Chocolate quente

Ela sentou no balcão, pediu um chocolate quente, sabia que viria com um merengue açucarado. Tentava segurar as lágrimas.

Iria sorver as colheradas, adoçar a alma, já que a tristeza que invadia o seu peito doía como ferro queimando.

As atendentes conversavam e riam, ignorando aqueles sentimentos. Quando a caneca chegou, a moça percebeu que as lágrimas escorrendo, sem cerimônia, se afastou, chegou perto da colega e deu uma cotovelada, apontando com a cabeça.

Se instalou o silêncio!

Saberia depois que faltava apenas uma hora para a morte, mas pressentia.

Estava deixando para trás o último abraço que dera no irmão, não voltaria a vê-lo vivo.

O corredor do hospital trazia para cafeteria os barulhos metálicos das macas e cadeiras de rodas, das portas que batiam. Havia o forte cheiro do álcool misturado ao desinfetante. Era melhor ouvir as pessoas da cafeteria.

O chocolate ajudava pouco, haviam gritos internos, que teimavam em sair expressados pela água que escorria pelo rosto.

Quem vende doce nos hospitais deve entender de dores.

Há um quê de curiosidade na relação do açúcar com a tristeza. Por instinto pedira um chocolate quente, segunda vez que tentava aplacar uma dor de morte, aprendera isso no velório do pai, alguém havia colocado uma bala na sua boca.

No prédio do hospital, antigo e velho, transitava há dias. A lanchonete, escura e sombria, cumpria a função de alimentar as suas mazelas.

Eram dias tristes, dias de despedida de um amor fraterno.

Nunca mais o chocolate quente teria aquele sabor agridoce. Provavelmente, seria o último.