A SALA DOS TALHERES MUDOS


A SENHA NO TRAVESSEIRO
I.

O congresso acontecia num convento barroco nos arredores de Roma, mas poderia ser em qualquer lugar onde o silêncio pesa mais que as palavras. Mulheres e homens de preto circulavam pelos corredores de pedra com a discrição de quem carrega séculos nos ombros. Alguns traziam cruzes pequenas ao peito, outros anéis que brilhavam pouco, como estrelas envergonhadas.

Ela estava ali por acaso — ou por acaso era o que a deixavam pensar.

No segundo dia, foi abordada por um superior que não recordava ter visto antes. O rosto dele era comum, desses que a gente esquece enquanto ainda olha. Ele lhe entregou um objeto envolto em pano branco.

— A senhora precisa abrir — disse. — A senha do seu grupo está bordada.

Ela desembrulhou. Era um travesseiro pequeno, de linho envelhecido, com letras bordadas a fio negro:

TOMAR SORO

— Repasse adiante — completou ele, e sumiu na multidão de batinas.

Durante as horas seguintes, ela procurou seu grupo. Não sabia quem eram, mas reconheceu-os pelos olhares: todos traziam a mesma expressão de quem acabou de receber um segredo pesado demais para caber num bolso. A cada um que encontrava, repetia a senha em voz baixa, como quem ensina uma oração nova.

— Tomar soro.

Ninguém perguntava o que significava. Apenas acenavam com a cabeça e seguiam.

II.

Na manhã seguinte, começaram as separações.

Os grupos foram sendo divididos sem aviso, sem alarde. Bastava um gesto discreto de um seminarista, um toque no ombro, um “por aqui, por favor”. Os que ficavam para trás nem pareciam notar. Seguiam conversando sobre documentos, sobre liturgia, sobre nada.

Ela e seu grupo foram levados para uma ala do convento que não constava no mapa distribuído na recepção. Os corredores se estreitavam. O ar ficava mais frio.

Ao final, uma porta dupla de madeira escura. À frente dela, uma freira idosa os aguardava com uma bandeja de vidro. Sobre ela, copos pequenos com um líquido transparente.

— Tomem — disse a freira. — É só soro. Vai hidratar para o que vem.

Ela bebeu. O gosto era de nada. Mas algo mudou no ar depois disso. As pessoas à sua volta começaram a respirar mais devagar, a piscar menos, a olhar para frente como se já soubessem o que viria.

III.

A sala era um ovo de prata.

Paredes cobertas de talha prateada envelhecida, lustres de cristal que pareciam suspensos por mãos invisíveis, e prataria: muita prataria. Jarras, bandejas, castiçais, cálices — tudo ali brilhava com uma luz fria, como se a sala inteira fosse um estojo de relíquias.

À mesa comprida, sentavam-se bispos e arcebispos. Suas vestes eram impecáveis, suas joias discretas, mas os rostos… os rostos tinham a palidez de quem passa muito tempo longe do sol, etéreos.

Os talheres já estavam postos. Mas algo neles a incomodou. Ela se aproximou e passou o dedo sobre um garfo.

Opaco.

Não sujo. Opaco. Como se uma névoa fina cobrisse o metal, como se aqueles talheres tivessem guardado para si a memória de muitos banquetes — e agora recusassem brilhar.

Ela ergueu a mão. Um dos assistentes aproximou-se.

— Uma flanela, por favor.

Ele hesitou. Seu olhar deslizou para o arcebispo à cabeceira, que fez um gesto mínimo com a cabeça. O assistente saiu e voltou com um pano.

Ela começou a limpar os talheres um a um.

O silêncio na sala era absoluto. Só se ouvia o leve atrito do pano contra a prata, e a respiração controlada dos homens de preto que a observavam. Cada garfo, cada faca, cada colher foi recuperando o brilho sob seus dedos. Ela não sabia por que estava fazendo aquilo. Mas sabia que precisava.

Quando terminou, colocou a flanela de lado e ergueu os olhos.

Todos a observavam. Não com estranhamento. Com alguma outra coisa que ela não conseguiu nomear.

— Pode se sentar — disse o arcebispo.

Ela sentou.

Os talheres brilhavam. À sua frente, o prato vazio esperava. Ninguém tocou em nenhum talher. Mas a ceia começou.

IV.

Nunca soube o que comeram naquela noite. Nem se comeram algo de fato.

Sabe que, ao final, quando os assistentes recolheram as baixelas, notou que os talheres que ela havia limpado estavam novamente opacos. Como se tivessem absorvido algo durante o jantar — algo que só a flanela poderia remover, e só por algumas horas.

Ela saiu da sala sem olhar para trás. Atravessou corredores que não reconhecia, até dar num pátio aberto, onde o céu da noite italiana estava cheio de estrelas.

