O Início do Fim



I.

Eram quatorze horas quando o telefone vibrou.

Olhei para a tela e vi o nome da dona da casa de repouso. Não era seu horário habitual de contato. Atendi com o coração já apertado, daquele jeito que a gente aprende a reconhecer quando a vida está prestes a mudar.

— Sua mãe passou a noite na UPA. Estão transferindo ela para o hospital. Ela não está bem.

Não está bem.

Três palavras que cabem numa linha de mensagem mas pesam como uma casa inteira.

Moro em outro estado. Naquela tarde, o Brasil inteiro se esticou entre mim e minha mãe, e eu comecei a buscar passagens como quem reza — desesperada, repetitiva, sem saber se adianta.

Liguei para a antiga cuidadora, uma mulher que minha mãe amava e que conhecia seus silêncios melhor que qualquer médico. Pedi que ela fosse para o hospital. Precisava de alguém lá. Precisava de olhos que eu confiasse vendo o que eu não podia ver.

Meus filhos, ao saberem, disseram simplesmente: “Vamos com você.” Não sabíamos quando seria, quanto tempo ficaríamos, nada. Aluguei um lugar por temporada — um ponto de apoio invisível num futuro que eu mal conseguia imaginar.

A tarde foi um poço.

Passei horas ao telefone com o hospital, com a cuidadora, com a dona da casa de repouso. Cada nova informação era pior que a anterior. Minha mãe estava com 70% de oxigenação. Minha mãe não resistiria. Minha mãe morreria nos próximos dias.

Entre uma ligação e outra, eu reservava voos, transferia dinheiro, respondia mensagens, calculava gastos, despesas extraordinárias, contas do pronto-socorro. A burocracia da morte não espera a morte chegar — ela começa muito antes, nos papéis, nos boletos, na frieza dos formulários.

Não avisei ninguém na minha cidade natal. Não deu tempo. Minha cabeça era um único pensamento: chegar. Só isso. Chegar.

II.

No final da tarde, o celular vibrou de novo.

Uma mensagem.

Minha cunhada.

A mulher que entrou na minha vida quando eu tinha três anos. Que se casou com meu irmão, dezenove anos mais velho que eu. Que foi, durante tanto tempo, uma segunda mãe. Uma casa. Um colo. Uma presença.

Ela, com quem eu gostava de ficar. Com quem eu brincava. Que fazia parte da minha infância como parte da paisagem afetiva que me formou.

Anos antes, eu havia tomado uma decisão e comunicado a ela: eu não voltaria mais para minha cidade natal. A distância não era só geográfica — era existencial. Ela sabia que nossa convivência, a partir dali, seria feita de despedidas.

Agora, naquela tarde de segunda-feira, eu lia a mensagem que chegava pelo WhatsApp.

“Eu conheço sua mãe antes de você. Passei mais anos da minha vida me relacionando com ela do que com a minha própria mãe. Como você não me avisa que ela está no hospital? Tive que saber por uma prima que passou e a viu.”

Uma prima que passou e a viu.

Minha mãe estava numa sala de emergência. Ninguém “passa e vê” ninguém numa sala de emergência. Só médico, só enfermeiro, só quem tem autorização e motivo. Eu sabia que era mentira. Mas naquela tarde, a mentira doía menos que a acusação.

Minhas emoções afloraram todas de uma vez. Eu não precisava daquilo. Eu precisava ser acolhida, não julgada. Precisava que alguém dissesse “estou aqui”, não “você errou”.

Ela disse também que não estava na cidade, que tinha ido consultar numa cidade vizinha. Disse que minha sobrinha — neta da minha mãe — não poderia estar com ela porque estava com suspeita de covid.

Então eu não entendi.

Se ela não estava na cidade, se a filha dela não podia se aproximar, por que me cobrava por não ter sido avisada? O que ela faria? O que qualquer uma delas faria?

Respondi com calma, explicando o que tinha acontecido, as inúmeras atitudes que precisei tomar, a correria, o desespero, a falta de tempo para avisar quem quer que fosse. Expliquei como pude.

Menos de uma hora depois, minha mãe morreu.

III.

Mandei a notificação. Apenas os fatos.

Eu estava em choque. A distância — aquela maldita distância — não me permitia cuidar de nada. Quem tomou as rédeas foi a cuidadora, aquela que minha mãe amava, um anjo que surgiu na minha vida nos últimos anos e que, naquela noite, virou meu braço, minhas pernas, minha voz.

Ela foi ao cartório. Pagou as despesas hospitalares. Cuidou da funerária. Transferiu dinheiro. Fez tudo o que eu deveria estar fazendo, mas não podia, porque o Brasil é grande demais e a morte não espera ninguém chegar.

Pedi ao meu marido: não quero atender ninguém. Não quero falar com ninguém. Quero ficar só.

Ele entendeu. Ele sempre entende.

Mas minha cunhada ligou.

Ligou e exigiu falar comigo. Meu marido explicou: ela não quer atender, quer ficar sozinha. Ela não aceitou. Exigiu. Insistiu. Eu, do outro cômodo, ouvindo a voz abafada, dizendo não com a cabeça, repetindo para mim mesma: não, não, não.

Ela queria falar comigo. E eu não queria falar com ela.

IV.

No velório, ela chegou chorando alto.

Eram poucas pessoas — pandemia, tudo restrito, tudo contido. Mas o choro dela era grande, ocupava o espaço, chamava a atenção de todos. Ela veio na minha direção, braços abertos, pronta para me consolar.

E eu não sabia o que sentir.

Porque dentro de mim havia uma contradição que não cabia naquele momento.

Lembrei da infância. Lembrei da felicidade que era ficar com ela. Ela cuidava de mim, brincava comigo, me embalava. Fui cuidada, fui amada por aquela mulher. Houve um tempo em que ela era o lugar mais seguro do mundo.

Mas o tempo passa. As pessoas mudam.

