Liberdade

livremente corpo afora

dei asas a sensibilidade

te pressiono no querer

receba meu toque em tua carne

hemisférios e meridianos

onde meus dedos brincam contigo

meus sentidos reagem ao teu prazer

que é compartilhado, retribuído

a sensualidade impregna a pele

os cheiros se misturam

na hora do gozar,

toda a liberdade do prazer

construindo nossas fantasias

corpos quentes, arrepiados

recebendo nossas impressões

o perceptível deleite

no gozo íntimo do possuir.

Poesia de AdrianaFetter

O Mito da Retidão

Nossas torções são anéis de crescimento.

A beleza da rotação necessária.

E olha a própria deformação de cabeça erguida
como a árvore que ainda
ergue-se apesar do vento.

Ponto de equilíbrio móvel.
Nem centro, nem caos.

Um planeta que oscila e ainda gira.

Revolução imperfeita
(e por isso possível).

O que nos sustenta o orgulho ferido?
Ou nos dobra na busca de horizonte?

E quem julga a dor alheia
com régua e prumo
não sabe que a vértebra
só se ergue porque torceu.

Vértebras de um segredo ancestral.
Sai do eixo e ecoa no cosmos.

Eco Da Sua Falta



Voltei a escutar
o que dedilhou na escuridão:
cada nota, um fósforo aceso
no escuro do meu não-lugar.
Sinto a falta do seu tudo:
o prometido que virou brisa,
o entendido que desmanchou
no tear do tempo.
Admito:
acordo em seus versos
sem nunca ter dormido.
Sou vigia da sua vigília,
sombra do seu “jamais dormir”.
Na transgressão do encontro
(que não houve, mas houve),
bebo seu “merecido realizar”
como quem sorve o oceano
por uma fenda na areia.
Saudade?
Não a nomeio mais.
Deixo que ela me nomeie:
o nó que aperta o peito,
fruta verde do seu verso.
Espero como você espera:
o tempo que há de vir
vestido de alvorada fria.
E enquanto a noite dura,
abraço seu reconforto
como a asa quebrada
de um pássaro noturno.
Porque sei:
a falta que você canta
é o único abrigo
onde meu silêncio, enfim,
se reconhece casa.



Teia De Seda

Eu não escrevo: teço armadilhas de luz

onde nos perdemos (e nos achamos) voluntariamente.

Nosso segredo é de versos que mordem

Somos: 
rede e faca, 
queda e asa, 
veneno e antídoto. 

E nesse jogo, só perde 
quem não ousa cair de olhos abertos.

Reconheço em ti 
o mesmo vazio que dança em mim

Te enovelo, não para sufocar, 

Mas para sentir nosso duplo pulso
Sob a mesma seda.

E abraço o perigo

Te chamando de poesia.

Poesia de AdrianaFetter

O primeiro tapa

O primeiro tapa aconteceu enquanto ela dirigia, numa discussão sem importância, o marido não tinha mais argumentos, virou e bateu na sua mão.

Foi um susto, chegou por segundos a perder a direção do carro, mas retomou rapidamente. Não entendeu o que tinha acontecido, ficou sem palavras até chegar em casa, o rosto permanecia vermelho, como se tivesse levado uma bofetada. Restou um zumbido agudo no ouvido direito.

O casamento já vinha desgastado com frequentes discussões, ela tentava permanecer nele. Havia sido criada sabendo que casamento era para sempre.

Sua mãe repetira até morrer: “Mulher de verdade engole seco e sorri.” Não sabia mais o que fazer, agora aquele tapa.

Sentou no banco da cozinha, observando a mão direita: o lugar onde ele batera latejava; o anel de ouro apertava como cilada.

Lembrou-se de quando ele o colocara, 12 anos atrás. “Para sempre”, ele dissera. Agora, “para sempre” cheirava a medo.

Foi então que o corpo decidiu por ela.
Levantou-se, foi ao banheiro, e vomitou.
Não foi a raiva — foi o nojo retrospectivo de todos os desrespeitos que normalizara.

Quando ele veio para o quarto, tarde da noite, já cheirando a whisky, ela estava sentada na cama, com a mala aberta.