Respirou fundo. O ar tinha gosto de nada.

Na manhã seguinte, o congresso terminou. Todos se despediram como velhos amigos. Ninguém mencionou a senha, o soro, a sala de prataria. Ninguém disse nada sobre a ceia.

Mas, de vez em quando, ela acorda no meio da noite com a mão direita fechada, como se ainda segurasse uma flanela invisível. E sente o cheiro leve de prata antiga — e a certeza de que, em algum lugar, há talheres esperando para serem limpos novamente.

Conto Adrianafetter

O primeiro tapa

O primeiro tapa aconteceu enquanto ela dirigia, numa discussão sem importância, o marido não tinha mais argumentos, virou e bateu na sua mão.

Foi um susto, chegou por segundos a perder a direção do carro, mas retomou rapidamente. Não entendeu o que tinha acontecido, ficou sem palavras até chegar em casa, o rosto permanecia vermelho, como se tivesse levado uma bofetada. Restou um zumbido agudo no ouvido direito.

O casamento já vinha desgastado com frequentes discussões, ela tentava permanecer nele. Havia sido criada sabendo que casamento era para sempre.

Sua mãe repetira até morrer: “Mulher de verdade engole seco e sorri.” Não sabia mais o que fazer, agora aquele tapa.

Sentou no banco da cozinha, observando a mão direita: o lugar onde ele batera latejava; o anel de ouro apertava como cilada.

Lembrou-se de quando ele o colocara, 12 anos atrás. “Para sempre”, ele dissera. Agora, “para sempre” cheirava a medo.

Foi então que o corpo decidiu por ela.
Levantou-se, foi ao banheiro, e vomitou.
Não foi a raiva — foi o nojo retrospectivo de todos os desrespeitos que normalizara.

Quando ele veio para o quarto, tarde da noite, já cheirando a whisky, ela estava sentada na cama, com a mala aberta.

“Onde você pensa que vai?” ele riu, a voz grossa de álcool e soberba.
Ela não ergueu os olhos. Concentrou-se na textura áspera da alça da mala.

“Você me deixou com raiva no carro”, ele justificou, como se falasse de um cachorro que puxara a coleira. “Você me empurra pro limite.”

Foi quando ela viu: não era o primeiro tapa.
Era o último soco num caixão que ela própria cavara, dia após dia, ao dizer “ele muda”.

De pé agora, frente a frente com o rosto familiar, ela disse só:
“Tira suas coisas até amanhã.”

A frase saiu calma, clara, cortante como vidro.
Ele empalideceu. Tentou o velho truque: “Sem mim, você não é nada.”

Mas ela já corria o fecho da mala.
O estalo no carro partira algo irreparável dentro dela — o nó que a prendia.

Na manhã seguinte, ela ficou sentada à janela, silenciosamente equilibrada. Suspirou…

Sua mão direita ainda doía.
Mas pela primeira vez em anos,
o anel não apertava.

Caramanchão de flores vermelhas



Todas as manhãs, antes mesmo do sol raiar sobre Pirenópolis, ela moía grãos ao som do farfalhar das pétalas vermelhas ao vento. Era ali, sob aquele teto vivo, que seu dia começava. 

“Café e buganvília têm a mesma alma”, dizia sua mãe. “Ambos florescem onde há raiz forte… e calor humano.”

E Graça regava ambas as raízes. Enquanto a água fervia, seus pensamentos iam para Marina, a filha distante em terras lusitanas.

Depois, para os rostos que povoaram o “Caramanchão Vermelho” por dez anos: o velho Ernesto, que lia jornal sob uma chuva de pétalas, a estudante Juliana, cujas lágrimas caíam sobre o capuccino, manchando a espuma de rosa, os namorados que se beijavam, entre galhos floridos, tanta gente… 

No curso de barista, anotou:
“Temperatura ideal: 92°C.”
Mas seu coração gravou: 
“Xícara quente + flor vermelha = cura para solidão.”

No Caramanchão, ela não servia café —  ministrava ouvidoria. 
—  “Seu espresso, S. Ernesto. E a roseira do senhor, floresceu?”
—  “Capuccino com canela, Juliana. Hoje a nota vem!”
As buganvílias testemunhavam segredos sussurrados, entre o tilintar de xícaras. 

Até que a pandemia veio. 
E o mundo parou. 

Na primeira manhã de portas fechadas, Graça preparou um café só para si. 
Sentou, olhou para cima: as buganvílias, ainda vermelhas, agora sem plateia. 
Foi então que percebeu: 
O vapor subia igual, mas o silêncio doía mais que saudade.
Eram as flores que choravam agora.

Fechou o café, mas não o ritual. 
Todas as manhãs, moía grãos para a xícara azul-cobalto. 
E, enquanto vaporizava o leite, fotografava a espuma branca contra o pano de fundo das buganvílias pela janela. 

