Minha tia

A minha família reúne mulheres fortes, impressionante como somos fortes.

Me incluo nesse grupo porque, são minhas referências, exemplos que segui, juntando pedacinhos admiráveis de cada predecessora. Cada uma com um estilo único.

Nem sempre somos agradáveis aos olhos dos outros, alguns nos chamam de arrogantes. Aqueles que, provavelmente, confundem impetuosidade, coragem e objetividade, com arrogância.

Não lembro de nenhuma de nós pararmos em meio à adversidade. Podíamos fazer um intervalo na caminhada, apenas para analisar o modo como iríamos superar aquele momento e seguirmos em frente.

Nessa trajetória, tive uma pessoa com quem me identifiquei em muitos momentos da minha vida, um modelo a seguir e, tenho certeza, que ela viu em mim uma miniatura sua, em várias situações.

É uma mulher linda, que, nonagenária, ainda guarda essa beleza. De convicções fortes e sorriso largo.

Foi meu exemplo de simpatia constante, de dedicação profissional, de vida universitária, de perseverança e apoio incondicional.

Nem consigo contar os tantos momentos em que a procurei, fosse pra corrigir um trabalho, ou para conversar, ou apenas procurar um abraço.

Sentávamos a mesa pra tomar um café e muitas vezes comer uma torta de chocolate, que ela sempre amou. Nossa convivência era diária, até os meus 25 anos. Sua casa sempre fez parte da minha vida.

Em muitas ocasiões da vida fui abraçada, de perto e de longe.

Dela vinha a solução nos impasses de família com minha mãe. Mesmo sendo a irmã mais nova, era quem minha mãe ouvia.

Nunca falamos sobre a minha liberação para cursar mestrado em Brasília, mas eu soube da sua discreta intervenção, para que eu fosse liberada, depois de muitas idas e vindas burocráticas. Ela sabia o quanto era importante para mim e eu sempre guardei imensa gratidão.

Muitas vezes também fomos as bicudas que não se beijaram, de temperamento e opiniões fortes, tão grandes quanto o respeito mútuo.

Assisto impotente e de longe as dores que a idade tem-lhe impingido.

Minha mãe e ela não moram mais juntas, as necessidades e cuidados constantes que minha mãe precisa me fez optar por uma casa geriátrica. Chorei dias e dias por essa decisão. Não queria separar as duas, que nunca vi discutir, amigas inabaláveis.

Saber da fragilidade dela me dói, assim como me doeu constatar a da minha mãe.

Hoje, do hospital, ela enviou um recado para a minha mãe, que agora vive num mundo próprio, da sua infância, esperando as cucas de natal da minha avó assarem: seja feliz. Chorei…

Amantes

Quantos beijos trocados, quantas pernas cruzadas, quantos cabelos despenteados, quanto suores misturados.

Aquela paixão o estava consumindo.

Ela era uma mulher incrível, com quem dividia os melhores momentos da sua vida.

Um tornado de emoções tomava-lhe conta e, como toda paixão, o enlouquecia. 

Sonhava com os encontros ardentes na Garçoniére.

A sua amante lasciva, quase uma devassa, tinha variedades de prazer que sequer poderia um dia imaginar experimentar.

Nunca pensou que ela fosse corresponder a paixão que lhe tomou conta, na primeira troca de sorrisos.

Quantas vezes, no meio da noite, teve que levantar para tomar um banho. Relatava à esposa os pesadelos que molhavam o seu pijama.

Era o que lhe ocorria como desculpa para disfarçar o verdadeiro motivo de lavar os pijamas, embaixo do chuveiro, removendo a marca do pecado.

Não eram mais jovens, não podiam se deixar levar. Tinham famílias e ele reconhecia ao seu lado uma esposa amorosa.

Vivia intensamente o seu amor proibido, muito clichê.

Ela preenchia sua vida arrebatando-lhe a alma.

Um dia, liberou suas amarras sociais e, no meio dos colegas, a pegou pelos braços e a beijou.

Ela perplexa, congelada, perguntou o que estava acontecendo. Ele não entendia a situação.

Por que ela o estava olhando com aqueles olhos de espanto?! Onde estava a paixão que fascinava aos dois?! Sabia que havia exagerado, mas não se conteve. 

Por segundos, ele viveu uma realidade inexistente, extravasou uma paixão contida, seus pensamentos o traíram.

Ela era apenas uma colega dos sonhos, com quem jamais havia deitado. Tentou, constrangido, disfarçar o indisfarçável.

Que ardil mental o acossou, imaginara uma paixão erótica, que sequer fora correspondida ou acontecera.

Então, ensandecido, correu até a sua pasta, pegou o revólver e a matou.

Jamais pecaria novamente.

Conto de Adrianafetter