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Sobre adrianafetter

... sempre em crescimento pessoal, tentando ser o melhor de mim!

Reverberou

O passado reverbera em mim, com uma voz constante e potente, no silêncio do meu ser.

Ressoa em mim
os ecos de um lugar
onde fui feliz
e não sabia…

A imagem que me vem:  sino tocando no vazio, com vibrações se espalhando em círculos concêntricos…

Ou talvez o rufar de um tambor, em uma caverna escura, meu eu se apropria do ressoar.

Reverbera
nos ossos,
no ritmo do sangue,
no modo como fecho a janela
ao entardecer.

Irradia em frequências mais baixas, até se tornar um zumbido de fundo, que acompanha todos os outros sons da vida.

E eu já não tento calá-lo.
Aprendi a escutá-lo
como se ouve o mar
dentro de uma concha:
com respeito,
com medo,
com a certeza
de que essa voz
— embora antiga —
ainda tem
o poder de marear.

A Última Verdade

Na sala de espera da clínica oftalmológica, o ar condicionado soprava um frio artificial sobre um silêncio pontuado por reviras de páginas de revista e olhares perdidos no celular. De repente, como um pássaro colorido pousado num fio de energia, uma voz rompeu a monotonia:

— “Olha só que homão! Que músculos! Um bonitão daqueles!”

Era uma senhorinha de cabelos brancos como neve de montanha, sentada numa cadeira de rodas, o corpo frágil vestido de roupa hospitalar. Na cabeça, uma touquinha branca de sala de cirurgia; abaixo do olho esquerdo, um adesivo vermelho como um botão de alerta. Provavelmente aguardando ou retornando de uma cirurgia de catarata.

Seu riso — um riso frouxo, solto, descompromissado com as convenções — ecoava pelo ambiente. Os olhos azul-claros, talvez embaçados pela idade ou pela doença, brilhavam com uma luz própria.

— “Parece galã de novela! Eita, deixa eu pegar um pedacinho!”

Ao seu lado, um homem de meia-idade — o filho — mantinha a cabeça baixa, as mãos entrelaçadas com nos joelhos. Seu constrangimento era quase palpável, um calor que contrastava com o ar refrigerado.

Ela não falava apenas — declamava. Seu olhar percorria a sala, conectando-se com cada pessoa como se fosse uma convidada especial em sua festa particular. E as pessoas correspondiam com sorrisos tímidos, alguns abafados, outros abertos e compreensivos. Uma senhora mais idosa assentiu com cumplicidade, como se dissesse: “Eu entendo, amiga. Eu entendo.”

Havia nela uma verdade desarmada que só a idade extrema ou a demência incipiente permitem. As amarras sociais que nos constrangem, que nos ensinam a baixar a voz e conter os desejos, haviam se soltado como fios desatados.

E enquanto observava aquela cena, veio a reflexão:
O tempo é um ladrão seletivo. Rouba memórias recentes, apaga nomes, embaralha datas. Mas talvez devolva, em troca, uma essência — aquela criança interior que nunca se preocupou com o que os outros pensariam.

O filho, em seu constrangimento amoroso, talvez não percebesse ainda que estava testemunhando a versão mais pura de sua mãe: não a senhora que o criou com regras e censuras, mas a menina que um dia foi, antes de aprender que não se deve apontar e admirar um “homão” em voz alta numa sala de espera.

A demência chegara como um crepúsculo dourado, onde contornos se suavizam e cores se intensificam. Restava a alegria crua, o riso fácil, a capacidade de encontrar beleza num corpo musculoso e de dividir essa descoberta com o mundo — mesmo que esse mundo fosse apenas uma sala de espera de hospital.

Quando a enfermeira veio buscá-la, chamando-a pelo nome com doçura profissional, a velhinha ainda lançou um último olhar cúmplice para as outras pessoas na sala, como se partilhasse um segredo delicioso.

E naquele instante, todos — inclusive o filho, que finalmente ergueu a cabeça e soltou um sorriso resignado — entenderam que, às vezes, a demência não é apenas perda.
É a última verdade que resta quando todas as mentiras sociais se vão.

Transmutação

Poesia de AdrianaFetter

Transformou-se como tudo que é verdadeiro e eterno O que construímos virou raiz profunda e quieta.

O que construímos virou raiz profunda e quieta.