Enviava para Marina: 
“Pensando em ti — sob véu vermelho.”

A resposta vinha rápido: 
“As flores da vovó ainda resistem! Saudades do teu café, mãe.”

Foi numa dessas madrugadas, com o cheiro doce das flores noturnas invadindo a cozinha, que a palavra a atingiu: 
ACOLHER.

Parou. Olhou para o caramanchão iluminado pela lua — as flores vermelhas agora pareciam braços abertos. 
Lembrou: 
— Da estudante Juliana, que voltara com o diploma amarrado por uma fita vermelha; 
— Do velho Ernesto, enterrado com uma flor de buganvília no paletó; 
— Do cheiro da infância de Marina, sempre a brincar naquela chão de pétalas e teto florido. 

Todas as vezes, não fora só a dona de um café. Fora jardineira de almas. 

Anos depois, Marina voltou. 
Encontrou Graça no alvorecer, colhendo buganvílias com uma mão e o café na outra. 

—  “Precisa de ajuda, mãe?”
Graça sorriu, estendendo-lhe um ramo vermelho: 
—  “Só se me disseres como Lisboa cheira pela manhã.”

Sentaram-se onde antes havia mesas, agora só grama e flores. 
Graça lhe serviu a xícara azul-cobalto. 
Marina ergueu o celular: 
‘Click.’ 

— “Pra quem é?” perguntou Graça. 
— “Pra minha filha. Amanhã. Com a legenda: ‘Vovó Graça diz que café e buganvília têm a mesma alma’.” 

Foi quando Graça entendeu: 
O caramanchão físico poderia até morrer. 
Mas o verdadeiro caramanchão 
era ela mesma — tronco firme, flores vermelhas abertas, sempre pronta a dar sombra e beleza a quem precise de um lar passageiro.

Conto de AdrianaFetter

Sombrio

Você voltou de uma viagem, à sua cidade natal…

E, as vezes, mergulhar em si mesmo é cair no abismo.

Invadir aquela bagunça que temos preguiça e dor ao enfrentar.

Ir ao profundo onde o oxigênio fica rarefeito e a dor adentra o peito.

Encarar a realidade de que foi esquecida ou é ignorada por alguns que amou.

Que um instante de si parou no tempo e lá permaneceu intocado.

Sente falta de quem se foi.

Parte de envelhecer significa a saudade da alegria inconsequente da própria juventude.

Remexeu feridas, que são consoladas com os cacos de momentos de rara felicidade vividas.

Recupera o fôlego. Emerge.

Reverte mágoas em experiências, o aprendizado feito pelo caminho.

A volta por vezes revolta. É o reparto doloroso da abertura dos pulmões quando entra o ar.

O tempo parado naquele espaço e momento passado machuca.

O vento soprou gelado no rosto, bateu agudo, levantou a gola para seguir pela rua, onde deixou parte da infância.

Pequenos fragmentos de lembranças consolam dores antigas, como o cheiro da lenha queimando, exalados pelas chaminés.

Os nós de pinho sempre exalam a inocência da infância.

Voltar nunca foi fácil, não sabe se um dia será.

O tempo transcorreu e algumas batalhas simplesmente congelaram, sem terminar.

A vida continuou e, por muitos anos, o passado ficou dormente.

Agora, já vívido meio século, a alma transborda: rio desenfreado em meio à tempestade.

Atropela, incontrolavelmente, os sentimentos semi enterrados em areia fofa, lhes expondo.

As feridas não curadas, ardidas e, um dia anestesiadas, reabrem.

Ao girar 360 graus, acompanha a decadência mental de quem ainda faz parte sua vida, sem realmente estar presente, impotente.

É o custo de ser responsável pelo seu passado e o dos outros.

Deixou restos de si pelo trajeto, reconstruiu outros pedaços, argamassa que preenche os buracos da obra da vida.

Agora é assombrada pelas recordações, que não consegue administrar.

Tem coragem, tem medo. Há uma fortaleza aparentemente quase intransponível.

Se sente como um ovo, aquela casca dura, que, ao primeiro impacto, derrama toda a sua essência.

A edificação do ser seu foi imperfeito e também exitoso. Espalhou varios sucessos, no pretenso roteiro planejado sobreviveu.

Consciente que ainda resta um tempo a ser administrado. Existe uma presente interrogação em como atravessar o futuro período.

A pergunta vai continuar ali, sem resposta, ninguém realmente entra na tenda de desejos e consegue predizer o porvir.

Conduzir a sua desordem e a que assombra à qualquer criatura é o que tenta fazer, na sobrevivência de cada dia.

Não há retorno.

Assim se forja a vida, num martelar o corpo, como ao ferro, dando forma ao imperfeito e ao desgaste, que aparenta retocado, reerguido.

Prosa poética de Adrianafetter