Ano Novo em Construção

Não é calendário que faz o novo,
nem contagem regressiva na TV.
O novo não chega —
ele é escavado.
Cavado dentro do que você adiou,
do que deixou adormecido,
como semente no bolso do casaco do inverno passado.

Para ganhar um ano ano novo
(que valha o suor, as madrugadas,
os recomeços em terça-feira sem glamour)
você precisa primeiro
se dar permissão de ser novo.

Desmontar as certezas,
tirar a poeira dos “nunca mais”,
repintar as paredes internas
com a cor do risco.

Porque o Ano Novo
não está lá fora, na queima de fogos.
Ele está aqui, no seu sopro,
na sua capacidade de olhar para trás e não virar estátua de sal.

Ele espera, sim.
Mas não cochila —
ele observa.
Aguarda seu movimento mínimo,
seu “hoje vou”,
seu respirar fundo antes do recomeço.

E quando você finalmente
ousar ser o seu próprio eclipse,
alinhando sol e lua dentro de si,
o ano vai começar de verdade.

E pode ser em qualquer momento!

Inspirado no poema de Drummond Receita de Ano Novo

Inusitado

Imagem feita por IA

Mais uma vez em São Paulo, agora para o lançamento do livro que coordeno junto com a Angela Passadori.

Marco almoço com uma amiga e, atravessando a cidade, da Angélica para Moema, vou observando a paisagem cinza, por vezes colorida pelos grafites.

Toda vez me surpreendo com a quantidade de viadutos desta selva de pedras.

O carro diminuiu a velocidade, pelo trânsito intenso, para embaixo de um dos viadutos e me deparo com o inusitado do momento. Ali, em meio a um barraco plástico e pedaços de ripas, está uma menina bailando, no seu mundo de sonhos,  alheia àquela realidade.

A cena me emociona profundamente,  a situação nua e crua contrasta com a beleza do momento.  Que vontade de tirar uma foto, porém achei invasivo, interferir naquele cenário idílico.

Me despedi, quando o carro finalmente andou, fitando aqueles bracinhos que bailavam no ar, alegremente.