Ao envelhecer, ela foi ficando outra. Mais ácida. Mais crítica. Mais distante da menina que um dia fui e da mulher que eu me tornara. Foram anos difíceis, desses que a gente atravessa mais por obrigação do que por afeto, porque não se abandona uma mãe — mesmo quando ela já não é mais a mesma.

E agora ela estava ali, aos prantos, querendo me consolar.

Eu não conseguia chorar. Não conseguia corresponder. Só conseguia pensar: essa mulher me amou. Essa mulher me feriu. As duas coisas são verdade. As duas coisas doem.

Fiquei parada. Deixei que me abraçasse, porque era o que se esperava de mim. Mas por dentro, eu era só silêncio e confusão.

V.

Naquela noite, depois do velório, sozinha no escuro do quarto, comecei a lembrar de tudo.

Lembrei de todas as visitas à casa de repouso. Ficava a uma quadra e meia da casa dela. Uma quadra e meia. Dá para ir a pé, dá para ir de olhos fechados, dá para ir todos os dias se quiser.

Ela só ia em datas especiais. Ou quando eu estava na cidade. Aí me acompanhava, como quem faz um favor.

Lembrei das atitudes desagradáveis. Chamar pessoas que minha mãe menos gostava para conversar com ela, como se aquilo fosse gentileza. Como se fosse amor.

Lembrei do meu irmão, morto há anos. Minha mãe, já demente, esquecia. Perguntava por ele. A médica tinha orientado: não corrija, não diga a verdade, apenas desvie, acolha, deixe que a memória frágil encontre seu próprio caminho.

Minha cunhada, em todas as visitas, respondia:

— Seu filho morreu, a senhora não lembra?

Uma vez. Duas vezes. Todas as vezes que minha mãe perguntava.

E minha mãe vivia o luto outra vez. Toda a dor, todo o choque, toda a perda — como se fosse a primeira vez. Repetidas vezes. Como se ela precisasse morrer de novo, sempre que a memória falhava.

E eu pensava: essa é a mesma mulher que me embalava quando eu era pequena?

Aquela noite, sozinha, eu pensei: ela quer falar comigo. Ela quer o quê? Me consolar? Se explicar? Se sentir parte da história?

Não sei. Nunca vou saber.

Porque eu não atendi.

VI.

Minha mãe foi cremada e dias depois depositei suas cinzas, com a dor, com o vazio.

E então veio o momento de decidir onde elas descansariam.

Escolhi um arroio. O mesmo lugar onde haviam colocado as cinzas da irmã dela. Suas águas, eu sabia, desaguavam no lugar onde minha mãe nascera — aquele pedaço de chão pelo qual ela era apaixonada, que ela amava com um amor que não precisava de explicação.

Meus filhos estavam comigo no dia, no arroio, meu filho jogou as cinzas na água. Chamei minha prima, próxima, da minha infância, para fazer uma oração. Ela e minha mãe se amavam e se entendiam. Eu apenas respeitava essa relação.

Foi um momento silencioso, íntimo, sagrado. A água levou minha mãe para encontrar a irmã, para correr em direção à terra onde tudo começou. Ali, naquele instante, senti que ela finalmente estava em paz.

Depois disso, fomos almoçar.

Eu, meus filhos, minha cunhada, minha sobrinha e um sentimento estranho.

Um almoço de despedida consciente, daqueles em que todos sabem que é a última vez. Não houve drama, não houve discurso. Apenas comida, afeto contido, e a certeza pairando no ar.

Ela sabia que eu não voltaria mais. Eu já havia comunicado isso há anos, quando minha mãe morrer será a última vez aqui. A distância não era só geográfica — era escolha, era caminho, era vida seguindo em outra direção.

Ali, naquela mesa, depois de ter jogado as cinzas da minha mãe nas águas que a levariam para casa, eu olhei para aquela mulher — a mesma que me embalou quando eu era pequena, a mesma que brincou comigo, a mesma que me feriu tantas vezes — e soube, com todas as letras, que era a última vez.

Comi. Agradeci. Fui embora.

E guardei para mim o que não cabia dizer.

VII.

Depois daquele almoço, tomei uma decisão definitiva.

Relações familiares tóxicas muitas vezes se arrastam por décadas sob o pretexto do “sangue” ou da “história”. Mas eu olhei para dentro de mim e percebi: manter isso por obrigação não era lealdade a ninguém — era traição a mim mesma.

Tive a coragem de dizer: até aqui.

E isso exigiu força, não fraqueza.

Rompi o contato depois daquele almoço. Não houve briga, não houve discussão. Apenas silêncio. Um silêncio que começou naquela tarde em que me recusei a atender o telefone e que se estendeu para todos os dias seguintes.

Até hoje penso naquela mensagem. Na cobrança. Na urgência dela em ser avisada, em estar incluída, em fazer parte.

Até hoje penso na quadra e meia.

Até hoje penso no velório, naquele abraço que não soube como receber.

Até hoje penso no almoço derradeiro. Na mesa posta. Nos filhos ao redor. Na sobrinha que também sabia. Na despedida que já tinha acontecido muito antes da morte, mas que ali, naquele dia, ganhou seu último ato.

Até hoje penso na minha mãe — na mulher que me amou, na mulher que me feriu, na mulher que partiu levando consigo essa contradição que só o tempo pode explicar.

Até hoje penso na minha cunhada — na segunda mãe que tive, na mulher que me embalou e brincou comigo, na mulher que esteve comigo naquele almoço derradeiro, e na mulher que também me feriu, repetidas vezes.

Duas mulheres. Dois amores. Duas feridas.

E eu, no meio, aprendendo que a gente pode amar e romper ao mesmo tempo. Que o afeto não apaga a dor. Que a memória boa não anula a má.

E que, às vezes, o maior ato de amor próprio é se afastar de quem a gente ama — para não continuar se perdendo dentro delas.

