timidez e esse jeito suburbano que mexe comigo, todos elogiam a Aline, mas a Vera na sua simplicidade me cativa. Mário, Mário deixa disso, é Natal, não cobiçais a mulher do outro, muito menos a do irmão.)

– Olá Mario, como está a bolsa, quanto você ganhou este ano? (queria tanto que o Mario tivesse um objetivo na vida que não fosse só ganhar dinheiro, que ele realmente amasse alguma coisa, que gostasse de fazer. A vida teria um propósito para ele, seria mais feliz.)

– Maninho não ganhei o suficiente. Ano que vem vou arrebentar. (tenho que fazer o Carlos ganhar um dinheiro, senão daqui há alguns anos vai ficar nas minhas costas. Coisa ridícula escolher carreira por vocação! Tô vendo a hora dele vir me pedir dinheiro emprestado. Aí vou dizer, para isso vocação não serve, deixa eu te ensinar a pescar, em vez de dar o peixe. Sempre olharam para ele na família como “o intelectual” e eu o cara que não terminou a faculdade. Agora me diz, quem tem o dinheiro mesmo?!)

Todos olhavam para as criança, elas aproveitariam a noite, ávidas para começarem a comer e abrirem os presentes.

(Festa chata de adulto que não começa nunca) – os três primos se olhavam e riam um dos outros, esperando que os pais e a avó parassem de falar logo. O pensamento era quase comum entre os três, (canta logo Noite Feliz, vamos comer o Chester da vovó e abrir nossos presentes, isso é o Natal e ponto final.)

No canto da sala o presépio, assistia aquela festa de Natal em família…

À meia-noite todos se abraçaram emocionados, gritando FELIZ NATAL!

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