Menino (AF)

Eu te vi menino do olho triste

E te quis embalar e aplacar tuas angústias

Tirar de dentro d’alma tua

A tristeza dos olhos

E fazer-te livre de ti mesmo

Compreendi, entretanto, que só tu

E não eu, que assim poderia fazê-lo

E saíste pelo mundo a vagar

Procurando o encanto do embalo

Dos braços que haveriam de te afagar

Da alma que um dia irá te acalentar

Vai menino…

Vai tristeza …

Segue minha vida.

Poesia Adrianafetter

Amante (AF)

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O Corpo pede beijos

A alma cobra afagos

O espírito espera completude

A carne quer ser tocada

O interior deseja o companheiro

O exterior anseia pelo amante

As mãos pedem o encontro

Os corpos pedem o toque

Meu eu tem fome

De amor

De paixão

De troca

De permissão

De desejo

Do pecado da gula

Da gula da carne

Do teu eu

poesia de Adrianafetter

Me Acolhe (AF)

Meu verso âncorou fora de mim.
Não há vida sem expressão —
me instiga a necessidade da escrita.

Na madrugada, as estrelas
são a companhia de que desfruto.
O silêncio de teu dormir não alenta.

Minha alma nunca dorme.
Quando fecho os olhos, já é dia.
Tenho de recomeçar
quando o que mais quero é recolher-me.

Me acolhe!
Preciso descansar…

Sou inquieta, estou às escuras.
O que importa?
Só se entregar…

Poesia de Adrianafetter

Horizontes

Ela tinha um olhar triste, o horizonte parecia não ter fim, assim como o seu sofrimento.

Não entendia o porquê de continuar ali, na verdade só fazia pela filha, queria lhe dar um futuro melhor que o dela.

Respirava fundo a cada dia e pensava, ela merece ter uma vida melhor que a minha.

Os dias passavam lentamente, quem mandou não estudar?

Dependia completamente do salário do marido, pelo menos ele pagava o estudo da menina e o plano de saúde, para ela restava a fila do postinho.

Antes do casamento todos lhe diziam é um partido de ouro você tirou a sorte grande, ela também pensava assim.

Homem estudado, tinha feito administração, trabalhava numa boa empresa ía lhe dar uma vida de futuro.

O futuro foi uma casa para limpar, que ele sempre dizia que não brilhava o suficiente, a comida para fazer, que nem aos pés chegava perto da da sua sogra e as roupas para lavar e passar. O esposo reclamava sempre do colarinho, não estava branco como deveria e sequer bem passado. Para que casara com ela, então?!

Tinha pensado em ser normalista, mas o pai não aprovara, isso iria atrasar o casamento e o genro o agradava muito, não queria que a filha perdesse essa grande oportunidade na vida.

Rita via os avanços da sua filha, melhor aluna na escola, valia qualquer sacrifício, ela realmente venceria, ficaria nesse casamento infeliz, a filha se formaria, como o pai, ela compensava sua tristeza com isso.

O inesperado um dia aconteceu, ela se apaixonou platonicamente pelo colega do marido, que sempre era convidado para sua casa.

A tratava com gentileza, um dia levou flores para agradecer pelo jantar. Percebia nele a amabilidade que nunca tinha visto seu marido lhe dispensar. Respondeu com um sorriso tímido: não precisava.

Ficava esperando Juvenal convidar o Roberto mais seguidamente, esses pequenos momentos lhe preenchiam o coração, mas não queria dar na vista, nem para o marido nem para a visita.

Bastava aquela visita para compensar os dias de tédio. Caprichava no jantar, sempre seguidos de elogios do convidado.

O marido, por sua vez, quando Roberto ía embora, lhe dizia: pelo menos na frente dos meus amigos eu não passo vergonha com a sua comida, por que não cozinha assim todos os dias? Podia caprichar mais para mim.

Ela nem ligava mais para as reclamações, estava feliz, não sabia explicar, mas estava feliz. Sua auto-estima aumentou. Resolveu mudar.

Procurou cursos na internet, em casa mesmo, queria se atualizar, preencher suas horas vagas.

O primeiro que encontrou que lhe agradou, como fazer uma maquiagem leve, sem muitas complicações. A partir daquele dia, seu rosto maquiava.

Depois achou um de empreendedorismo, o marido sempre falava nisso, ela quis entender do que se tratava, como gostou desse curso, pensou nas possibilidades de ganhar um dinheirinho próprio. Só não sabia como. Então pensou nos brigadeiros das festinhas da filha.

