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Sobre adrianafetter

... sempre em crescimento pessoal, tentando ser o melhor de mim!

ANO NOVO NO QUINTAL DO TEMPO

O ano não começa no calendário.
Começa no instante em que você percebe:
o tempo não passou — ele apenas se fez semente e espera, quieto, no bolso do seu agora.

Em janeiro, aqui, o verão chega cheio de seiva, as árvores não se despojam — se vestem de verde transbordante.
Não há folhas caídas sob os pés,
mas sombras largas no chão quente,
mangueiras carregadas de promessas doces,
e o cigarrar insistente como um mantra do calor. Aproveite as copas das árvores para sentir a brisa em sua pele.

Não faça promessas grandiosas.
Faça microcerimônias: acordar e sentir o peso do corpo na cama.
Olhar a primeira luz sem pressa de nomeá-la.
Deixar que o café revele seu aroma
sem a tirania do relógio.

O novo ano não é um portal mágico.
É uma fresta.
Por onde entram cheiros de terra molhada, vozes antigas que ainda ecoam, e a coragem miúda de recomeçar com as mesmas mãos que um dia tremularam no inverno.

Não busque a grande virada.
Busque o quintal interno onde o tempo não é contado em horas, mas em descobertas: uma formiga carregando seu fardo, a sombra que dança conforme o sol se move, o silêncio que habita entre dois pensamentos.

E se sentir saudade do que ficou para trás, lembre-se: não é o ano que muda — somos nós.
E podemos mudar devagar,
como rio que alonga seu curso
sem alarde, apenas insistindo em correr.

Que seu 2026 não seja medido em metas, mas em miudezas vividas com plenitude, com o seu olhar atento as pequenas belezas que o mundo oferece.
Em rasgos de ternura inesperada,
em pausas que saram, em instantes tão cheios de vida que o eterno cabe dentro deles.

Porque o verdadeiro recomeço
não acontece à meia-noite.
Acontece no primeiro olhar que você der ao mundo, como se estivesse vendo pela primeira vez — com assombro, com respeito, com a quieta ousadia de quem sabe: cada dia é um ano em miniatura, e cada respiração, um novo começo.

Sempre grata a emoção de um novo dia!

Ano Novo em Construção

Não é calendário que faz o novo,
nem contagem regressiva na TV.
O novo não chega —
ele é escavado.
Cavado dentro do que você adiou,
do que deixou adormecido,
como semente no bolso do casaco do inverno passado.

Para ganhar um ano ano novo
(que valha o suor, as madrugadas,
os recomeços em terça-feira sem glamour)
você precisa primeiro
se dar permissão de ser novo.

Desmontar as certezas,
tirar a poeira dos “nunca mais”,
repintar as paredes internas
com a cor do risco.

Porque o Ano Novo
não está lá fora, na queima de fogos.
Ele está aqui, no seu sopro,
na sua capacidade de olhar para trás e não virar estátua de sal.

Ele espera, sim.
Mas não cochila —
ele observa.
Aguarda seu movimento mínimo,
seu “hoje vou”,
seu respirar fundo antes do recomeço.

E quando você finalmente
ousar ser o seu próprio eclipse,
alinhando sol e lua dentro de si,
o ano vai começar de verdade.

E pode ser em qualquer momento!

Inspirado no poema de Drummond Receita de Ano Novo

Inusitado

Imagem feita por IA

Mais uma vez em São Paulo, agora para o lançamento do livro que coordeno junto com a Angela Passadori.

Marco almoço com uma amiga e, atravessando a cidade, da Angélica para Moema, vou observando a paisagem cinza, por vezes colorida pelos grafites.

Toda vez me surpreendo com a quantidade de viadutos desta selva de pedras.

O carro diminuiu a velocidade, pelo trânsito intenso, para embaixo de um dos viadutos e me deparo com o inusitado do momento. Ali, em meio a um barraco plástico e pedaços de ripas, está uma menina bailando, no seu mundo de sonhos,  alheia àquela realidade.

A cena me emociona profundamente,  a situação nua e crua contrasta com a beleza do momento.  Que vontade de tirar uma foto, porém achei invasivo, interferir naquele cenário idílico.

Me despedi, quando o carro finalmente andou, fitando aqueles bracinhos que bailavam no ar, alegremente.

Parabéns

Ontem eu me deparei com uma cena inusitada, uma senhora bem idosa com seu cachorrinho no colo, sentada na frente de uma chocolateria, a única mesa ali. Um grande sorriso iluminava o seu rosto.

Uma torta singela sobre a mesa e todos os funcionários da loja em volta dela, alegres e festivos. De repente, começaram a cantar parabéns.

Eu estava ali apenas para tomar um cafezinho. Constrangida entrei na loja para fazer o meu pedido.

Elogiei a postura dos funcionários comemorando com a senhora. Então a atendente me disse ela, é sozinha, vem aqui todos os dias tomar um cafezinho conosco e hoje veio, também, comemorar a seu aniversário.

Aquela era a família dela.

No meu coração dividido entre tristeza e alegria, dediquei uma oração e também comemorei aquela data especial.

Todos ali repartiram a torta. Para ela era um dia feliz.

Que chatice essa história de homem entrar no vagão de mulheres!

Hoje peguei o metrô para voltar pra casa, depois de 2 horas esperando para ser atendida na farmácia de alto custo, normal. Muita gente precisando de remédio.

Eu entrei no vagão para mulheres, tenho direito a lugar por lei, estava meio cheio, então fiquei na minha, em pé.

No meio do trajeto, para minha surpresa, entra um homem, um pouco mais velho que eu. Ainda olhei bem para ver se ele tinha alguma deficiência, se usava algum tipo de colar, não, ele entrou ali porque ele quis.

Perguntei o que ele estava fazendo ali, mostrei a legislação, escrita em letras garrafais na frente dele, sobre o uso exclusivo do primeiro vagão para as mulheres, que não permitia ele estar ali. Se fez de louco, disse que em nenhum lugar é assim, eu falei para ele aqui é (Brasília), e há muitos anos. Ele não saiu…

Ainda teve uma criatura que levantou para ceder o lugar para ele. Aí uma outra mulher ficou indignada e foi abordá-lo também. Detalhe eu passei a viagem inteira em pé, na frente da cedente. Eu as minhas mais de seis décadas e os meus cabelos brancos. Sobre essa prosa de mulher desvalorizar a outra e passar pano para homem, fica para depois.

Quando eu desci fui no maquinista e falei: tem um homem aí dentro do vagão das mulheres, ele falou que ia chamar o segurança.

Segui para minha casa, parei no caminho e tomei um chai latte.

Honrar um amor

Para Luciana

Pelos que não puderam ser

Choro!

Sonhos almejados,

Enterrados.

Não houve vida,

Existiu um parto

E uma partida. Despedida.

Lágrimas escorreram,

Muitas…

Daquilo que poderia ser

E não foi

Ausência doída.

Havia uma roupa amarela

Guardada para o próximo.

Talvez …

Do tudo ao nada.

Por fim só.

O muito sonhado,

Anos a fio…

Vive no coração guardado.

Poesia de AdrianaFetter