“Onde você pensa que vai?” ele riu, a voz grossa de álcool e soberba.
Ela não ergueu os olhos. Concentrou-se na textura áspera da alça da mala.

“Você me deixou com raiva no carro”, ele justificou, como se falasse de um cachorro que puxara a coleira. “Você me empurra pro limite.”

Foi quando ela viu: não era o primeiro tapa.
Era o último soco num caixão que ela própria cavara, dia após dia, ao dizer “ele muda”.

De pé agora, frente a frente com o rosto familiar, ela disse só:
“Tira suas coisas até amanhã.”

A frase saiu calma, clara, cortante como vidro.
Ele empalideceu. Tentou o velho truque: “Sem mim, você não é nada.”

Mas ela já corria o fecho da mala.
O estalo no carro partira algo irreparável dentro dela — o nó que a prendia.

Na manhã seguinte, ela ficou sentada à janela, silenciosamente equilibrada. Suspirou…

Sua mão direita ainda doía.
Mas pela primeira vez em anos,
o anel não apertava.

Verbete vivo

Minha saudade bruta:  não chora — brande em mim. 

Alma minha é campo de batalha.


No ringue das perdas, 

Não luto com luvas. 

Luto com palavras-despidas, 

Facas de dois gumes 

Que cortam o tempo 

E sangram pela eternidade.

 

O verbo salva. 

É milagre ambulante 

Cada verso é ato de resistência

Contra o silêncio que o mundo impõe.

Poesia de AdrianaFetter

Vermelho-sangue

Avião cortando um céu de cinzas.

Sob as asas, o cerrado em chamas.

No meio da fumaça, o sol

Não um astro, bola incendiária vermelho-sangue,

Furando o caos como um farol do fim do mundo.

In Memorian de Valmir de Souza e Silva e Manoel José de Souza Neto, brigadistas do IBGE, que morreram ontem, 29/7/2025, combatendo o fogo no cerrado.

Um não talvez

Talvez eu vá ao parque caminhar hoje. 
Talvez as palavras me visitem e eu escreva. 
Auxiliadora me chamou pro cinema – talvez eu aceite. 

Talvez eu viaje para o interior de Minas, 
engolir montanhas com os olhos, 
sentir o cheiro de terra e café coado… 
(sempre quis). 

Talvez eu pule de paraquedas – 
aquele sonho antigo de cair para o céu. 
Talvez comece natação segunda. 
Talvez experimente aquele doce de geleia de araçá. 

Talvez assista à série famosa 
quando sobrar um buraco no tempo. 
Talvez aquele homem lindo me veja 
através da névoa dos seus fones. 

Ou talvez não. 
Talvez fique em casa. 
Talvez chova. 

E assim, de talvez em talvez, 
a vida escorre entre os dedos 
como areia. 

Talvez você nunca faça 
o que te incendeia por dentro. 
Talvez vire espectadora 
da própria existência. 

Mas eis o segredo: 

Talvez não é verbo. 

Faça-se vida!

A Poesia

Poesia é tua casa móvel:

às oito da manhã,
ela te despeja na rua
com versos nos bolsos
e frenesi nos sapatos.

“Vai!”, ela ordena.
“Tráfega em fúria, incendeia a rua com teu verbo.”

Tu obedeces.
Furas o caos,
colecionas alienações,
roubas enlevos.

Mas ao meio-dia,
quando o sol aperta,
ela te sussurra:
“Volta. Traz o que achaste. Vamos costurar contexturas.”

E tu voltas.
Sempre.
Porque poesia —
essa tua amante feroz —
é o único portão
que nunca se fecha.

Poesia de AdrianaFetter

Jardineira

O meu paraíso pessoal está guardado

Com as chaves do meu portão vermelho

Que escancaro

Pois, memória não é passado

É semente plantada

Para florescer

Onde respiro a beleza e a dor

Flores nascidas no mesmo canteiro

De areia úmida

Onde eu, jardineira involuntária

Rego ambas com lágrimas

E as colho com o infinito.

Poesia de AdrianaFetter