Fez um teste, uma panela de brigadeiro bem caprichada, enrolou bem bonitos. Ofereceu para S. Walter vender os doces na mercearia. Ele aceitou, deu um aviso: fico com esses se venderem bem encomendo mais. Vendeu!

Aos poucos Rita foi adquirindo uma chama interna que a impulsionava a crescer, percebeu que não dependia dos elogios de Roberto, mas que foi muito bom ter sido elogiada. Fez com que ela percebesse sua própria existência, descobriu a motivação.

Roberto deixou de ir jantar, trocara de empresa, mesmo assim isso não a abalou, tinha retomado sua felicidade interior, se gostava, se bastava.

Crescia com novos cursos descobertos, já fizera de o brigadeiro gourmet, bolos caseiros, de festa, investia no que entendia e gostava de fazer. Pela primeira vez se sentia valorizada por algo que executava.

A vizinhança encomendava, entrava um dinheiro extra, até a relação com Juvenal estava diferente, parecia que lhe respeitava mais.

Rita via o quanto se gostar transformava aos poucos a sua vida, ela se dera respeito e se fazia respeitar.

Aos poucos o horizonte se ampliava, ela se transformava e sua vida também.

Conto de Adrianafetter

Ruínas de Preconceito

Rute pegava o metrô todos os dias. Ia cedo para o trabalho, nem sempre conseguia entrar no vagão exclusivo para as mulheres. Às vezes cheio demais, outras vezes ele já estava parado lá embaixo, na descida das escadas. Tinha que correr e entrar na primeira porta do vagão.

Via muitas colegas reclamarem do assédio nos transportes. Nunca tinha visto nada. Então, na sua cabeça, já tinha um pensamento pronto: “Deve ser a roupa ou os modos delas. Por isso venho sempre vestida como mulher de respeito, ninguém me incomoda.” Nem dava ouvidos. Afinal, a culpa era delas que não se davam ao respeito. Ela tinha sido muito bem educada. Na igreja, todos elogiavam sua seriedade.

Ouvia, vez em quando, maledicências na sua paróquia. Algumas famílias tinham se mudado, falaram que o padre não era sério. Como assim?! Até nome de santo ele tinha! Padre Antônio, era caridoso, ensaiava o coral de meninos, que tratava com muito carinho. Do pastor da igreja da Dona Cida também tinha comentários, de desvio de dinheiro e envolvimento com mulheres do Bairro. Para Rute era muita maldade dessa gente, ficar falando desses homens escolhidos para pregar a palavra de Deus.

Na segunda-feira, se atrasou. Cinco minutos, mas o metrô não espera. Correu, passou seu cartão na catraca, desceu a escada rolante pedindo licença, se lamentando: “Como fui deixar isso acontecer?! O chefe não gosta de atraso… Tá certo que ele chega bem depois, mas liga só para saber se já cheguei, diz que é para dar bom dia, é uma gentileza… e eu atrasada.”

Nem sabe como conseguiu entrar no vagão. Lotado. As portas fecharam com um estalo seco. Na sua frente, um senhor muito distinto, barbeado, impecável no terno, sorriu: “Bom dia!”. Ele também tinha vencido o atraso, parecia feliz. Ao lado, um rapaz de rabo de cavalo, roupas largas e coloridas – exótico, logo pensou. Como essas pessoas conseguem se vestir assim?! Mas o rapaz respondeu ao seu bom dia, educadamente. “Ao menos sabe dar um bom dia.”

O senhor distinto impressionava. Ele se aproximou como se fosse descer na próxima estação. Encostou nela. “Nossa, está muito cheio hoje”, pensou, tentando se acomodar. O senhor não desceu. Continuou encostado, pressionando-a contra a parede fria do vagão. Rute ficou dura. Uma paralisia estranha tomou seu corpo. Não conseguia olhar para os lados, constrangida. Sentiu o calor dele, o tecido grosso do terno contra seu braço. De repente, percebeu um movimento ao seu lado. “Deve estar pegando a carteira”, tentou racionalizar, enquanto uma pontada de desconforto subia pela espinha.

