Tenho o ritual de abrir a cortina e, em seguida, a janela. É o meu jeito de convidar o sol para dentro de casa, de deixar o ar novo circular pelos cômodos. Aprendi, desde cedo, que a luz e o vento são remédios silenciosos para os dias.
Mas é no detalhe que a mágica acontece.
Ao observar o pequeno, descubro um universo suspenso. Fios de poeira fina flutuam no raio de sol que invade a sala, como se fossem pequenos astros numa galáxia invisível. É uma dança lenta, imprevisível, iluminada por um foco perfeito — como se todas as luzes do palco se curvassem, por um instante, apenas para eles. Eu paro, fascinada.
E o mesmo acontece quando as nuvens filtram os raios do sol lá fora. A luz perde a dureza, amolece, se espalha dourada sobre o mundo. É ali que encontro notas de esperança e fé, que alimento a minha espiritualidade sem precisar de templos, apenas de um olhar para o céu.
Porque a luz, no fundo, é um espelho. A que vem de fora não ilumina apenas a casa, os móveis, os cantos esquecidos. Ela ilumina o que mora dentro de mim, e me ensina a refletir o que já existe na minha essência.
Nunca imaginei que uma parte da minha vida fosse ser medida em gramaturas.
Quando cheguei, fui apresentada a um universo que não conhecia: os papéis dos escaninhos. Prateleiras finas, meticulosamente organizadas, abrigando folhas de todos os tamanhos, texturas e pesos. Cada uma com uma função. Cada uma com uma alma própria.
Eles me mostraram, com a paciência de quem ensina um ritual sagrado, que não se tratava apenas de papel. Tratava-se de protocolo, de etiqueta, de um código silencioso que eu precisava aprender a decifrar.
Havia o papel de seda, fino, transparente, lindo ao toque. Era o mais delicado de todos. E, no canto superior esquerdo, trazia impresso o brasão dourado — uma marca de autoridade que parecia flutuar na leveza do papel. Era reservado para as palavras escritas à mão, como um sussurro íntimo e solene do Presidente.
Havia o cartão branco, em casca de ovo, com brasão dourado, imponente e solene. Este era o escolhido para as mensagens especiais, a um destinatário único, como um gesto de distinção pessoal. Era o pavão da burocracia, mas um pavão que só exibia as penas para quem realmente importava.
O cartão branco com marca d’água, mais tímido e talvez o mais humano, era usado para os cumprimentos e condolências, onde a caligrafia se misturava à tinta, tornando-o um objeto de afeto em meio ao protocolo.
No papel ofício, couché, com o brasão da República em marca d’água, o Presidente não escrevia; ele discursava. Ali repousava a voz da nação, pronta para ecoar em solenidades.
E o papel A4, couché, com brasão dourado, era o canal oficial para a comunicação com a Câmara, o Congresso e outros órgãos. Era a voz da República falando com as instituições, carregando o peso da lei e da autoridade.
E então, o governo mudou.
Pessoas novas chegaram, com olhos ávidos e pressa de assumir. E eu, que havia aprendido aqueles códigos, me tornei a tradutora.
Ensinei que o cartão de brasão dourado era para um gesto raro, que o papel de seda exigia a caligrafia mais bela, que o ofício com marca d’água não era para rascunhos, ali imprimia-se os discursos. Ensinei o peso de cada palavra, o valor de cada textura.
Eu deveria ter guardado cada um deles. Deveria ter guardado o cheiro da tinta, a textura áspera da gramatura pesada sob os dedos, a leveza etérea do papel de seda deslizando pelas mãos — e o brilho discreto do brasão dourado naquele canto superior esquerdo, como uma joia incrustada na delicadeza.
Mas o tempo passou. A Presidência foi se tornando mais tecnológica, mais veloz, menos analógica. Os escaninhos foram se esvaziando. Os papéis foram sendo substituídos por telas, por bits, por um mundo que não tem textura, que não tem peso, que não tem cheiro.
E eu, que nunca imaginei que teria de conhecer tantos tipos de papéis, agora me pego saudosa de algo que nem sei se ainda existe. Saudosa daquela era em que a importância de uma palavra se media pela gramatura do papel em que ela era escrita, e em que a hierarquia de um país inteiro cabia, silenciosamente, dentro de um escaninho.
Guardo na memória todos os protocolos e o sabor daquelas tradições, assim como o cheiro de cada um dos papéis.