VIII.

Até hoje, quando fecho os olhos, vejo as águas do arroio levando minha mãe para o lugar onde ela sempre quis estar.

Vejo meus filhos ao meu lado, na margem, testemunhando o adeus.

Vejo também a menina que fui, nos braços da mulher que ela era — antes que o tempo a tornasse outra.

E vejo, também, aquela outra mulher. A que me ensinou a brincar. A que me acolheu como filha. A que, com o tempo, se tornou uma pergunta sem resposta.

Vejo a mesa do almoço. Os pratos, os talheres, os olhares. O silêncio.

Não tenho mais o que dizer a ela.

Mas tenho o que guardar: a infância que tive, as brincadeiras, o colo, aquele almoço em que todos sabiam que era a última vez.

E também a decisão que tomei, na maturidade, de me proteger.

Ambas as coisas são verdade.

Ambas as coisas doem.

Ambas as coisas me fizeram quem eu sou.

E até hoje, quando fecho os olhos, agradeço por ter tido forças para deixar ir — minha mãe, minhas mágoas, a cidade natal, e também a esperança de que algumas feridas pudessem ter sido diferentes.

Agradeço, acima de tudo, por ter tido forças para ficar em paz.



FIM

Da Janela Que Se Mudou



No apartamento de 46m²,
a janela era uma tela infinita.
O horizonte vinha até mim sem pedir licença — um planalto de céu, uma geografia de nuvens, o distante que se fazia próximo.

Eu era pequena no espaço, mas imensa na vista.
A solitude tinha quilômetros de amplitude.
O vento entrava sem obstáculos,
e o silêncio era tão largo que cabiam todos os meus pensamentos — e ainda sobrava horizonte.

Agora, nos 120m², a janela não olha para o longe: olha para a vida.
Um prédio de moradores se ergue como um livro aberto.
Cada janela, um parágrafo; cada varanda, uma frase inacabada.

Vejo cortinas que se mexem, luzes que acendem ao entardecer, vultos que cozinham, esteiras que viajam quilômetros, que leem, que esperam.
Não há mais o vazio azul — há o colorido humano.
Não há distância — há intimidade involuntária.

No pequeno, eu tinha o céu.
No grande, ganhei as estrelas domésticas: a luz amarela da sala ao lado, a TV que pisca azul no terceiro andar, o vaso de flores na janela do quinto.

Perdi a imensidão,
ganhei a profundidade.
Antes, o horizonte me dizia: “você é parte do infinito.”
Agora, as janelas iluminadas me sussurram: “você é parte.”

Talvez a vida não seja sobre ter espaço, mas sobre trocar panoramas por presenças.
Sobre aprender que o vasto também pode ser vertical, próximo, cheio de histórias que não são nossas, mas que nos mantêm companhia no novo tamanho do nosso mundo.

Reverberou

O passado reverbera em mim, com uma voz constante e potente, no silêncio do meu ser.

Ressoa em mim
os ecos de um lugar
onde fui feliz
e não sabia…

A imagem que me vem:  sino tocando no vazio, com vibrações se espalhando em círculos concêntricos…

Ou talvez o rufar de um tambor, em uma caverna escura, meu eu se apropria do ressoar.

Reverbera
nos ossos,
no ritmo do sangue,
no modo como fecho a janela
ao entardecer.

Irradia em frequências mais baixas, até se tornar um zumbido de fundo, que acompanha todos os outros sons da vida.

E eu já não tento calá-lo.
Aprendi a escutá-lo
como se ouve o mar
dentro de uma concha:
com respeito,
com medo,
com a certeza
de que essa voz
— embora antiga —
ainda tem
o poder de marear.

A Primavera Interior

Primavera, Botticelli




Era uma menina em jardins de livro, Botticelli vivo, um doce suspiro.

Zéfiro soprou, flores desabrocharam, ninfas dançaram e ela sonhou.

Acreditou na vida só de flor e cor, só de branda dança, eterna doçura.

Mas o tempo ensina outra lição: a primavera é vento, mudança e ciclos.

São frutos que caem, raízes no frio, coragem que brota no solo vazio.

Ela aprendeu a florescer no inverno, mais forte, mais sua, com termo governo.

Agora ela é Flora, é a Primavera, é a tinta e a história que a vida gera.

Carrega o mistério da obra de arte, e a eterna semente em seu peito parte.

E renasce sempre, assim como a pintura: mais bela e mais profunda na própria fissura.

Poesia de AdrianaFetter

O poema

Que seus olhos vejam
o que o espelho ainda não capta:
o eterno que você já é.

Não precisa renascer — porque nunca deixou de arder.

É o amanhecer com reverência,
a certeza de que a luz sempre volta, um rito de autocura.

Você já é fogo, asas e renascimento em versos vivos.
O poema que nasce da sua própria força.
Leio com as mãos em prece.

Poesia de AdrianaFetter

Um não talvez

Talvez eu vá ao parque caminhar hoje. 
Talvez as palavras me visitem e eu escreva. 
Auxiliadora me chamou pro cinema – talvez eu aceite. 

Talvez eu viaje para o interior de Minas, 
engolir montanhas com os olhos, 
sentir o cheiro de terra e café coado… 
(sempre quis). 

Talvez eu pule de paraquedas – 
aquele sonho antigo de cair para o céu. 
Talvez comece natação segunda. 
Talvez experimente aquele doce de geleia de araçá. 

Talvez assista à série famosa 
quando sobrar um buraco no tempo. 
Talvez aquele homem lindo me veja 
através da névoa dos seus fones. 

Ou talvez não. 
Talvez fique em casa. 
Talvez chova. 

E assim, de talvez em talvez, 
a vida escorre entre os dedos 
como areia. 

Talvez você nunca faça 
o que te incendeia por dentro. 
Talvez vire espectadora 
da própria existência. 