Os movimentos foram ficando ritmados, intensos. Um vai-e-vem estranho, insistente. Rute congelou. O ar faltou. Antes que pudesse reagir, o jovem esquisito se colocou entre os dois, empurrando o homem com força. “Não tem vergonha, não?! Se veste assim pra quê? Pra se esconder enquanto desrespeita uma mulher?!”

Aí ela teve coragem de olhar para baixo. Seu sapato social preto estava encharcado. Uma substância esbranquiçada, gosmenta, escorria pela fivela e manchava a meia-calça. Um cheiro ácido, adocicado, invadiu suas narinas. As lágrimas afloraram, quentes e silenciosas, escorrendo pelo rosto enquanto tremia feito vara verde.

O rapaz voltou-se para ela, a voz mais suave: “Moça, não fique assim. Eu vou te ajudar.” Chamou o guarda do metrô enquanto segurava firme a gola do terno do sujeito, que tentava se esquivar, o rosto antes distinto agora contraído em um ricto de raiva e medo.

O caminho até a delegacia foi um borrão. Rute caminhava como um autômato, guiada pelo rapaz – Tiago, soube depois –, sentindo o peso dos olhares curiosos, o sapato grudando no chão. A vergonha queimava seu rosto. O que está acontecendo? O mundo, sólido e previsível minutos antes, desmoronava. Tinha uma repórter lá, microfone em punho. “Senhora, pode nos contar o que aconteceu?” Rute abriu a boca, mas só saíram sons roucos, sílabas truncadas. Balançou a cabeça, as lágrimas renovadas.

Tiago interveio, calmo mas firme: “Essa moça entrou no metrô, estava lotado. Aquele cidadão, todo engravatado, se masturbou ao lado dela. Sujou os pés e os sapatos dela. É um sem-vergonha, sem caráter. Ela está em choque. Eu vim junto pra dar suporte.”

Rute não entendia mais nada. O senhor distinto era um depravado. O moço esquisito era uma boa alma. A cabeça girava, o chão parecia ceder. Pediu para chamar o marido. Dentro dela, uma culpa aguda latejava: O que eu fiz de errado?

José chegou como um furacão, a cara uma tempestade. Antes mesmo de olhar para ela, cuspiu as palavras: “O que foi que você fez, Rute? Não se dá ao respeito?!” Avançou para cima de Tiago, os punhos cerrados, pronto para acusar o alvo mais óbvio.

Rute encontrou uma voz que não conhecia, rouca mas cortante: “Pára, José! O moço me ajudou tempo todo!”

José estacou, confuso. “Então quem foi o desgraçado, Rute?!”

“Foi esse homem de terno”, ela murmurou, os ombros curvados sob o peso da vergonha e da desilusão.

“O de terno?!” José replicou, incrédulo, apontando para o agressor já algemado. “Não é possível! Ele é um senhor distinto! Quando chegarmos em casa vamos conversar, dona Rute!”

Tiago tentou novamente: “Senhor, ela não tem culpa nenhuma. A única coisa que ela fez foi entrar no vagão do metrô.”

José revirou os olhos, alterado: “Sai daqui, você! Não entende nada. Todo estranho, com esse rabo de cavalo… Deve ser mais um depravado da vida!”

Rute chorou então não só de medo ou vergonha do ocorrido, mas do marido. Dos anos vividos ao lado desse homem que, naquele instante, era um completo estranho. Ele sempre disse que tirou a sorte grande com uma mulher de respeito… As palavras de Tiago, como um fio de lucidez, ecoaram: “Ela não tem culpa nenhuma.”

Tiago, antes de ser empurrado para longe por José, conseguiu deslizar um papel na mão gelada de Rute: “Dona Rute, meu telefone. Se precisar do meu depoimento, estou às suas ordens.”

“Vaza, moleque!”, José rugiu. Virou-se para Rute, o desprezo escorrendo: “Nunca pensei que você fosse me humilhar desse jeito. Que vergonha, meu Deus.”

Em casa, o silêncio era um terceiro personagem, pesado e hostil. Rute só queria apagar aquele dia. Ainda tinha que enfrentar o chefe. Ligou, a voz trêmula: “Dr. Eduardo, aconteceu algo grave… Lhe explico amanhã.” Desligou antes que perguntassem mais.

José explodiu novamente na sala. Rute virou para ele. Os olhos vermelhos, mas secos agora, encontraram os dele. Uma chama fria acendeu dentro dela. “Para de gritar. Eu sou a mesma Rute. Não fiz nada demais. Não sei por que aquele homem fez isso. O Tiago foi um anjo que Deus mandou na hora.”

