Amantes

Quantos beijos trocados, quantas pernas cruzadas, quantos cabelos despenteados, quanto suores misturados.

Aquela paixão o estava consumindo.

Ela era uma mulher incrível, com quem dividia os melhores momentos da sua vida.

Um tornado de emoções tomava-lhe conta e, como toda paixão, o enlouquecia. 

Sonhava com os encontros ardentes na Garçoniére.

A sua amante lasciva, quase uma devassa, tinha variedades de prazer que sequer poderia um dia imaginar experimentar.

Nunca pensou que ela fosse corresponder a paixão que lhe tomou conta, na primeira troca de sorrisos.

Quantas vezes, no meio da noite, teve que levantar para tomar um banho. Relatava à esposa os pesadelos que molhavam o seu pijama.

Era o que lhe ocorria como desculpa para disfarçar o verdadeiro motivo de lavar os pijamas, embaixo do chuveiro, removendo a marca do pecado.

Não eram mais jovens, não podiam se deixar levar. Tinham famílias e ele reconhecia ao seu lado uma esposa amorosa.

Vivia intensamente o seu amor proibido, muito clichê.

Ela preenchia sua vida arrebatando-lhe a alma.

Um dia, liberou suas amarras sociais e, no meio dos colegas, a pegou pelos braços e a beijou.

Ela perplexa, congelada, perguntou o que estava acontecendo. Ele não entendia a situação.

Por que ela o estava olhando com aqueles olhos de espanto?! Onde estava a paixão que fascinava aos dois?! Sabia que havia exagerado, mas não se conteve. 

Por segundos, ele viveu uma realidade inexistente, extravasou uma paixão contida, seus pensamentos o traíram.

Ela era apenas uma colega dos sonhos, com quem jamais havia deitado. Tentou, constrangido, disfarçar o indisfarçável.

Que ardil mental o acossou, imaginara uma paixão erótica, que sequer fora correspondida ou acontecera.

Então, ensandecido, correu até a sua pasta, pegou o revólver e a matou.

Jamais pecaria novamente.

Conto de Adrianafetter

Castelo de Cristal

De repente alguma coisa quebrou dentro dela, não sabia explicar, apenas não tinha mais aquela alegria de antes, ficou com medo da vida e de viver.

Estava presa no castelo de cristal, que se tornara a sua frágil mente. Dali ela observava o mundo, com receio de que o cristal se rompesse e o mundo lhe machucasse.

Os amigos estranharam o seu desaparecimento do convívio social. Cada um tinha a sua vida para cuidar, assim seguiram em frente. Por vezes alguém telefonava. Sem saber o que falar, apenas dizia que estava bem. Ela se afastava do mundo e o mundo se afastava dela.

Seus pânicos haviam tomado conta de tudo e ela não sabia como sair daquela redoma e retomar o caminho de volta à sanidade.

A vida se tornara devastadora na imensidão das dificuldades que sentia para resolver qualquer coisa, a roupa por lavar, as compras por fazer, retornar as ligações, responder os e-mails, dormir. Alternava entre insônia e só querer dormir. Dormir era bom, um momento de fuga na dor, as vezes queria adormecer até se sentir curada.

Já tinha pedido uma sonoterapia para a médica, ela respondera que os problemas ainda estariam lá quando acordasse. Tudo o que tinha que resolver estava dentro dela e não fora.

As paredes de cristal impediam que seus gritos interiores fossem ouvidos, só ela os escutava. Doíam tanto…

Tentava se socorrer em orações, as repetia o dia inteiro, para aplacar o buraco no peito que tanto doía.

Se sentia sozinha lutando contra o dragão da depressão, pensava assim, era dragada para um buraco negro, para um poço sem fim, todos os dias.

Sem alternativa e no desespero procurou a única saída saudável que via, ligou para o CVV, era sua última tentativa.

Foi abraçada por um estranho, do outro lado da linha, sem julgamentos, poderia falar sobre suas dores, sem nenhuma vergonha, a voz apenas lhe confortava.

Dentro de si sabia que teria que achar forças para procurar um tratamento, um psicólogo, um psiquiatra para medicá-la.

O Castelo iria ruir, rachar e, assim como ele, ela se faria em pedaços, iria sucumbir.

Há duas possibilidades de terminar esta história, sucumbir ou lutar, eu lutei há mais de 10 anos atrás.

O meu texto fala da fragilidade de uma pessoa deprimida. Aqui finalizo este texto, já me senti assim, é desesperador, passou, tive ajuda psicológica e médicos competentes.

A depressão é uma doença muito séria e tem que ser tratada com medicamentos, porque é uma falha química do cérebro que pode ser sanada. As pessoas podem ser curadas, se tiverem ajuda de quem as cerca.

Não ignore um pedido de ajuda, um olhar de desespero, você pode ser a única saída que essa pessoa encontrará.