Mas eis o segredo: 

Talvez não é verbo. 

Faça-se vida!

O livro da minha vida


Cada pessoa carrega crônicas únicas, momentos que somados formam histórias cheias de sentido.

Ser feliz é uma escolha pessoal, viver cada instante, não ficar presa no passado, nem tentar antecipar o futuro.

A minha tem sido tentar melhorar a cada dia, superar o ontem e abraçar quem eu sou hoje.

Nem sempre é fácil, mas busco viver de forma que, ao olhar para trás, eu não queira mudar nada — porque fui o melhor de mim em cada instante.

Sou grata pelas dificuldades, pois me fizeram crescer. O que me sustentou foram os laços de carinho e a consciência de que agi com a maturidade possível em cada fase.

Minhas decisões me definem. Reinvento-me sempre, celebro minhas alegrias e sigo em frente com leveza.

A vida pode ser um encanto — desde que a gente sonhe, realize e esteja aberta às possibilidades. 


Encare os desafios com sabedoria, mantenha o equilíbrio, e nunca deixe de acreditar em si.

AdrianaFetter

Meus olhos

Meus olhos fotografaram tanto,

Vida a fora, cantos em que estive,

Lugares que vivi.

Também o que não existe mais,

Está guardado, nos meus registros cerebrais.

Todas as cores, as sensações, as nuances,

Tudo está catalogado em mim.

Tenho nostalgias imersivas,

Perambulo pelo tempo,

Encontro.

Busquei em meus fichários, anotações mentais, reorganizei.

Puxei das entranhas,

Submergi na dor, ou na alegria.

Tanto faz…

As frações estão em mim,

Até perecer.

Cida, minha íntima

Lá eu no meio do campo, minha vaca no pasto, já tinha deitado e desistido do parto, cansada, sua bezerra era grande demais para ela.

Esse foi o dia que eu resolvi fazer um parto, numa vaca, porque era isso ou a morte dela e da bezerra, não queria desistir de nenhuma delas.

Nunca tinha feito parto, só achei que podia e iria conseguir.

Talvez você não conheça o seu potencial e sequer outras pessoas saibam daquilo que você é capaz, mas entenda, muitas, inúmeras vezes, você é, até mais.

Se eu não tivesse acudido aquela vaca, ela não estaria neste mundo.

Meus filhos buscaram a pilha de panos de chão, que eu comprei num sinal. Parto é escorregadio.

A terneira, ou bezerrinha estava virada, ía nascer pelas patas traseiras.
Medo, era um pouco mais difícil, mas não impossível.

Vocês já assistiram à um parto? Eu já, mas humano, agradeci por isso, usei algumas manobras que eu havia visto.
Então, sem maiores detalhes…

A Aparecida, chegou, num dia 12 de outubro.

“Prazer, Cida para a humana Adriana, minha íntima, que me salvou.”

Léo Buscaglia, uma referência de vida.

Leo Buscaglia foi uma referência importante na minha vida. Um professor de origem italiana, lecionava na Universidade do Sul da Califórnia, o curso: Amor .

Ele falava sobre cotidiano, simplicidade, profundamente.

Dos seus inúmeros livros os que mais me marcaram: Vivendo, Amando e Aprendendo e Amor.

Compartilho com vocês um dos textos preferidos.

Glória Maria, morre um ícone

Glória vai fazer muita falta, com sua energia, vida, força.

Foi a jornalista da minha geração, cobriu de tudo, participou de verdade nas suas matérias, mostrando todas as suas emoções. Pioneira.

Abriu caminhos, para as mulheres. Para as mulheres negras foi ícone, farol, coragem.

Fez história, Brasil, mundo,vida!

Única, estilo inigualável, essa é a palavra: admirável!

Ela realmente viveu! Vai em paz Glória, a luz te recebe com muita honra!

Não existe fórmula para um ano perfeito

Faça suas reflexões para o novo ano. O que quer que aconteça?

Verifique o que é realmente importante e relevante para a sua vida e faça disso o maior sonho a maior conquista.  Isso vale para os pedidos de desculpas que não fez, aquela declaração que não disse, aquela visita que você vive adiando. 

Trate de avivar a sua vida. Se quiser dançar, dance.  Cante! Vá ao cinema quando desejar, coma aquele doce que você tanto gosta, faça pipoca pra ver TV, não fique adiando planos, mesmo que sejam simples.

Sabendo que, um momento pode mudar tudo, o que estamos fazendo em nossos instantes?!

Perdemos a nossa verdadeira expressão, a verdadeira exteriorização de nós mesmos, vivemos para agradar aos outros, infelizes.

Se pergunte e responda, onde quero chegar, com quem quero ir, só você pode ser só você, qual caminho irá trilhar, seja honesta, porque só você terá as respostas.

Na vida o melhor é ser o mais honesto possível, inclusive consigo mesmo! Não se foge de problemas, no máximo se adia.

Monitore sempre os seus sentimentos e os seus problemas, para que não se agigantem e para não se afundar com eles, para não atrapalharem a navegação.

Para a vida o diálogo, o respeito e o amor são uma boa fórmula, um bom caminho.

A vida tem suas estações, tudo ao seu tempo, mudamos para evoluir, assim como na natureza.

O tempo não para, não pare no tempo. Não perca a capacidade de sonhar e continue colorindo a tela em branco que é a vida.

Estrutura, Conjuntura – Vida

Lembro de vários momentos, em minha vida, em que eu estava dentro de um turbilhão, e pensava o quão difícil seria contornar aquela situação, que, hoje, olhando para trás, percebo como seria tranquilo administrar, mas a maturidade de agora é a que enxerga e percebe isso.

Olhar como espectador e não como ator. É difícil se distanciar e fazer uma avaliação em como agir, mas é uma ação necessária.

Costumo dividir as situações em estruturais e conjunturais.