“Anjo?!”, José bufou. “É um fedelho qualquer, se aproveitando pra aparecer!”

Pela primeira vez, Rute viu José com clareza. E viu a si mesma refletida naquele olhar cheio de preconceito e desconfiança.

Fechou-se no banheiro. A água quente do chuveiro não lavava a sensação de sujeira, nem o cheiro fantasmal que insistia em suas narinas. Vestiu um roupão, fez um chá. Sentou-se à mesa da cozinha, a escuridão lá fora espelhando a que sentia dentro. As histórias das colegas voltaram, nítidas, dolorosas. A da Maria… Lembrou do dia em que Maria chegara ao trabalho com os olhos inchados e um rasgão na blusa. Contara, entre soluços, como um homem tentara arrastá-la para uma rua escura. Conseguira fugir. Desde então, o marido a chamava de “vadia”. O casamento desmoronou. Maria saíra de casa, enfrentando a reprovação dos pais – “Casamento é pra vida inteira!” – e encontrara apoio num grupo de mulheres. Falava de sororidade, de feminismo.

Rute achara tudo bobagem. “Coisa de mulher sem o que fazer”, pensara. Mas via a mudança em Maria, uma força que brotava dela. Rute sempre se calara, ficara na sua.

José não quis deitar na mesma cama. “Durmo no sofá”, anunciou, a voz carregada de acusação. “Coisas assim não acontecem com mulher séria”, resmungou, indo embora. A sentença pairou no ar.

Rute acordou antes do sol. Uma coragem nova, desconhecida, pulsava em suas veias. Encontrou José na cozinha, evitando seu olhar. Parou diante dele.

“José”, disse, a voz clara e estável, surpreendendo-a. “Eu sei quem eu sou. Sei o que faço e o que não faço. Você casou com a mesma mulher que está aqui na sua frente. A mulher que não fez nada para aquele homem, a não ser dar bom dia ao entrar no vagão. Não estou mais te reconhecendo, José. Você não é o homem com quem me casei, que fez os votos na igreja comigo. Acho que você não os entendeu. Então vou repetir: *Prometo amar-te e respeitar-te na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, por todos os dias da minha vida, até que a morte nos separe.* Respeito, José. Eu vou trabalhar. Enquanto isso, você decide onde vai dormir hoje à noite.”

A surpresa estampou no rosto de José. Ele engoliu seco, desviou, mais uma vez, os olhos, batendo as mãos inquietas sobre a mesa. Rute virou-se e saiu. Quem era aquela mulher? Gostou de não saber, ainda. Gostou mais ainda do silêncio atônito que deixou para trás.

O caso estava no jornal da TV. Ao chegar no trabalho, o ar mudara. Maria veio correndo, envolveu-a num abraço forte, quente. “Estou contigo, Rute. Pode contar comigo.” Outras colegas se aproximaram, abraçaram-na, murmuraram palavras de apoio. Algumas ficaram distantes, nos cantos, como ela mesma ficara tantas vezes. “Devem estar pensando que mereci”, passou-lhe pela cabeça, mas a dor era menor agora.

Na sua mesa, uma única rosa num copo de água. Um bilhete do chefe: “Bom dia, Rute. Já sabemos. Se quiser conversar, minha porta está aberta. Mas não precisa se explicar. Fique bem.”

O abatimento ainda a tocava, mas agora era contrabalançado por uma onda de alívio. Encontrara no trabalho o apoio que José lhe negara. O abraço que precisava, o afago para a alma machucada.

Na hora do almoço, procurou Maria. “Maria…”, começou, a voz um pouco hesitante, mas os olhos firmes. “Quando tiver a próxima reunião do seu grupo… Eu gostaria de ir. Se puder. E… por enquanto, você pode me explicar o que é esse feminismo que você tanto fala?”

Maria sorriu. Um sorriso triste, compreensivo, cheio de uma luz nova. Apertou a mão de Rute. “Claro que sim, amiga. Claro que sim.”

Dentro de Rute, algo novo nascia, frágil e forte ao mesmo tempo. Não sabia ainda quem era essa mulher que emergia das cinzas. Reconhecia-se cheia de preconceitos que agora lhe pareciam grotescos. O rapaz que julgara pelo visual fora seu anjo da guarda. A colega que desdenhara era seu porto seguro. O chefe que temera era um aliado. E o marido que idolatrara… José ainda era uma interrogação dolorosa.

