O que eu era antes de você

Eu tinha dezesseis anos quando você nasceu. Dezesseis anos de mundo — e uma vida inteira de coisas que eu já sabia. Porque eu já tinha chorado muito antes de você chegar. Já tinha aprendido o que não se ensina na escola. Já carregava dentro de mim uma maturidade que ninguém me deu de presente — que a vida me impôs.

Mas eu ainda era menina. Uma menina que não teve muitos brinquedos, mas tinha brincadeiras. Coisas que eu inventei, coisas que eu descobri, coisas que me faziam rir. E foi isso que eu dividi com você, sem saber que estava dividindo. Não os brinquedos que eu não tive — mas as brincadeiras que eu gostava e me fizeram sobreviver à infância.

Você nasceu e eu já era outra, mas ainda era aquela. E você conheceu essa menina que eu fui. Conheceu de perto. Conheceu por dentro.

Você viu o que eu fazia para me divertir. Viu do que eu gostava antes de saber que gostava. Viu o que me fazia rir quando a vida já tinha me ensinado a chorar. E, de tanto ver, de tanto estar, você se tornou uma das pessoas que mais me conhecem nessa vida.

Não porque eu te contei. Não porque eu te expliquei. Mas porque você estava lá. Antes da memória, antes da narrativa, antes de tudo o que a gente inventa para se entender. Você me viu quando eu ainda não sabia que estava sendo vista.

Poucas pessoas têm esse privilégio. Poucas pessoas conhecem alguém antes que esse alguém se torne quem é. Você me conhece não pela história que eu conto, mas pela menina que eu fui — e que, de algum jeito, ainda sou.

Porque metade de mim ainda tem dezesseis anos. E essa metade mora em você.

Te amo filha!