Estrutural é aquela situação que vai marcar a vida e fará com que a ela se modifique. O nascimento de um filho, a morte de alguém muito próximo, uma doença grave ou limitante. São aquelas mudanças que deixam uma marca indelével. As capazes de interferirem nos nossos valores, nos mudar profundamente.

As conjunturais podem ser difíceis, no momento em que se vive, trazerem sofrimento, mas só fazem diferença durante certo tempo, enquanto se está nela.

Uma discussão, o fim de algum relacionamento, uma mudança de cidade, uma mudança de emprego. Situações que você pode mudar ou alterar.

O fim de um relacionamento também abre perspectivas novas, novos amores, autoconhecimento. A saída do emprego idem, novas oportunidades.

Saiba dar a devida importância e perceber a diferença entre àquilo que realmente fará diferença em sua vida.

Crises acontecem, são passageiras, nos proporcionam a possibilidade de crescer, amadurecer e evoluir.

Os eventos estruturais demandam de nós adaptabilidade e resiliência. Requerem uma energia intensa, são momentos decisivos em nossas vidas. São definitivos.

A vida é uma aprendizagem constante, ela nos traz novas matizes, diferentes luzes. Viver é estar em movimento.

A extensão do seu corpo

O Brasil perdeu hoje um titan da música, Nelson Freire se foi.

Em uma entrevista, o maestro Isaac karabtchevsky falou que o piano, para Nelson, era a extensão do seu corpo.

Uma das suas maiores dificuldades, nos últimos tempos, foi ter que se afastar do piano, sofreu uma queda e uma torção da mão, o que limitou a sua música, severamente.

Não foi um limite apenas físico,  o deixou  emocionalmente abalado.

Me trouxe à memória a situação de minha avó, quando foi proibida de cozinhar. Para ela também o fogão à lenha era a extensão do seu corpo. Cozinhar era viver, era vida, amor.

Não deixou apenas de cozinhar, foi se afastando da vida, daquilo que lhe fazia vibrar, do que a inspirava.

Eu acompanhei esse processo com tristeza, minha avó foi a mulher que mais influenciou a minha vida.

Forte, decidida, usava o cozinhar como forma de transmitir o seu amor aos outros, e o colocava em cada comida que fazia, e foram muitas, incontáveis

Decorava seus bolos com suas rendas de confeiteira. Recheou os nossos sentimentos vida afora com doçura, amor e dedicação.

Não usava afagos, usava colheres de pau, gamelas, panelas e o seu fogão a lenha.

A cozinha era a extensão do seu corpo e o fogão o seu instrumento.

Minha avó Olga, sem conhecer a rica teoria de propósito, sempre me fez entender o quanto é importante, na vida, se fazer o que se ama, aquilo que faz nossa chama interior arder e nos impulsiona, como um trem a vapor, vida afora.

Deixo aqui a minha divagação sobre vida, amor e propósito, o que na sua vida é a extensão do seu corpo?!

Mundo BANI – o mundo dos autoimunes

O termo BANI, Brittle, Anxious, Nonlinear, Incomprehensible, foi criado em 2018, para definir a atualidade dos processos sociais e seus reflexos. Em português, FANI, frágil, ansioso, não linear e incompreensível.

A COVID veio confirmar essa definição e nos mostrar o quão frágil é a nossa civilização frente a um vírus “invisível”. Mas aqui o assunto é o mundo autoimune.

Somos frágeis, mesmo vestidos com a couraça da coragem para enfrentar a vida e nossas adversidades. Haja vulnerabilidade emocional, a baixa autoestima, a perda do suporte social e familiar, pela incompreensão do que ocorre conosco.

Sofremos de ansiedade, a incerteza causa isso. Nunca sabemos como o nosso corpo irá reagir no próximo minuto. Afinal existe uma guerra no interior do nosso corpo, nossos anticorpos lutam contra nós mesmos, nos identifica como inimigo.

Vivemos a não linearidade, planejamentos não fazem muito sentido no nosso mundo, que está em constante mudança, precisamos readaptar sempre a vida, não temos o controle dela. É muita resiliência.

Incompreensível, como somos incompreendidos! Temos dores constantes, mas nenhuma ferida para mostrar. Temos fadiga, não é cansaço, mesmo descansando não passa. A luta dos anticorpos que acontece dentro de nós é diária, permanente, devastadora. E como ouvimos, você parece tão bem…

Nada é visível. Sintomas cada vez mais esquisitos, não sabemos de onde eles vieram e como ocorreram, ainda temos que tentar explicar para os outros, o que são, mesmo sem entender.

É frustrante, mas estamos aqui enfrentando nossa complexidade e seguindo em frente!

Somos um corpo complexo, aprendemos todos os dias uma infinidade de coisas que possam tornar a nossa vida mais fácil.

Precisamos de empatia, respeito, porque, muito antes da sociedade trocar o VUCA pelo BANI, já tínhamos esse mundo confuso e divergente dentro de nós.

A casa em que nasci

seus jardins, cheiros e cores…

Lembro da casa em que nasci e de toda a magia que ela sempre despertou em mim, com seus cheiros e cores.

A casa em si era cinza, de cimento penteado, com janelas verdes escuras. Tinha um lindo jardim e um pátio, de sonhos e magias, aquelas que as mentes das crianças, ainda intocadas pelo mundo, tem.

Na frente havia uma escada de mármore branco, margeado por outro azul, lindo, para mim, bancos, reconfortantes depois de correr em volta da casa e passear entre árvores e plantas.

O muro tinha desenhos e recortes, era uma montanha russa para os meus pés. Caminhar sobre ele era uma aventura, cheia de desafios, quanto mais rápido melhor e, na mente infantil, extremamente perigoso.

O jardim tinha flores aromáticas, borboletas, joaninhas, de diferentes cores, tamanhos. Na frente, bem no centro, as amarelas fortes, quase um laranja, cabos bem fininhos e altos que desafiavam a gravidade, depois as papoulas vermelhas, de pétalas tão finas e sedosas, me lembravam asas de borboletas.