Seus preceitos mais arraigados ruíam. Junto com eles, caíam os muros altos dos seus preconceitos. Rute começava a desvendar um mundo e uma vida até então desconhecidos. O trabalho seria longo: varrer as velhas ruínas e, tijolo a tijolo, palavra a palavra, reconstruir-se.

Conto de Adrianafetter

O copo

Ela caprichava na limpeza da casa, afinal tinha acabado de mudar para o centro, queria tudo brilhante, mesmo que sempre tenha sido asseada.

Agora que tinha mudado para o centro. Finalmente ela e o marido haviam saído da Fazenda Couto, 29 assassinatos de fevereiro a abril, aquilo não era vida. O Alto de Amaralina era o paraíso.

O tempo de ônibus então, oxe oh gente, aquilo que era vida, chegava no Rio Vermelho rapidinho, era só subir a rua e estava em casa. Carlos, seu marido também, pena que peão de obras nunca sabe o endereço da próxima onde será.

Tinha tanto orgulho da sua vida, fez até a quarta série, depois um curso de cozinha no Senac, facilitou muito a vida para conseguir o emprego na casa da D. Mercedes. Ela sempre lhe dizia: Rosilene você é uma banqueteira de mão cheia.

Acordava às 5h, para cozinhar antes de pegar no batente, fazia a marmita do marido rapidinho. Era econômica, aprendeu no curso a reaproveitar tudo, sabia até fazer salpicão de cenoura, repolho, casca de abóbora e um pouquinho de frango, era um elogio só na família. E o seu bolo de casca de banana então?! Só ela sabia o segredo.

Só se incomodava com uma coisa, o copo. O marido saía às 6h, ela as 6:30. Enquanto a comida ardia no fogo, ela limpava e arrumava a casa. Deixava tudo organizado, a noite era só lavar e passar a roupa. Na hora de sair, passava um batom e tomava um copo d’água, que quentura é essa da Bahia, gente?! Corria para não perder o ônibus das 6:20. Não gostava de atrasar.

Na pressa o copo ficava em cima da pia.

Carlos chegava antes dela, que só voltava para casa depois de servir o jantar da D. Mercedes.

Era só ela entrar em casa, antes mesmo de beijar o marido e ela já ouvia: que diabos Rosilene, todos os dias é a mesma coisa, não consegue lavar um copo?

Ela suspirava pensando, “Que homem é esse que não vê tudo que faço em casa? Só fala desse maldito copo?!” Ele não via, não percebia o quanto ela trabalhava para deixá-lo feliz.

Dentro dela havia uma revolta latente. Pensava, o copo vai ficar na pia mesmo, não vou perder o meu ônibus por conta dele.

E os dias íam passando e a reclamação era constante ao chegar em casa. Por orgulho ela começou a deixar o copo todos os dias em cima da pia.

Era um copo de requeijão que a dona Mercedes tinha dado para ela. Os do casamento, comprados nas lojas americanas, estavam guardados embaixo da cama, não ia usar copos tão bonitos. D. Mercedes sempre dava mesmo, tinha mais de uma dúzia.

Pensava, que gente, vai gostar de requeijão assim! Coisa mais sem graça, bom mesmo é minha tapioca com manteiga de garrafa.

Chegou em casa naquele dia cansada dona Mercedes tinha convidado 12 pessoas para jantar. Mas fazer o que? Era o serviço dela…

Carlos estava revirado, nossa, cruz credo, o homem tava vermelho, já começou a esbravejar, não sabe nem lavar um copo?! Que coisa Rosilene!

No dia seguinte ela acordou mais cedo, fez todo o serviço de casa, esperou Carlos sair.

Pegou seis copos de requeijão. Passou batom vermelho, beijou cada um deles e deixou em cima da pia, como um beijo para o marido. Carlos não é pessoa ruim, só vive muito cansado, ela pensava, sempre desculpando.

Saiu para o serviço sem nenhum atraso.

Quando voltou começou a ladainha copo pra cá, copo pra lá e ela ouviu calmamente. Afinal, Rosilene era pacata não gostava de briga.

Ela então se aproximou da pia, pegou o primeiro copo e atirou nos pés do marido. Fez assim com o segundo, com o terceiro, com o quarto, com o quinto e com sexto. Enquanto ele gritava: o que é isso mulher?! Você enlouqueceu?! Não é de briga mulher! O que está acontecendo? Por que isso? Eu, eu só falei do copo, eu não fiz nada! E os cacos explodindo e sendo atirados para todos os lados.