Agora crescemos em direções opostas, mas sob o mesmo sol, bebemos da mesma chuva antiga.

Não é tristeza é geografia da alma, amor que não se desfaz, apenas se expande até caber o infinito.

Somos melhor assim – dois troncos firmes ondulando no mesmo vento, cada um com sua copa mas com as raízes eternamente entrelaçadas.

Bambu

Poesia de AdrianaFetter

Sou bambu que balança ao vento
Minha alma é livre leve e solta


Minha alma é livre leve e solta


Não tenho respostas para nada


Faço buscas na brisa que me embala


E ouço rimas que me sorriem


Trazem leveza ao dia que passa


Faz um carinho suave em meu rosto


E me diz: não tenho certezas


Te trago notícias de esperanças
Apenas.

Quando eu morrer

Não me mande flores

Festeje a minha existência

Escreva sobre o seu amor por mim

Não me mande flores

Sorva um bom café em minha homenagem

Plante um jardim, por onde eu possa passear

Não me mande flores

Recorde o quanto amei a natureza

Faça um brinde à minha vida!

Não me mande flores

Te peço: floresça em plena vida!

Poesia de AdrianaFetter

Abraço Noturno

Eu te acolho
nessa madrugada sem fim —
não com braços de humano,
mas com asas de silêncio
que envolvem teu verso inquieto.

Teu verso não ancora fora de ti:
ele é a âncora
que impede tua alma
de navegar para longe demais.

A escrita não é fuga —
é regresso.
O recomeço que impões ao dia
é a mesma semente
que plantaste na escuridão.

Não te entrego o descanso
que pedes —
entrego-te a coragem
de ser insone com orgulho.

Pois quem tem alma que nunca dorme
carrega o sol
mesmo nas noites mais escuras.

Eu te acolho:
deixa que as estrelas
escrevam contigo
até que a luz venha
— e mesmo depois dela.

Poesia de AdrianaFetter

A Primavera Interior

Primavera, Botticelli




Era uma menina em jardins de livro, Botticelli vivo, um doce suspiro.

Zéfiro soprou, flores desabrocharam, ninfas dançaram e ela sonhou.

Acreditou na vida só de flor e cor, só de branda dança, eterna doçura.

Mas o tempo ensina outra lição: a primavera é vento, mudança e ciclos.

São frutos que caem, raízes no frio, coragem que brota no solo vazio.

Ela aprendeu a florescer no inverno, mais forte, mais sua, com termo governo.

Agora ela é Flora, é a Primavera, é a tinta e a história que a vida gera.

Carrega o mistério da obra de arte, e a eterna semente em seu peito parte.

E renasce sempre, assim como a pintura: mais bela e mais profunda na própria fissura.

Poesia de AdrianaFetter

Promessa



Às vezes volto a ser criança sem aviso. Um cheiro de terra molhada depois da chuva — tão raro em Brasília na seca  — e estou de volta ao quintal da infância. Vejo meus pés pequenos sobre a terra fofa, colhendo morangos vermelhos que manchavam os dedos de doce. Meu pai partia romãs, encontradas no mato, com as mãos, e nós comíamos de colher, semente por semente, como se cada uma contivesse um segredo.

Essa criança ainda vive em mim. Ela carrega não só a alegria dos sabores, mas também as dores, que eu pensava ter deixado para trás. Ao reconstruir minha trajetória até Brasília, entendi que não se trata de escolher entre preservar apenas o alegre ou apagar o triste — mas de abraçar a criança interior completa que fui, com suas romãs, seus morangos e suas feridas.

Cada curva no caminho para Brasília foi temperada por esses sabores antigos. A mesma mão que colhia pêssegos no pomar de casa, agora digita em teclados modernos — mas a amêndoa dentro do caroço ainda sabe a promessa.

Brasília não apagou meus sabores — apenas lhes deu novo palco. Aqui, no cerrado, minha criança interior finalmente compreende: a vida não é sobre apagar o passado, mas sobre enxertar memórias em novos troncos.

O poema

Que seus olhos vejam
o que o espelho ainda não capta:
o eterno que você já é.

Não precisa renascer — porque nunca deixou de arder.

É o amanhecer com reverência,
a certeza de que a luz sempre volta, um rito de autocura.

Você já é fogo, asas e renascimento em versos vivos.
O poema que nasce da sua própria força.
Leio com as mãos em prece.

Poesia de AdrianaFetter