A grama era entrecortada por pedras de granito. Os quadrados irregulares, faziam os caminhos a serem percorridos.

De um lado sempre bateu mais sol, porque a casa ficava mais para a direita do terreno, não foi centralizada propositadamente, para se fazer a estradinha de granito cortado até o final, onde ficava a garagem.

No muro alto que ladeava havia um roseiral. Rosas grandes, rosa claro, saiam de troncos retorcidos, ali tinham uma convivência harmoniosa com as orquídeas, em sua maioria chuva de ouro e com a hera que recobria o cimento, deixando o cinza verde.

Do outro lado, na parede mais solar, havia um canteiro cavado no solo, cujas laterais possuíam pequenas corredeiras de cimento, que escoavam as chuvas no terreno inclinado, o meu pequeno rio, onde foram depositados muitos barquinhos de papel.

Flores diversas, de muitas cores, tamanhos e variedades faziam a minha festa, margaridas, bocas -de-leão, onze horas, hortênsias. Lembro de uma, especialmente, cuja a seiva depositada nas pétalas era de uma doçura ímpar, intercalava o sabor com as azedinhas. Muito mais tarde alguém me falou que era tóxica, mas não me fez mal algum…

Ao fundo espadas de São Jorge e de Santa Bárbara ornavam as multicoloridas flores.

No pátio, ao fundo, eu tinha a minha floresta particular, formada por abacateiros, limoeiros, árvores de uva japonesa, pitangueira, bergamoteiras, nêsperas doces, árvore onde eu subia para ver a floresta de cima, todas frutíferas e podia ver a parreira de uvas, onde fazia o meu piquenique imaginário.

Do outro lado,  que deveria ser o sombrio, moravam as hortênsias, azuis, rosas e brancas, sentia ao passar o perfume que vinha do solo, cheiro de umidade e terra preta, profundo, ainda consigo lembrar de cada um dos aromas desse jardim, ficaram impregnados na minha memória.

Havia uma escada de cimento nos fundos, alta, mais inclinada que a da frente, e outra igual entre as hortênsias.  Subir e descer era uma aventura. Mais ainda a das hortênsias cuja porta estava sempre fechada por segurança, mas para mim isso tinha todo um mistério.

Embaixo de cada escada havia uma porta, elas levavam às imaginárias cavernas. A da frente só era aberta vez em quando, para guardar as ferramentas do jardim, soube muito tempo mais tarde. A de trás levava ao tanque e a sala de lenha, usada diariamente para o fogão, para a lareira, no inverno, e a salamandra de ferro, do quarto de meus pais.

Na lateral, uma porta levava ao porão, para um salão onde minha tia dava aulas de francês, onde eu moraria após a morte do meu pai. Aquele lado tinha o cheiro de terra molhada na primeira chuva.

Vivi muitas aventuras em meu jardim, criei muitas outras imaginárias, a cada estação ele mudava, sempre havia uma flor brotando, frutas amadurecendo, cheiros novos no ar.

Talvez ele nem fosse tão grande, como eu imaginava, mas era grandioso, efervescente, vibrante e possibilitou que o meu imaginário infantil viajasse por mundos desconhecidos, me deu asas, sonhos, viagens mil.

Meus jardins foram refúgio da alma, as flores sempre me comovem, os gramados ampliam os meus horizontes.

Presilha

Eu tenho uma presilha de cabelo, pequena, de plástico, que minha filha me deu, tem um significado imenso para mim.

Em 2017 eu estava hospitalizada, no meu rosto uma paralisia facial, decorrência de uma infecção nos ossos da cabeça. A rebeldia dos cabelos me incomodava.

Silvia me acompanhava em mais um dos 10 longos dias, ali. Abriu a bolsa e tirou uma minúscula presilha. Iniciava uma constante companhia.

Estamos em 2021 e a presilha fica ao meu lado, resiste ao tempo, recorro a ela inúmeras vezes.

Cada vez que a pego em minhas mãos, relembro os dias de superação, uma drástica mudança de vida, muita fisioterapia, muita auto dedicação.

A presilha é um marco na minha vida do antes e do depois, me traz a mente do que somos capaz.

A infecção deixou alguma sequela, rosto voltou 97%, diante de um prognóstico de 85%. O corpo precisou de tempo para recuperar altíssimas doses de corticoide.

Superei a paralisia, a perda do meu emprego, o início de uma doença autoimune, a transformação e aceitação de uma vida mais tolhida fisicamente, cirurgias reparadoras de ligamentos.

Iniciei uma transformação interior, me reinventei.

Fiz cursos, criei página nas redes sociais, escrevo em blogues, fiz uma pós graduação. Me adaptei. Não me entreguei.

Descobri uma nova profissão. Sou mentora de adaptabilidade e resiliência.

A presilha me lembra dessa trajetória, dos percalços, mas, principalmente, de tudo que venci. Meu troféu pessoal.

Chocolate quente

Ela sentou no balcão, pediu um chocolate quente, sabia que viria com um merengue açucarado. Tentava segurar as lágrimas.

Iria sorver as colheradas, adoçar a alma, já que a tristeza que invadia o seu peito doía como ferro queimando.

As atendentes conversavam e riam, ignorando aqueles sentimentos.

Quando a caneca chegou, a mais jovem deixou o riso morrer nos lábios ao perceber suas lágrimas escorrendo sem cerimônia. Deu uma cotovelada na colega, de olhos cansados — não por insensibilidade, mas por reconhecer aquele tipo específico de dor.

Se instalou o silêncio!

Saberia, depois, que faltava apenas uma hora para a morte, mas pressentia.

Estava deixando para trás o último abraço que dera no irmão, não voltaria a vê-lo vivo.