Antes de deitar tomo a fórmula fitoterápica que ajuda a relaxar
Pingo as gotinhas mágicas
Faço a Acupressão nos braços
Uso os mesmos pontos da acupuntura tradicional chinesa
E deito para relaxar numa incrível noite nos braços de morfeu
Num segundo a minha mente se enche de pensamentos alternativos
Desde arrumar a geladeira,
O próximo texto que vou escrever
A mensagem que vou enviar para os meus filhos
O roteiro da próxima viagem
A Bienal de São Paulo
São infindáveis e desnecessários
Esse agente dentro do meu corpo, meu cérebro, é completamente independente de mim
Ele toca o terror na hora de dormir
Tem dias que estou embarcando num soninho
Ele grita dentro de mim, olha só começou a dormir.
E me acorda para a próxima hora insone
E eu fico fritando na cama de um lado e de outro escolhendo a melhor posição
Sabe o que é engraçado? Tomei alopatia, fitoterápico, fiz acupressão, comprei o melhor colchão do mercado… Mas a verdade é que a minha mente não paga aluguel e se acha dona do imóvel. Ela chega de madrugada, muda os móveis de lugar e me obriga a morar na bagunça. Hoje, cansei de lutar. Deixei a ditadura da minha mente varrer a casa. Se ela quer trabalhar, eu vou descansar. (Ela que se vire).
(ou: como eu aprendi a conviver com o meu próprio corpo)
Se você olhar para os meus exames, vai achar que eu sou uma personagem de novela médica — daquelas que vivem internadas, mas sempre encontram um jeito de dar uma escapada para o jardim.
Eu sou autoimune. Tenho artrite reumatoide, síndrome metabólica grave, epilepsia, doença de Sjögren — essa que resseca olhos, boca e alma, e que ninguém avisou que vinha junto com um pacote de inflamações. Meus pulmões vivem tendo um probleminha ou outro, e minhas articulações já perderam a conta de quantas vezes resolveram entrar em greve.
É o meu corpo tentando me dizer que a vida não é uma linha reta — é uma montanha-russa com altos, baixos e alguns loops que eu não pedi.
Estou na minha quarta infecção do ano. Esta é uma inflamação no pulmão — não é pneumonia, graças a Deus, mas já é o suficiente para me lembrar que a fragilidade também faz parte de mim.
E, no entanto, aqui estou. Escrevendo. Postando receitas no Cozinhando. Planejando. Amando. Vivendo.
É que eu aprendi, com o tempo, que a minha saúde não define a minha vida. Ela a acompanha — como uma sombra que às vezes se alonga, às vezes se encolhe, mas que nunca me impede de caminhar. Eu não deixo de fazer as minhas coisas porque tenho problemas de saúde. Nunca deixei. E não vou começar agora.
Isso não é negação. É escolha.
Claro que há dias em que o corpo pesa mais do que a alma. Dias em que levantar da cama parece uma tarefa hercúlea, e em que o silêncio do quarto é o único remédio que eu aceito. Mas, mesmo nesses dias, eu sei que a vida continua lá fora — e que eu posso, aos poucos, alcançá-la.
A artrite me ensinou a ter paciência com as mãos. A epilepsia, a respeitar os limites do cérebro. O Sjögren, a aceitar a secura com colírio à mão e um copo de água sempre por perto. As inflamações pulmonares, a valorizar cada respiração que não dói.
E, acima de tudo, tudo isso me ensinou que a produtividade não é sobre fazer tudo, mas sobre fazer o que importa. Sobre escolher as batalhas — e vencer as que valem a pena.
Então, se você está lendo isso e também tem um corpo que teimoso, que vive dando defeito, que parece ter um plano próprio, eu quero te dizer uma coisa: você não está sozinha. E você não é a sua doença.
Você é a sua coragem. A sua resiliência. A sua capacidade de rir da quarta infecção do ano e pensar: “Bem, pelo menos eu ainda posso fazer piada”.
Você é a sua Fênix. E as Fênix não param de voar — mesmo com as asas um pouco cansadas.
A vida não é sobre não ter problemas. É sobre como a gente lida com eles.
E eu, minha gente, escolhi lidar com os meus com um sorriso no rosto, uma receita na mão e a certeza de que, por mais que o corpo tente me parar, a minha alma está sempre em movimento.
Porque Fênix, de verdade, não é quem nunca cai. É quem sempre se levanta.
E, por aqui, eu continuo levantando. Sempre. 🕊️
— Adriana Fetter Escrevivente, cozinheira de afetos e Fênix de plantão.
Transformar a dor em arte é o meu lema. Escrevo poesias e prosas sobre a vida para dias com mais beleza, leveza e fé. Entre, sente e sinta essa expressão.