Aniversário

bus-1615549_1920
Na parada de ônibus, voltando para casa, ela se perguntava como seria o encontro com o marido. Ao levantar ele não lembrou do seu aniversário, no mesmo dia, indo almoçar ela lhe telefona, convidando para almoçar, ele diz que está ocupado. Mais tarde pergunta se irão comer uma pizza, ele responde, quer gastar mais do que já gasta?!

Que dia! Fora os cometários da vizinhança que ela estava mesmo levando um par de chifres, que ignorava solenemente. O que valia para ela era ter seu homem em casa, lhe amando, mas nem isso percebia mais, o carinho de antes.

A verdade é que naquela noite, mais do que nunca, ela desejava uma grande demonstração de atenção, queria se sentir viva, mulher, ansiava por carinho. Não só porque era o seu aniversario, porque sentia saudade dos dias que se sentia poderosa.

O ônibus chegou, sentada no degrau, único lugar que encontrou, começou a chorar, não conseguia segurar as lágrimas de frustração, do tanto que tinha investido naquela relação, elas escorriam a vontade, perceptível a quem participava do mesmo transcurso.

Um colega de viagem se aproximou, falou que percebeu a sua tristeza e se podia ajudar, ela mal conseguia balbuciar, disse, é meu aniversário. Ao que ele respondeu, tanta desolação, porque envelheceu um ano mais?! Ela declarou, não, não é por isso, é porque ninguém lembrou, nem meu marido.

Para surpresa dela ele gritou – gente é o aniversário da moça aqui, quero um parabéns cantado bem alto. No inicio levou um susto com o povo todo cantando, aos poucos as lágrimas sumiam e davam lugar a um sorriso envergonhado. Que coisa louca essa vida, a empatia vinha de um desconhecido, que ao final lhe tascou um beijo inesperado, dizendo, você é uma mulher linda, não merece lágrimas. Fica bem!

Desceu do ônibus sem sequer saber quem era o rapaz ou seu nome. Seu dia era outro, melhor, sua noite, afinal era uma mulher bonita, para quem um ônibus inteiro cantou parabéns.

O marido, isso era outra história, com o tempo ela veria o que fazer…

Conto de Adrianafetter

O metrô e a vida

bus-1834485_1920

Todos os dias no metrô ela dormia às vezes sentada, quando dava, outras em pé mesmo, encostada aproveitava os infinitos minutos, até chegar ao destino.

Essa era a rotina, levantar, arrumar rapidamente o café, lavar a louça e sair correndo para pegar o ônibus, para conseguir entrar no metrô as 6h.

A vizinha levaria as crianças para a escola, deixava a mesa posta com o café e elas de uniforme, as vestia mesmo dormindo, para não dar trabalho para a amiga.

O marido?! Já tinha se ido, achado outro caminho, sequer tinha notícias dele.

O sustento da casa era por conta dela, mas comida na mesa tinha. Podia ser pão dormido com café, arroz e feijão com ovo, mas tinha. Morar no subúrbio era o que dava, no momento.

Sempre dizia às filhas: estudem, nunca dependam de ninguém, a vida só é vivida assim, façam seu próprio caminho.

Nem ela sabia como tinha chegado ali, tanta luta todos os dias. Tanta caminhada para ganhar a comida e o aluguel, mas pelas filhas e o seu futuro valia cada passo.

Estudou até finalizar o segundo grau e casou.

As meninas teriam muito mais do que ela teve, essa era a meta. Para elas muito mais que ser manicure, indo até as clientes, para completar as necessidades da família. Ela lutava e não recuava em nada.

Sua salvação sempre foi o que sabia fazer. Fez um curso profissionalizante, curto, mas dava para o sustento. Também escovava o cabelo das clientes mais próximas e sabia maquiar, quando pediam.

No metrô dormia, benditos minutos para o corpo e para a cabeça, a sua porção de tranquilidade.

conto de Adrianafetter

Ariano Suassuna – também acredito!

Não sou nem otimista, nem pessimista. Os otimistas são ingênuos, e os pessimistas amargos. Sou um realista esperançoso. Sou um homem da esperança. Sei que é para um futuro muito longínquo. Sonho com o dia em que o sol de Deus vai espalhar justiça pelo mundo todo.

(Ariano Suassuna)

Lya Luf e a minha compreensão de mundo

Poderíamos aprender tanto com essas palavras! A vida tem nos mostrado que o diálogo está cada vez mais difícil de acontecer, que o ser humano não quer se entender, que o racismo está se impondo e a intolerância também.

As mulheres estão se tornando posse e não apenas um gênero, que é o que diferencia socialmente as pessoas que tem direitos iguais.

Desde quando a xenofobia se instalou em nós?! Somos um país de imigrantes, assim foi a nossa formação, por quê não aceitamos as pessoas de outros lugares?!

Não é este país que quero para meus filhos, para meus netos e seus descendentes. Quero um país que respeite as pessoas, que respeite a sua dignidade.

Espero muito mais dos brasileiros do que a intolerância, o racismo, a xenofobia, o feminicídio e a discriminação que tenho assistido no momento.

Quero um país justo e digno de seres humanos. É isso que espero de nós brasileiros.