O corredor do hospital trazia para cafeteria os barulhos metálicos das macas e cadeiras de rodas, das portas que batiam. Havia o forte cheiro do álcool misturado ao desinfetante. Era melhor ouvir as pessoas da cafeteria.

O chocolate ajudava pouco, haviam gritos internos, que teimavam em sair expressados pela água que escorria pelo rosto.

Quem vende doce nos hospitais deve entender de dores.

Há um quê de curiosidade na relação do açúcar com a tristeza. Por instinto pedira um chocolate quente. Aprendera isso no velório do pai, quando alguém lhe colocara uma bala dentro da boca — gesto pequeno contra a dor grande. Agora, repetia o ritual com o chocolate quente, segunda tentativa de aplacar uma dor de morte.

No prédio do hospital, antigo e velho, transitava há dias. A lanchonete, escura e sombria, cumpria a função de alimentar as suas mazelas.

Os gritos internos teimavam em sair expressos pela água que lhe escorria pelo rosto. O chocolate ajudava pouco, mas ajudava. Quem vende doce nos hospitais, pensou, deve entender mais de dor que muitos médicos.

Eram dias tristes, dias de despedida de um amor fraterno.

Nunca mais o chocolate quente teria aquele sabor agridoce. Ou talvez, anos depois, viesse a descobrir que dores diferentes pedem consolos diferentes — mas esta, específica como uma faca, jamais se repetiria.

Provavelmente, seria o último da despedida.

14 de Abril

Metaforicamente, foi um dia de puxar meu espírito pelos cabelos, buscando trazer para fora a minha força interior, a coragem para viver esses dias tão difíceis, onde falta sensibilidade, empatia e humanidade.

Há um ano, dentro de 46 m², vivo minha solitude plena, com confiança, que, agora, tem se esvaído, diante a trágica realidade brasileira.

A realidade que se impõe é excessivamente dura.

Deus permita que possamos atravessar essa tempestade e recuperar sentimentos de humanidade, olhar para o lado e enxergar um irmão, não um inimigo.

Que ao aportar em águas mais tranquilas, tenhamos ao lado nossos queridos e amados e nossa integridade. Que meus cabelos brancos, de bons dias vividos, resgatem, em mim, a minha esperança.

A minha Páscoa

Meu pai morreu na Páscoa, foi para o hospital na sexta-feira santa. Na noite do sábado de aleluia faleceu e foi enterrado no domingo. Eu tinha 10 anos.

Quando se perde uma pessoa tão amada, numa data especial, você acaba tendo dois dias para chorar.

Marca a data do luto duas vezes, o dia da morte e o feriado, uma tristeza sempre estará presente, uma melancolia, para toda a vida.

A Páscoa nunca mais foi a mesma.

Eu a festejei, desde o nascimento da minha filha, depois meu filho e agora, também, os netos. Havia trilha do coelhinho, ninhos escondidos.

Crianças nos ressuscitam, dão sentido ao verdadeiro significado da Páscoa.

No entanto, geralmente nos reunimos, para almoçar, na sexta, último dia de vida do meu pai. No sábado e no domingo fico quietinha. Desde a chegada do coronavírus, isso não acontece.

Meu filho chegou na quinta-feira, com colombas e um ovo de chocolate, presente dele e da Silvia, minha filha. Em um ano de pandemia e isolamento, foi a terceira vez que nos vimos, de longe.

No domingo de Páscoa esse carinho e um pedaço de chocolate dará o alento e a doçura necessária.

As Meninas da Vela

Definitivamente, sonho acontece em qualquer momento, e, quando envolve alegria e beleza, ele vai vento afora.

É bonito ver desabrochar aquela iniciativa que contém um acalantado projeto de vida. Se torna mais desafiante e incrível colocar em prática esse projeto no meio de uma pandemia.

A Dani (@danifantoniazzi) e a Tatá (@tatamott) se lançaram ao mar, mais uma vez, para criar o projeto meninas da vela (@meninasdavela).

Essas duas comandantes chegaram para inspirar e proporcionar uma nova experiência no mundo das viagens, em especial na Baía de Todos os Santos, com seus recantos tão especiais.

Elas resolveram levar a experiência da navegação para outras mulheres, que gostariam de conhecer o desafio da vela e se deliciar ao navegar mar afora.

Com a segurança de quem conhece as velas e o mar há anos, elas levam outras mulheres para conhecer paisagens maravilhosas e se reenergizar em meio as águas salgadas, respirar e encher o olhar de vida.

Ao comemorar o seu aniversário no mar, Lilian (@lilianvilasanti), experiente agente de turismo (@terraemarviagens), que viajou o mundo inteiro, foi a primeira a abraçar o projeto meninas da vela. Ficou encantada com a inusitada e belíssima experiência de vela e mergulho.

Não há fronteiras para as mulheres pós50. Rompemos as barreiras adentrando novos mares.

Que tal subir a bordo para novos desafios?! As @meninasdavela te esperam em Salvador.

A história desta foto

O mundo é muito grande para você se limitar e eu nunca me limitei.

Porém, sou de uma geração onde as pessoas tinham vocação e, isso para mim era esquisito, para os outros, que tinham encontrado sua área futura de atuação, a esquisita era eu.

Quando fui escolher minha profissão, fiquei entre Ciências Sociais e Medicina. Me acharam meio doida (minha mãe também). Diziam que eu deveria fazer medicina, era a profissão do momento, tinha status.

Escolhi História. Ao terminar migrei para Ciência Política.

Enquanto trabalhava, resolvi cursar uma pós em gastronomia e fazer um curso de barismo (bebidas com café).

Isso trabalhando na área pública. Ali descobri o quanto eu gostava de tecnologia da informação, antes mesmo das redes sociais.

Fui aplicar políticas públicas TI. Era um mundo muito novo, não tinha e nunca me formei em tecnologia da informação, mas implementei várias políticas nela, certificação digital, inclusão digital, apaixonante.