Naquele dia, ela não disse uma palavra, não lavou nem passou a roupa, foi deitar e dormir, afinal era filha de Deus.

Quando acordou dia seguinte a cozinha estava varrida, Carlos tinha feito o café, lhe deu um beijo e foi para o trabalho.

Daquele dia em diante, quando Rosilene chegava da casa da D. Mercedes, não encontrava mais o copo na pia, ele já estava lavado e guardado na prateleira de baixo.

Conto de Adrianafetter

Comunhão (AF)

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Estranho perceber
Que a vida pode ser muito mais
Mais carinho, ternura, afeto…
E, isso, aos poucos me tomar conta
De uma forma inusitada
Como se o universo me penetrasse
Fazendo aflorar todos os sentidos do corpo
E saber, que você amado e desconhecido
Venceu as muralhas que resistiam bravamente
Para que finalmente eu fosse sua
Sem restrições, só sua!
Apenas sentindo …
Comungando em seu corpo
Sem nunca tê-lo tocado
Mas sendo completamente tocada por você
Não sei se isso é poesia,
Só sei que meu corpo leu cada verso!

poesia Adrianafetter

O melhor carnaval da minha vida

Naquele dia minha amiga me disse: porque não gostas de carnaval? Pensei um pouco, reservadamente, em minhas lembranças infantis, homens mascarados, encapuzados com uma fronha preta enfiada em suas cabeças, com olhos e bocas vermelhas, se aproximavam gritando, ainda me causavam arrepios, não era festa, era medo.

Era apenas uma mera conversa, mas a mente adentrava em seus labirintos sombrios. Respondi, não sei, apenas não gosto.

Regina me disse, já fostes à Salvador?! Eu apenas passara por lá, sequer tinha idéia do que era o carnaval na Bahia.

Ela emendou: você não gosta de carnaval porque nunca foi ao de Salvador, lá o carnaval é do povo, vou todos os anos.

Pensei cá com meus botões, duvido, mas apenas sorri.

Naquela época eu mal vivia, cumpria rotinas, em casa. Apenas segui meu caminho achando que era feliz.

Estava num relacionamento de um controle que não era claro, aparente, vinha em forma de perguntas simples: passou na padaria, temos lanche, que horas chegou, almoçou onde, por que demorou tanto? Ou opiniões sobre amigas, melhor se afastar, não está a sua altura.

Ao tempo que se mostrava uma vítima para mim: não almocei, a comida estava intragável, você não cuida direito da casa, esperei até essa hora para você trazer um lanche decente, me sinto mal quando você sai com colegas de trabalho, sempre existe um perigo de uma interpretação indevida, estou cuidando de você.

Nunca viajávamos, apenas para visitar a família, qualquer outro plano estava fora de cogitação, sempre era caro demais e um gasto desnecessário.

Fui envelhecendo aos 30 anos, me vestia como uma idosa, o brilho do olho não existia mais, eu só trabalhava, muito. Era a minha fuga a felicidade indo, melancolia instalada aos poucos, despercebida por mim.

Um dia ele se foi, não havia mais a quem dar explicações, eu podia sair, eu podia respirar, sem reclamações, enfim só.

Assim a vida se descortinou, podia simplesmente percorrer a cidade de carro, sem horário para chegar em casa, ver as novas árvores floridas, como nunca as tinha visto.

Então, arrebentando de vez os grilhões, resolvi finalmente passar o carnaval em Salvador. Sem compromissos, conhecer o que a Regina falava ser o melhor carnaval de sua vida.

Queria dançar, mostrar a todos a minha alegria, me diziam, se quiser você será beijada a cada metro. Mais que beijos eu queria o prazer de estar comigo.

Estava solteira, feliz, e na rua dancei, precisava voltar a me amar, ver um mundo novo de cor, deixar a vida me levar.

Era tanta gente resplandecente, eufóricos, desde a Barra até Ondina. Me contagiei nesta opulência. Olhava para os lados e podia perceber aflorar por todos os meus poros os meus sentidos.

E no bloco dos mascarados, ali me vi cantando e dançando, nascia uma mulher que prometia a si mesmo nunca mais deixar de viver.

Conto de Adrianafetter