Em abril de 2017, tive uma complicação de saúde, me afastou do trabalho por 10 dias.

Durante a minha hospitalização, a equipe de diretores, para a qual eu trabalhava, foi demitida e, por consequência, eu seria também.

A partir daí, eu teria que me organizar, exclusivamente, com a minha aposentadoria e uma grande perda salarial.

Primeiro decidi fazer uma viagem com amigas, já estava mesmo paga, oportunidade de descansar e organizar melhor a cabeça.

Essa foto foi feita dois dias depois de chegar de viagem.

Coloquei o celular em cima da caixa de som do computador, onde eu estava, antes programei para clicar em 5 segundos.

Acredito que ficou muito boa, pelo inusitado da falta de técnica, eu estava criando, naquele momento, o meu blog e a página no Facebook, ambos chamados Pós50.

Essa é a foto do cabeçalho, e o início de uma incrível jornada de conhecimento.

Nunca se limite, a vida te propõe inúmeros desafios, você pode aceitá-los e descobrir caminhos e possibilidades incríveis.

Flores e estrelas

Eu tive meu pai por 10 anos em minha vida , e, nossa, como ele foi importante nesse tempo!

Meu pai me fazia sentir amada.

Uma das melhores coisas da nossa convivência foi ele me ensinar sobre flores e estrelas e eu lembro delas até hoje.

Eu desejo a você que você tenha, sempre em sua vida, alguém que lhe ame e que lhe ensine sobre flores e estrelas.

Se me derem licença…

Pessoal eu vou me auto elogiar sem constrangimentos, descaradamente!

Vou explicar o porquê.

Estou me sentindo fodástica! Desculpa se o termo agride, mas é isso mesmo, não encontrei outro pra expressar o meu sentimento.

Eu tenho síndrome de Sjögren, uma doença rara, isso quer dizer que eu tenho pouquíssimas lágrimas (sinto areia nos meus olhos o tempo todo), pouca saliva (a boca seca de repente, imagina engolir) e todas as minhas articulações doem, todos os dias, (algumas já operei), além de problemas pulmonares (diversas pneumonias e problemas respiratórios), porque essa raridade afeta as glândulas exócrinas, externas e internas. Só para dar parte do cenário diário para vocês.

E o que eu faço com isso?! Eu vivo! Vivo o máximo, tudo o que eu posso viver, fiquei em distanciamento social, nesta pandemia do COVID, por mais de ano.

Terminei uma pós-graduação em psicologia positiva, em paralelo com cursos de certificação.

Na conclusão da pós, para o projeto final, poderíamos escolher entre diversos templates. Entre eles, um artigo científico, ou uma entrevista com pessoa renomada da área, um vídeo, um produto, um meio de divulgação da psicologia positiva, enfim eles foram super criativos, em nos proporcionar diversas formas para concluir.

Para esses diferentes tipos tínhamos de que desenvolver um roteiro, descrevendo o que faríamos, dentro das referências bibliográficas da Psicologia Positiva.

Eu escolhi desenvolver um blogue, o PAP, propósito acolhimento positivo.

Foram meses quebrando a cabeça, a começar pelo tema, depois layout, paleta de cores, produção de conteúdo, estudando, tudo com cuidado.

Concomitantemente, eu lia os últimos artigos e livros, sobre a Psicologia Positiva, distanciamento e isolamento na pandemia, sobre como desenvolver um blogue, para população leiga, com conteúdos da PP, de fácil acesso e aprendizado do conteúdo.

A partir disso, escrever um roteiro de uma maneira científica, descrevendo cada etapa de construção do blogue.

Gente eu penei!

Então, cuidava de tudo conciliando com os afazeres da casa, limpar lavar, quem cuida disso sabe o trabalho que dá, nunca acaba.

Não cozinho, as mãos inflamam e doem, meu marido cuida disso brilhantemente.

Eu tinha uma faxineira, uma vez por semana e só ia retocando a limpeza durante os demais dias. Madalena, como eu, fez distanciamento!

Voltando ao blogue, cara fiquei orgulhosa, acho que mandei bem no acolhimentopositivo.com! Visitem!

Concomitante, terminei o roteiro científico, encaminhei para o orientador. Confesso que não correspondeu as minhas expectativas, ele só leu o texto, como se o blogue não existisse. Frustrada aqui!

Não deixei de cuidar, junto com a Sandra (mana do coração), da página Pós50, continuo frequentando meu grupo de política online (fiz ciência política, não desliguei), e fui me preparando para prova final dá pós graduação.

Fiz um monte de cursos gratuitos. Doida!

Na idade do condor eu estou mandando bem! Ah eu estou orgulhosa, e sim, me sinto muito fodástica!

Querido diário – há vida nas cavernas?!

Voltem para as cavernas, aliás, nem deveriam ter saído de lá, não precisávamos assistir a escrotidão das suas perversidades.

Voltem para as cavernas, porque nós precisamos da humanidade de quem nos cuida, de quem está lutando pelas nossas vidas.

Vocês que só pensam no dinheiro, na bolsa, nos ativos, nas commodities, em ter, em possuir, em deter, em explorar, que fixam suas vidas no capital, voltem para as cavernas!

São tempos de humanidade, de solidariedade, de afeto, de empatia, de resiliência, de respeito, vocês não estão à altura desses tempos, voltem para as cavernas.

Não é tempo de especular, abusar, humilhar, menosprezar, voltem para as cavernas.

É tempo de cuidar, vocês não sabem o que é isso, voltem para as cavernas.

Vocês que soltaram a sua desenfreada bestialidade e arrogância, voltem para as cavernas.

Não estou falando das cavernas de pedras, da natureza, onde os primeiros humanos se refugiaram, como também os animais. 

Estou falando da caverna escura, inabitável, profunda, buraco soturno, onde se escondeu cada alma de vocês.

Voltem para as cavernas, nos deixem viver!